domingo, 28 de fevereiro de 2010
Praxes violentas na UTAD
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terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
«O que eu penso das praxes», por Antonino Solmer
Antonino Solmer (n. 1950) é actor e encenador. Formou-se na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa e estagiou na Polónia. Trabalhou, entre outros, com os encenadores Ricardo Pais, Jorge Listopad, Fernanda Lapa e Osório Mateus. Encenou textos de Handke, Schnitzler, Rozewicz, Herberto Hélder, Brian Friel, Gabriela Llansol, Yourcenar, Y. Ritos, José Triana, Hauptman, Lorca, Ibsen, Strindberg e Martin Crimp. Fundou e dirigiu a companhia ContraRegra. Foi professor de teatro no Conservatório Nacional e integrou o ACT - Escola de Actores. Foi director do Teatro da Trindade e subdirector do Teatro Nacional D. Maria II. No cinema, trabalhou, entre outros, com João Mário Grilo e Fernando Matos Silva. Na televisão com António Escudeiro, Ferrão Katzenstein e Jaime Campos e integrou o elenco da série Duarte & Companhia e da telenovela Terra-Mãe. Dirigiu espectáculos musicais para Sérgio Godinho e Emilio Cao. Ver mais aqui.
O QUE EU PENSO DAS PRAXES
Circularidade duma afirmação mais ou menos irracional como numa bebedeira.
Um editor amigo dizia-me: Porque é que continuamos a publicar mais, sempre mais, e a vendermos menos, cada vez menos? Porque estás a cavalo numa bicicleta. Se parares de pedalar, cais. Tens a sensação de que perdes, que não acompanhas o outro.
“Como no poço da morte, como no poço da morte…”
Há uma força centrífuga que te torna herói ou te distingue.
As capas sempre tiveram propósitos. Ao longo da história.
Foram adoptadas as negras. Curiosamente como em Espanha, como negros são as borlas e chapéus académicos do Brasil.
Ritos de iniciação. A “caloiros”.
Quem sabe já o que são esses ritos?
Nos anos sessenta, paquete de uma companhia de seguros, mandaram-me ir do 3º andar ao r/c buscar o “livro dos mortos” dos anos trinta. Disseram-me que eram aqueles tantos calhamaços encadernados e o mais que houvesse…
O meu pai recebeu um aprendiz que dizia “frosfaz” em vez de esferográfica; e “frifo” em vez de frigorífico. Fizeram-lhe uma “amostra”, consistindo isso numa exposição dos órgãos genitais onde todos podiam cuspir. A este, por último, puseram-lhe massa consistente a cobrir os pêlos dos colhões. O jovem chegou a casa e teve se ir lavar ao ar livre, fora da vista da família que vivia numa barraca.
Qualquer feiticeiro ancestral, dum qualquer povo recôndito e “subdesenvolvido”
ficaria incrédulo com tal rito e tal iniciação.
Qualquer autor de Harry Potter transcreverá ritos galhofeiros, pelo meio da trama,
duma forma que acrescenta uma finalidade positiva.
O rapaz do “frofaz” e do “frifo” chegou no outro dia para ganhar o seu salário.
Contou com melancolia o que teve de passar para lavar os colhões na água fria. E estava sorridente.
E eu percebi que a sua solidão continha o medo da afirmação que o desprenderia do “costume”.
Que o despenderia da “maioria”. Que tudo isso o levava ao exercício e aceitação de uma fácil e autoritária hierarquia.
“A referência é o patamar de cima.
- Como no poço da morte, como no poço da morte… -
Um desejo de ascenção e até de identificação com quem já lá esteja. Uma vez lá chegados, naturalmente, acamaradamos com os que ali se encontram e, recordando as provações passadas, traçamos os limites corporativos do patamar.
E torna-se evidente que tudo isto pode valer. Como prova de um sistema baseado no primado do poder.”
As capas sempre tiveram propósitos. E histórias cuja densidade tiveram identidade e história.
Tradição? Sim!
Mas qual?
Esquecemo-nos no tempo como Coimbra (a das capas) para uns é Choupal, Pedro e Inês, serenatas às raparigas, Menano e Luís Góis, Zeca Afonso,
Adriano, e ainda Antero.
E para outros mais a cidade conservadora que ainda vence.
A cidade da obscura espera
de Cerejeira e Salazar, antes do ataque.
As boas tradições são aquelas que perduram na senda do futuro.
Que perseguem uma Obra e uma Construção.
Hoje, o respeito pelos homens e pelos Direitos Humanos, exigem das autoridades,
a começar – logo, evidentemente – pela autonomia dos movimentos associativos –
o exercício das responsabilidades que lhes são inerentes.
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terça-feira, fevereiro 16, 2010
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Cinco anos de prisão para violador de caloira
Muitos virão dizer que isto não tem nada que ver com praxe, foi só um louco que fez isto por sua livre e espontânea vontade e que o que aconteceu não estava no programa de quem organizou a queima das fitas. Pedimos que reflictam um pouco antes de quererem simplesmente afastar o mal com um empurrão e um fechar de olhos. Que pensem como é que violações, acidentes e traumas têm que ver com as relações desiguais que se estabelecem entre quem praxa e quem é praxado, a construção representada de uma elite da sociedade (os estudantes, esses grandes supostos filhos da nobreza) e a ilusão de que os momentos de praxe são momentos de excepção (momentos em que quem ganha é quem bebe mais álcool de uma vez e quem faz a figura mais triste).
Não nos surpreende que as queixas continuem a aumentar nos últimos tempos, tornando-se casos de tribunal que aparecem nos jornais. E percebemos bem porque é que muitas vezes as vítimas queixosas são mulheres. (Sobre a falta de arrependimento do acusado, que alega ter sido seduzido pela nova aluna, nem fazemos comentários!) As pessoas começam a fartar-se e perceberam enfim que a praxe não pode continuar a ser uma seita fechada onde se passam as maiores aberrações e que o que acontece no seu âmbito pode dizer-se à sociedade, aos tribunais e aos jornais. Tem de sair cá para fora, para que todos saibam. Os traumas individuais é que serão mais difíceis de curar.
Diana Dionísio

Cinco anos de prisão para violador de caloira
Crime ocorreu no recinto da queima das fitas de Braga, em 2008
00h25m
PEDRO VILA-CHÃ
O colectivo do Tribunal de Braga condenou a cinco anos de prisão efectiva um antigo estudante da Universidade do Minho, dando como provados os factos de que era acusado: violação de uma aluna durante a festa académica do Enterro da Gata, em 2008.
Os factos remontam ao dia 11 de Maio, um domingo, dia em que a aluna, caloira, então com 18 anos, foi violada por Pedro Orlando Alves, então finalista do mesmo curso de Biomédicas. Ambos estavam no recinto onde decorriam as tradicionais festas estudantis, tendo o aluno agarrado a vítima, levando--a para uma tenda onde consumou a violação. Após quatro audiências, o colectivo de juízes concluiu haver matéria de facto para acusar Pedro Orlando, condenando-o a cinco anos de prisão efectiva e ao pagamento de uma indemnização de 35 mil euros.
"Acho que se fez justiça, por ter sido condenado a pena efectiva, porque este foi um crime muito violento. A [...] está satisfeita com a sentença e pode ser que isso também contribua para que ultrapasse o trauma em que ainda se encontra", disse a mãe da vítima ao JN. De resto, a aluna acabou por abandonar o curso que frequentava, em Braga, e pediu transferência, "porque não aguentava estar naquela cidade".
O advogado de defesa da vítima, Paulo Ferronha, lembra que "a pena aplicada tem em conta a frieza do acusado, ao não assumir arrependimento pelo crime que cometeu. Ele alegou sempre que foi seduzido e que houve sexo oral consentido, mas os exames periciais demonstraram politraumatismos que desmentem".
De resto, o advogado referiu que ante um crime violento em que a moldura penal vai de três a dez anos "foi feita a justiça possível" e o facto de não ter sido aplicada pena suspensa permite ao condenado ter "a percepçãode que cometeu um crime hediondo". Na altura, a aluna contou que tinha estado com amigas na tenda de Biomédicas e bebera uma ou duas bebidas, quando o colega a puxou para trás da barraca. Ainda pensou que se tratasse de mais uma praxe. Recusou quando o colega tentou convencê-la a manter relações sexuais, mas depois foi dominada pela violência. Ainda gritou, mas de nada lhe valeu. "Foi violada de todas as formas", disse a mãe da jovem.
in Jornal de Notícias
a mesma notícia no Guimarães Digital
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sexta-feira, fevereiro 12, 2010
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
RUBI: Reportagem sobre as Praxes
Nesta reportagem podem ser ouvidos argumentos em defesa e contra a praxe académica. E há lá umas belas pérolas a defender a praxe... Vale a pena ouvirem neste sítio da Rádio da Universidade da Beira Interior.
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quinta-feira, fevereiro 11, 2010
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terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Lembrar a Luta dos Estudantes de Coimbra em 2004
Um amigo conseguiu recuperar este filme e pôr no youtube. O 20 de Outubro de 2004 está a cair no esquecimento. Na minha perspectiva é intencional da parte de vários sectores da academia e da cidade de Coimbra. Muitas pessoas sentem a necessidade de mostrar que o radicalismo e lutar e acreditar por um sonho ficou em 69 e em 94, porém há um dia que devia ficar na história da universidade de Coimbra, o dia em que o reitor Seabra Santos manda chamar a polícia para conseguir aprovar em Senado o aumento de propinas e em que vários estudantes são agredidos, um estudante preso e outro levou com gás pimenta na cara a menos de meio metro! É preciso escrever, reunir fotos, artigos, filmes deste período em que se invadiram senados, aberturas solenes e em que se conseguiu adiar a afixação da propina que na altura aumentava consideravelmente. A última vez que se lutou a sério contra o aumento das propinas... É pena que numa altura como esta da história portuguesa o movimento estudantil esteja tão parado e com tão pouco sangue na guelra...
Divulguem por favor! Para que não tenhamos apanhado bastonadas e gás pimenta em vão, para mostrar que ainda vale a pena acreditar mesmo que alguns de nós já não acreditem...
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Unknown
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terça-feira, janeiro 19, 2010
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domingo, 13 de dezembro de 2009
XI Colóquio de Sociologia - "Prós e Contras da Praxe"
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domingo, dezembro 13, 2009
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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Portalegre: Alunos da Escola Superior de Educação apresentam queixas das praxes
Alunos da Escola Superior de Portalegre queixam-se das praxes
Lusa/Público - 10 Dezembro 2009
A Escola Superior de Educação de Portalegre (ESEP) vai abrir um processo de averiguações para identificar os alegados autores de praxes violentas a um grupo de alunos, revelou hoje à agência Lusa fonte do estabelecimento de ensino.
De acordo com o presidente do conselho directivo da ESEP, Albano Silva, a escola vai desencadear um “inquérito interno”, que promete ser “breve”, para apurar a veracidade da situação e “responsabilizar” os presumíveis infractores.
Entre as várias denúncias apresentadas ao concelho directivo daquele estabelecimento de ensino, afecto ao Instituto Politécnico de Portalegre (IPP), os alunos relatam que foram vítimas de “agressões físicas, apalpões e ofensas” durante o último Tribunal de Praxe.
As denúncias do grupo de alunos, que entrou na segunda fase de candidaturas ao ensino superior, recaem sobre alegados elementos da Comissão de Praxe, nomeadamente sobre um conjunto de jovens que agiram encapuzados (denominados como carrascos).
“Vamos inquirir para tentar chegar, rapidamente, à veracidade dos factos”, limitou-se a adiantar Albano Silva.
Ligações: notícia no Público e na Lusa; entrevista a Joaquim Mourato, presidente do Instituto Politécnico de Portalegre à Rádio Portalegre.
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terça-feira, 8 de dezembro de 2009
«O que eu penso das praxes», por Gonçalo Amorim
A irresistível prAXE
A irresistível prAXE é a palavra portuguesa que mais se assemelha ao desodorizante de odor duvidoso irresistível AXE.
A irresistível prAXE tal como o irresistível AXE servem, supostamente, para melhorar, de forma manhosa, a coabitação de estranhos no mesmo espaço. No entanto, a irresistível prAXE é uma solução fácil para impulsionar a higiene universitária, uma vez que a irresistível prAXE, assim como o irresistível AXE, duram pouco e não se podem considerar (por mais publicidade que se faça) soluções fiáveis para o sovaco do ser humano. O ser humano precisa de arejar e arejar o mais possível. Os amigos/as e namorados/as que tu consegues com a irresistível prAXE são os mesmos que tu consegues com o irresistível AXE: Cheiram a mofo!
A irresistível prAXE e o irresistível AXE só são irresistíveis se alguém o berrar constantemente ao teu ouvido.
Tanto a irresistível prAXE como o irresistível AXE têm os dias contados.
A Universidade precisa de novos ares e tenho a certeza que todos juntos somos capazes de melhor. Ou não?
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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Processo de Bolonha cá, nas Ordens, e lá fora na Alemanha
Publicam-se duas notícias recentes sobre o Processo de Bolonha.
A primeira, do Expresso, faz referência aos protestos que se começaram a fazer na Alemanha e que uniram professores e estudantes contra o Processo de Bolonha.
A segunda, um artigo de opinião no Diário Económico, sobre o impacto do Processo de Bolonha nas Ordens profissionais.
Ensino com sabor à bolonhesa
Nas últimas semanas, os estudantes alemães vêm pondo em causa currículos demasiado densos e condições inaceitáveis. E o debate sobre a pertinência do "processo de Bolonha" enche os jornais do país. Revista de imprensa publicada no site Presseurop.eu
20:17 Quinta-feira, 26 de Nov de 2009
Depois da Áustria, a Alemanha. Dez anos após o seu lançamento, o processo de Bolonha - o ideal de um espaço universitário europeu - é contestado desde o início das aulas. Pela primeira vez desde a época revolucionária dos anos 60 e 70, estudantes, dirigentes estudantis e professores fazem uma frente comum, assinala o "Süddeutsche Zeitung".
Os estudantes, explica o diário de Munique, são submetidos a "estudos ultra-regulamentados", em que se torna impossível preencher as lacunas culturais criadas no liceu. Os professores sujeitam-se a uma "servidão à eficácia" que os põe ao serviço de classificações internacionais para as quais têm de fazer investigação, publicar tanto quanto possível e "desperdiçar imensas capacidades em termos de ensino e pesquisa" em prol da obtenção de financiamentos.
Protesto contra propinas é errado
Para o "Süddeutsche Zeitung", o movimento é inteiramente justificado, ainda que "os estudantes misturem política de educação e política social. [...] Os protestos contra o pagamento de propinas - aliás muito moderadas, na Alemanha, em relação a outros países - são um erro."
"Os estudantes não têm unicamente objectivos racionais ("Pais ricos para todos")", acrescenta o "Tageszeitung" de Berlim. "Revoltam-se contra reformas há muito ultrapassadas: reformas que radicam em concepções de educação que datam do século XIX. A licenciatura remete para a ideia de que todos os que vão para a faculdade querem ou têm de tornar-se professores. É, pois, justo dividir os estudos em etapas, para os tornar 'estudáveis'."
Recorde de estudantes na Alemanha
Ora o número de estudantes atingiu valores recordes. Este ano, constata o "Süddeutsche Zeitung", inscreveram-se no primeiro semestre 423.000 estudantes: "o maior valor de sempre". Representa 43,3% dos jovens alemães.
Do ponto de vista económico, esta evolução torna o processo de Bolonha indispensável, insiste o "Handelsblatt". "Ninguém se atreve a dizer aos estudantes que estudar foi sempre cansativo. Como era dantes? As massas estudantis perdiam tempo porque eram abandonadas à sua sorte". O diário económico admite que a organização dos cursos é demasiado estrita, mas que o encurtamento do tempo de estudo e a flexibilidade introduzidos por Bolonha são ideias com futuro.
Bolonha e as Ordens
26/11/09 00:01 | Francisco Murteira Nabo
A entrada em vigor este ano, de forma mais ou menos generalizada, do Processo de Bolonha, em praticamente todos os estabelecimentos de ensino superior, com a adopção no país de uma licenciatura com um 1º ciclo de apenas três anos, veio a ter um impacto diferente nas diversas ordens profissionais, na medida em que exigindo praticamente todas para acesso à ordem, antes do Processo de Bolonha entrar em vigor, um mínimo de quatro anos de escolaridade obrigatória, a União Europeia acabou por as diferenciar, regulando apenas para algumas profissões, ao nível da União, as condições mínimas para o exercício da profissão - o 2º ciclo (mestrado) ou o mestrado integrado - e deixando incompreensivelmente a questão omissa para as restantes. Como a maioria das ordens não abrangidas pela exigência do mestrado pela União - como é o caso da Ordem dos Economistas - têm nos seus Estatutos, como exigência de acesso à Ordem, uma licenciatura (sem especificar o número de anos), para manterem o nível de exigência anterior a Bolonha estas Ordens terão necessidade de, ou baixar o nível de exigência no acesso, ou proceder a uma alteração dos seus estatutos, substituindo a licenciatura por mestrado. Havendo um certo consenso entre as ordens profissionais de que se deve (no mínimo) manter o anterior nível de exigência, decorrem obviamente, há já longos meses, na Assembleia da República contactos (até agora sem sucesso) no sentido da aprovação da referida alteração estatutária.
A questão porém não é simples, não só porque qualquer alteração estatutária é complexa e demorada, como o número de pedidos de acesso às ordens de licenciados só com o 1º ciclo é cada vez mais elevado, dado que os actuais licenciados são já, na sua grande maioria, pós-Bolonha.
No caso concreto da Ordem dos Economistas - enquanto se aguarda que a Assembleia da República autorize a alteração estatutária que contemple o mestrado como critério de base para a admissão à Ordem - o Conselho da Profissão recomendou que os licenciados com o 1º ciclo de Bolonha sejam admitidos como estagiários, adicionando ao programa de estágio anteriormente requerido, para a passagem a efectivo, sessenta créditos ECTS ou equivalente, a certificar por uma instituição universitária com competência para o efeito, podendo ambas as componentes do estágio ser efectuados num período máximo de cerca de quatro. É a meu ver uma solução transitória inteligente - que esperamos seja aprovada por uma Assembleia-geral da Ordem, a efectuar em Janeiro/Fevereiro próximos - porque sem pôr em causa o objectivo final do acesso à Ordem só com o mestrado (ou equivalente), permite que os licenciados com o 1º ciclo de Bolonha já participem nas actividades da Ordem, embora sem serem efectivos, além de, com esta medida, se fomentar o incremento da frequência do 2º ciclo (mestrado), que é desejável pela maioria dos economistas, por permitir um nível de qualificação muito mais elevado.
Francisco Murteira Nabo, Bastonário da Ordem dos Economistas
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quarta-feira, dezembro 02, 2009
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terça-feira, 24 de novembro de 2009
«O que eu penso das praxes», por Pedro Vieira
Pedro Vieira (n. 1975) é designer gráfico. Licenciado em na área de Comunicação e Publicidade trabalha em vários projectos de ilustração e banda desenhada. Faz vários trabalhos para variadas publicações, como o Diário de Notícias, o Público, o i, o Jornal de Letras e a Revista LER. Coloca os seus trabalhos e textos no seu blogue pessoal, Irmão Lucia; participa no blogue colectivo Arrastão; e tem o seu portefólio no Riscar.net.
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terça-feira, novembro 24, 2009
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segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Bullying e Praxes por Pedro Foyos
(...)
SUICÍDIO "POR CAUSA INDETERMINADA"
Comecei a interessar-me especialmente pelo fenómeno negro do "bullying" (tirania juvenil, de forma continuada, em ambiente escolar) há três anos, quando circulou a notícia do suicídio de um jovem estudante português, numa localidade do Norte. As primeiras notícias referiam um «acto de desespero por causa indeterminada", porém um ou outro órgão de informação avançaria mais tarde que não seria alheio à tragédia o clima de violência «no estabelecimento de ensino frequentado pelo estudante.» O que na ocasião deu maior visibilidade ao caso, diminutamente noticiado, viria a ser o insurgimento público de algumas personalidades das ciências da educação contra a forma como em Portugal se ignorava ou subestimava o suicídio juvenil, não raro encoberto sob a falácia da "causa indeterminada". Destacaram-se nesse movimento dois prestigiados pedagogos, Beatriz Pereira, professora e investigadora do Instituto de Estudos da Criança da Universidade do Minho, e Alexandre Ventura, do departamento de Ciências da Educação da Universidade de Aveiro, que alertaram para o facto de o suicídio de jovens no País estar relacionado muitas vezes com o "bullying", embora nunca assumido como tal. Beatriz Pereira, co-autora da obra notável citada na epígrafe e de outras congéneres, já passara pelo trauma de três suicídios nas escolas onde leccionara (dois rapazes e uma rapariga). Sempre "por causa indeterminada".
Aos depoimentos somou-se na internet uma avalancha de testemunhos dramáticos. As vítimas, de costume resignadas a sofrer em silêncio, ganhavam coragem e começavam a desocultar-se. Muita gente – eu próprio – apercebia-se da amplitude inimaginável do problema. Lendo aqueles relatos de sevícias indizíveis, não surpreendia que alguns jovens mais introspectivos e fragilizados tentassem a fuga por meio do suicídio.Foi neste contexto de preocupação social que o Diário de Notícias resolveu dedicar ao tema uma grande reportagem, indigitando para tal missão uma jornalista que havia sido minha estagiária e se revelara uma repórter de excepcional valia. «Missão impossível», suspirava ela, dias depois, perante o silêncio de pedra em que sempre esbarrava nas tentativas de contacto pessoal com adolescentes referenciados como vítimas pelos alunos mais velhos, amigos e solidários mas impotentes para reagir aos maus tratos praticados no interior da escola ou, com frequência, na periferia. Passada uma semana, essa nossa colega deixou-nos perplexos ao dizer que pretendia desistir da reportagem. Maior espanto ao sabermos que o motivo já não resultava da impossibilidade de falar com as vítimas mas precisamente o contrário: conseguira estabelecer secretas conversas com algumas delas, em condições mirabolantes que pareciam copiadas de um filme de espionagem. Tomámos então conhecimento de que a jornalista estivera na véspera com o "Francisco" (nome fictício) que a todo o momento a advertia: «Se eles sabem que estou a contar estas coisas vão matar-me. E também vão matar a senhora.» Repetiu isto sem fim numa conversa de poucos minutos. As "coisas" contadas pelo "Francisco" eram arrepiantes. Entre outras, a de ser colado com fita adesiva resistente («aquela mais forte, castanha») a um poste da baliza do campo de futebol contíguo à escola. "Francisco", uma criança franzina, delicada, era forçado, sob ameaças de morte e exibição de navalhas, a dirigir-se para aquele terreiro. Ali ficava, pernas, braços e tronco atados. «Mas por que te fazem isso?». Francisco: «Dizem que sou maricas. É por isso.» «E batem-te?». «Às vezes. Outras, é só porcarias.»
A nossa colega mergulhara no poço mais escuro da natureza humana, sobremaneira insuportável ao ter de render-se a uma cruel constatação: não eram adultos os protagonistas das cenas atrozes, antes jovens com idades entre os dez e os quinze anos. Debatia-se agora com um terrível dilema: era urgente denunciar, mas a denúncia poderia acarretar mais sofrimento para as vítimas, porventura a morte. E não era só o caso do "Francisco". Em meia dezena de escolas existiam outros "Franciscos" sob outros nomes fictícios: o caso da "Sara" (a "Vaca"), o "Daniel" (o "Orelhas")... De pouco valeria alterar os nomes se fossem identificadas as escolas. Também estas, em consequência, teriam de ser omitidas. A reportagem corria o risco de converter-se numa suspeitosa montagem de ficções e de omissões. Um medo insidioso apossou-se da jornalista ao inferir, dos avisos do "Francisco", que ela própria corria, de facto, um sério risco. Vieram-lhe à memória olhares de desconfiança que vislumbrara nas escolas, antes e depois de contactar pessoalmente elementos dos respectivos conselhos executivos. «Eles vão matar-me. E também vão matar a senhora.»
Por isso se predispunha, a nossa colega, a desistir. Acompanhei o caso de perto.
Um elemento da direcção do jornal (notável jornalista com quem mantive durante largos anos um companheirismo profissional bem vivo na minha memória), soube do que se passava e interveio de uma forma ponderada. Para ele era crucial que a jornalista estivesse certa de que eram verdadeiros os factos a noticiar. Sendo essa a situação, a reportagem seria publicada com alteração dos nomes das vítimas, e das escolas nomear-se-iam apenas as respectivas regiões (arredores de Lisboa, Margem Sul, etc.). Entretanto, na véspera da publicação, o jornal comunicaria por via directa e formalmente a cada um dos conselhos executivos escolares os nomes verdadeiros das vítimas, com vista às emergentes medidas de protecção das mesmas e informação aos pais. Pediu-se à jornalista um esforço adicional: reencontrar alguns dos jovens entrevistados e fotografá-los com máscaras por forma a impedir em absoluto a identificação dos mesmos.
Assim se fez.
O Ministério da Educação esclarecia, por esse tempo, que o "bullying" em Portugal representava apenas cinco por cento dos problemas do sistema de ensino.
"CATÁLOGO" INFINDO DE HORRORES
Nesse mesmo mês ressurgiu a eterna controvérsia à volta das praxes cruéis. Evocou-se a morte do jovem Diogo Macedo, em Famalicão, durante um ritual praxístico que lhe provocou múltiplas escoriações corporais, além da fractura de uma vértebra cervical (causa da morte, segundo a autópsia). Outro jovem sofrera edema na laringe em resultado de uma prova "popular" denominada "Berraria" (o caloiro é forçado a berrar durante horas, perseguindo um insecto ou um pequeno vertebrado prepositadamente mutilado para lhe dificultar a locomoção).
Subindo de escalão etário, desviemo-nos por momentos do “bullying” infanto-juvenil. As crianças vítimas de “bullying” tornam-se mais tarde, com frequência, agressivas. No limite reencontramo-las como autoras das “chacinas de vingança” como as ocorridas sobretudo em estabelecimentos de ensino norte-americanos. Pedagogos consideram que alguns dos mais inclementes universitários praxantes (os “veteranos”) foram outrora crianças agredidas física e psicologicamente de forma continuada. E os praxados de hoje serão os praxantes de amanhã, tendendo a “refinar” os actos da chamada “tradição académica”.
Encontram-se documentadas em vídeo ou por meio de registos fotográficos algumas praxes insuportavelmente bárbaras. Menciono quatro:
"Shot". O praxado mastiga uma malagueta, após o que ingere um "shot" de vinagre e azeite.
Simulação de actos sexuais. A rapariga caloira simula fazer sexo oral com os "veteranos" ou praticando outros actos com um poste. O rito completo passa por simulação de orgasmos.
"Barrelada". Corte de pêlos púbicos (há dois anos, um jovem sofreu ferimentos graves no escroto).
"Elefante Pensador". O praxado, de joelhos, deve mergulhar a cabeça num balde cheio de excrementos de porco ou de vaca (esta praxe confinava-se à Escola Agrária de Santarém, crê-se ter cessado).
De realçar que um ex-director do referido estabelecimento defendeu esta praxe, declarando que o contacto com a bosta é "natural".
Admite-se que mais de 50 por cento dos rituais praxísticos que continuam a praticar-se em Portugal são «ofensivos, intimadores e violadores da dignidade da pessoa humana». O "catálogo" de praxes é infindo. Numa extensa reportagem dedicada ao tema, a jornalista Fernanda Câncio fez uma síntese lapidar: «Há praxes para tudo, ou de tudo nas praxes» .
O "CORREDOR DA MORTE"
Retornando à reportagem do Diário de Notícias. O mais jovem testemunho chegado ao jornal era o de um menino de oito anos que usava a expressão "corredor da morte" para designar uma espécie de praxe na sua escola cuja singularidade era prolongar-se por todo o ano lectivo. Com fantasioso exagero e a propensão tão habitual nas crianças para captar palavras e ditos do quotidiano audiovisual, o "corredor da morte" era de facto um corredor formado por duas fileiras de alunos do 2º ciclo que batiam (pontapés, "carolos") nos novatos do 1º ano obrigados a fazer aquele percurso. Quem chorasse teria de passar segunda vez. E todos recebiam ameaças de morte se denunciassem aos pais ou professores as agressões. «Por que fazem isso aos vossos colegas mais novos?» – perguntou a jornalista. Resposta:. «Fizeram-me o mesmo quando vim para a escola.» Resposta idêntica darão os universitários "veteranos" promotores das praxes.
Ainda antes de publicada a reportagem, soubemos que o "Francisco" se encheu de coragem e contou à mãe o que se passava com ele na escola. O pai assumiu pessoalmente a protecção do filho, recorrendo à colaboração de um polícia amigo.
Pelo menos dois jovens citados naquela investigação jornalística ("Daniel" era um deles) foram transferidos para outras escolas.
E poucos meses depois, em Fevereiro de 2007, comecei a delinear um novo livro ao qual daria o título de Botânica das Lágrimas.
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segunda-feira, novembro 23, 2009
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Etiquetas: Opiniões
Opinião de José Couto Nogueira sobre a praxe
A praxe é fixe?
i - por José Couto Nogueira, 21 de Novembro de 2009.
Pergunta
Caro José Couto Nogueira,
Escrevo-lhe simplesmente para auscultar a sua opinião sobre as praxes académicas. O meu filho, rapazola de quase 20 anos, frequenta o ensino superior. Em tertúlias, quando estendemos pontes geracionais, divergimos no na opinião sobre as praxes académicas. Para mim, são rituais exímios em declarações de desamor por uma caloirada imberbe, bobos de uma corte fútil, carente de bom senso. Ele contrapõe, aliando o conceito de tradição e pândega. A sujeição ao ridículo é justificada pela integração no clã? Eu não creio.
Atentamente,
Júlia Barros
Cara Júlia,
Em 1727, D. João V proibiu a praxe devido à morte de um aluno. Portanto já nessa época o tratamento alarve dos caloiros existia, era brutal e provocava reacção das autoridades. Durante séculos a praxe foi um exclusivo da Universidade de Coimbra, que também era a nossa única universidade, mas não alastrou ao Porto e a Lisboa quando estas cidades passaram a ter ensino superior. Houve períodos mais intensos mas nunca deixou de assustar, arreliar e humilhar os caloiros. A partir de 1834 torna-se mais violenta e as denúncias de excessos são constantes. Proibida em 1911 com a implantação da República, e suspensa em 1961 com o Luto Académico contra a repressão do Estado Novo, é praticamente abandonada no pós-25 de Abril. Quanto volta, no final da década de 1970, já é alargada a praticamente todas as universidades (assim como o traje académico de capa e batina, que sempre fora exclusivo de Coimbra) e depois chega ao ensino secundário. Devido aos inúmeros casos de violência, muitos causa de estragos físicos e psicológicos graves, é terminantemente proibida pelo ministro Mariano Gago em 2008 e 2009 ? prova de que continua a existir. Ainda recentemente houve um escândalo no Colégio Militar que, não se referindo à praxe da entrada na faculdade propriamente dita, tem a ver com as prepotências a que os alunos mais velhos se julgam no direito de exercer sobre os mais novos.
Pois é, a praxe sempre existiu, e vai continuar a existir. Tem a ver com os rituais de iniciação que persistem em muitas actividades e ambientes fechados. Há praxes nas forças armadas e até nos cursos de pilotagem ? quando o aluno "é largado", isto é, voa sozinho pela primeira vez, ao aterrar leva um valente banho de mangueira. Também tem a ver com a truculência própria da adolescência, a tal "integração no clã", e, presentemente, com um certo vazio de ideais que leva à procura de substitutos bastante estúpidos.
Os defensores falam em tradição, mas, como já aqui se observou a propósito de outras questões, a tradição é um argumento vazio. Há boas tradições, que é bom que se preservem, e há más tradições, que quanto mais cedo desaparecerem melhor. Por outro lado, uma praxe não tem necessariamente de ser violenta ou perigosa - mas é sempre desagradável e humilhante, e certas pessoas têm um menor grau de tolerância a serem sujeitas à vontade dos que podem só porque podem.
De um ponto de vista ético, é claro que não tem ponta por onde se lhe pegue. Não há qualquer mérito, vantagem ou valor em torturar e achincalhar os mais novos, mais fracos ou recém-chegados a um novo ciclo de estudos. Continua, por uma das razões que perpetuam a violência infantil: quem foi sujeito a ela sente prazer em desforrar-se quando chega a sua altura de estar na mó de cima.
Agora tente convencer o seu filho... Sujeite-o a uma praxe doméstica desagradável, a ver se ele percebe.
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segunda-feira, novembro 23, 2009
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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A festa, com o mote Recibos Verdes: Antes da dívida temos direitos, irá realizar-se no espaço Interpress, no Bairro Alto (ver mapa), no dia 20 de Novembro (sexta-feira) a partir das 21:30h. A entrada são 2€.
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quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Ainda sobre a decisão do Tribunal no caso da morte de Diogo Macedo
Por forma a esclarecer alguma confusão que surgiu na discussão iniciada aqui e aqui, postamos alguns excertos do acórdão produzido pelo Tribunal Cível de Vila Nova de Famalicão relativamente ao caso que opunha Maria Macedo, mãe de Diogo Macedo, e a Fundação Minerva, detentora da Universidade Lusíada.
«
2. Fundamentação
2.1. Com relevância para a decisão de mérito, estão assentes os seguintes factos:
(...)
28. (DD) A autópsia revelou que a morte do Diogo foi devida a lesões traumáticas crânio-encefálicas e cervicais.
29. (EE) A autópsia revelou tumefacção da região cervical direita, edema na região cervical posterior, ainda múltiplas equimoses na região lombar, hematoma na região inguinal direita, equimose da região nadegueira e do testículo direito, hematoma extenso no cerebelo direito com múltiplos coágulos, fractura da 1ª vértebra cervical, arco posterior.
30. Segundo a Dra. M. A. A. D. (...) "Não sendo possível de terminar qual a natureza dos impactos que o corpo sofreu, não restam mais hipóteses senão considerar a possibilidade de agressões de terceiros ou de várias quedas; uma só queda nunca, dada a multiplicidade das lesões e a sua dispersão pela geografia do corpo".
(...)
32. (HH) Quando inquirido no âmbito do inquérito crime, o N. F. R. S., "Tirs", afirmou: "Relativamente a eventuais quedas do Diogo, diz não serem impossíveis mas não é fácil o pandeireta, não obstante os exercícios coreográficos desenvolvidos, magoar-se com violência. Nas mãos é possível, mas pouco mais".
(...)
51. O filho da Autora sofreu as agressões (por acto de terceiros) pelo menos na zona lombar (de onde resultaram as múltiplas equimoses nessa zona encontradas e referidas em 29., supra e na nuca/pescoço, que aconteceram quando este se encontrava na companhia dos colegas da Tuna, ou seja entre as 21 horas e 45 minutos e as 22 horas e 30 minutos.
52. A morte de Diogo foi consequência adequada, directa e necessária de actos violentos a que na noite do dia 8 de Outubro, nas instalações referidas em 51. supra, foi sujeito, nomeadamente de uma pancada, por pessoa não identificada, que lhe causou traumatismo crânio encefálico e cervical.
(...)
54. Os pais do falecido Diogo (...) foram confrontados com o facto deste ser desumanamente tratado e de estar a ser submetido a práticas violentas, algumas das quais (nomeadamente as que sofreu na zona da nuca/cervical - na zona traumatizada) acabaram por causar a sua morte. Em nome da "praxe" foi o mesmo sujeito a práticas violentas, estas permitidas por falta de controlo pela Universidade (...)
(...)
56. Depois de estarem disponíveis os resultados da autópsia que evidenciavam uma enorme probabilidade de morte com intervenção alheia, não existiu qualquer reacção, não foram tomadas quaisquer providências para investigar o caso e apurar o que efectivamente aconteceu, por parte da Ré.
57. Se a Ré controlasse as práticas praxistas dentro das suas instalações, impedisse que a agressividade física e psicológica dominasse, o Diogo não teria sido sujeito a humilhação, a vergonha, nas mesmas e teria contribuído para que a sua morte não tivesse ocorrido.
(...)
2.2. Aspecto Jurídico da Causa
(...)
2.2.1. Facto
(...)
No caso, (...), ficou apurado que a Ré omitiu qualquer controle das actividades, alegadamente "praxistas", daquela Tuna e/ou dos seus membros, em nome das quais ocorreu a morte do Diogo, conforme ficou expresso em 2.1.54 e 2.1.57..
(...)
Certamente não o farão admitindo que alguns elementos do seu universo, nomeadamente estudantes que se julgam superiores aos seus iguais, se aproveitem, alegadamente, de determinadas tradições académicas para exercitar, nas próprias instalações da academia, personalidades mal formadas com práticas do género das apuradas.
Inexistem, assim, dúvidas de que a Ré, através dos seus órgãos competentes à data da ocorrência, deveria ter agido no sentido de proibir este tipo de comportamentos de pseudo "praxe", mais próprios de instrução militar, atendendo não só às normas jurídicas que acima se citam mas também pondo em prática o seu papel, o seu dever social de contribuir para uma sociedade mais próxima daqueles valores. É caricata a desvalorização que a Ré faz, na sua contra-argumentação, de comportamentos que violam a integridade moral e física dos seus alunos e que qualquer homem médio percebe que só são admissíveis num propício ambiente de noviços que, no caso da vítima, se estendeu ao seu 4º ano de forma absurda.
Não o fazendo, a Ré contribui, como se apurou, para o resultado ocorrido, e não deixa de ser responsável, além dos demais agentes envolvidos nesses actos, nos termos do art. 490º, do Código Civil.
(...)
Além desses factos ou causa de pedir, a Autora parece querer acrescentar a circunstância de a Ré ter actuado com alegada passividade face aos acontecimentos, no sentido de investigar e identificar os autores materiais dos acontecimentos. E de facto o desenrolar dos acontecimentos apurados denota que a Ré fez por ignorar, pelo menos depois do momento mencionado em 2.1.56., as circunstâncias anómalas da morte do Diogo.
(...)
»
Actualizado em 14.Dez.09
Do Acórdão:
«2.2.5.Nexo de causalidade
Resta-nos perscrutar na matéria provada o nexo de causalidade entre estes danos e o facto lesante articulado pelos demandantes.
Este elemento é essencial para a selecção dos danos que merecerão o ressarcimento por via indemnizatória.
Do art. 563º, do Cód. Civil, resulta que a obrigação de indeminização só existe em relação aos danos que o lesado provavelmente não teria sofrido se não fosse a lesão.
Os trabalhos preparatórios do Cód. Civil, na parte referente a este preceito, revelam de modo inequívoco que com ele se quis consagrar a teoria da causalidade adequada. A indemnização só cobrirá aqueles dano cuja verificação era ilícito nessa altura (do evento danoso) prever que não ocorressem se não fosse o evento lesivo.
Como salienta o Ac. do Supremo Tribunal de justiça acima citado, de acordo com a doutrina mais ampla da teoria da causalidade afequada, deve entender-se que quando exista uma relação de causa/efeito entre o facto e o dano, este só deixará de ser entendido causa adequada daquele, se se mostrar de todo alheio à verificação dele, tendo-o provocado apenas por circunstâncias absolutamente anormais, extraordinárias ou anómalas.
Recorrendo ao prognóstico objectivo e histórico preconizado pelo normativo em aplicação, temos de concluir que a omissão ilícita e culposa da Ré, supra enunciada, que permitiu as mencionadas ofensas corporais e a consequente morte do Diogo Macedo foi, como já adiantámos,condição suficiente e adequada aos resultados danosos apurados, nomeadamente os danos morais mencionados. Qualquer "homem médio", para usar as palavras da Ré, teria outro controlo sobre actividades do género nas suas instalações e esse, por mínimo que fosse, evitaria o que sucedeu, v.g., dando ordens expressas aos funcionários que guardavam as suas instalações para controlarem tal tipo de atitudes.»
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segunda-feira, 16 de novembro de 2009
«O que eu penso das praxes», por António Louçã
GREGARISMO PRAXISTA OU ACÇÃO COLECTIVA E SOLIDÁRIA?
Pedem-me umas linhas sobre a praxe e custa-me a escrevê-las. Não devia custar, porque andei na Universidade nos anos 70 do século passado. Como tradição, a praxe seria, supostamente, mais viva nessa época distante e ter-se-ia, supostamente, diluído nos nossos tempos de globalização e de internet.
Mas a suposição é falsa. Naquele tempo de universidade que era o meu, nunca vi praxe alguma nem nada que cheirasse, remotamente, sequer à praxe actual. Aquele tempo tinha, por certo, as suas tradições: as do movimento estudantil, contra a reforma de Veiga Simão, contra os gorilas nas faculdades, contra a ditadura fascista, contra a guerra colonial, contra o genocídio imperialista no Vietname.
Quem hoje vê estudantes trajando de negro como bandos de corvos não consegue reprimir a ideia de que a tradição já não é o que era. Esta “tradição” é coisa muito recente. Ela foi tão fabricada pelas conveniências da política dominante nos nossos dias como a “tradicional” indumentária vermelha do Pai Natal foi fabricada pela Coca-Cola.
A praxe é bem a antítese artificial de tradições solidárias e combativas, internacionalistas e libertárias, que identificaram a juventude do século XX, em vagas sucessivas até ao ponto culminante de Maio de 68. Onde ali prevalecia a acção de massas por um mundo novo, aqui sobressai a mesquinhez dos tiranetes de trazer por casa, o abuso de poder por parte das almas de lacaios, o desforrar-se para baixo por parte de quem habitualmente se desbarreta para cima.
E, no entanto ...
No entanto, esta mentira, para ser mentira, tem de trazer à mistura qualquer coisa de verdade. A praxe combina o individualismo tacanho e egoísta com um gregarismo atávico e primitivo, tirbutário da psicologia do rebanho – como as claques futebolísticas, como os fanatismos religiosos. E, no entanto, foi no meio das claques futebolísticas que a resistência ucraniana pôde jogar em casa contra os ocupantes nazis, foi no meio delas que despontaram algumas das primeiras grandes manifestações contra a ditadura argentina de 1976-1982. Os e as estudantes com sentido crítico, que hoje são uma pequena vanguarda na resistência aos tiques autoritários das praxes, não têm de desanimar por se sentirem, temporariamente, em minoria. À mínima viragem no ambiente, a acção colectiva pelas aspirações sociais da grande massa virá, como a velha toupeira que fez o seu caminho, irromper sob a carcaça do gregarismo praxista.
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segunda-feira, novembro 16, 2009
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sábado, 14 de novembro de 2009
Opinião de Tiago Gillot sobre as praxes
As violências da praxe
02-Nov-2009
Uma notícia relativamente discreta durante a semana passada, revelou-nos que o ministro reencaminhado na pasta do Ensino Superior, Ciência e Tecnologia, Mariano Gago, recebeu, desde o início do presente ano lectivo, cinco queixas graves de violência ocorrida durante as praxes académicas. Quatro delas foram enviadas para a Procuradoria-Geral da República e devemos esperar seguimento. Convém dizer que os auto-intitulados "veteranos", como vem sendo hábito, já reagiram para nos convencer de que estão sempre dispostos a definir novos "limites" às suas arbitrariedades.
A notícia não surpreende por revelar qualquer novidade sobre a natureza violenta das praxes. A violência é o seu ingrediente principal, a sua legitimação e até, dum certo ponto de vista, a sua auto-justificação: a praxe existe, nas palavras - mais ou menos sofisticadas e conscientes, conforme os casos - dos seus defensores, porque é preciso uma ordem que organize o espaço escolar, que imponha regras aos que chegam de novo, que responda à novidade com o conservadorismo. Por isso é violenta, será sempre violenta. É, tem sido, uma espécie de excepção aparente na nossa vida colectiva. Nas praxes, mais do que não haver democracia, o autoritarismo e a segregação são a sua forma de afirmação. É assim que demasiadas vezes a violência da ideologia da praxe se torna física e, quando conhecida, volta a espantar o país.
Mas a surpresa foi-se esbatendo pela coragem de vários estudantes que, nos últimos anos, enfrentaram o poder das praxes, lutaram contra todos os compadrios e intimidações, conseguindo mesmo vitórias difíceis nos tribunais, que responsabilizaram finalmente agressores e as instituições de ensino superior que lhes deram toda a cobertura. A recente condenação da Universidade Lusíada pela morte de Diogo Macedo (pelos seus "colegas" da tuna, em instalações cedidas pela própria Universidade) é o último exemplo - embora ainda sem consequências criminais para os presumíveis agressores.
A novidade poderá ser, então, que temos, finalmente, um ministro da tutela que não quer compactuar com as violências das praxes. Será? Aparentemente é verdade. De facto, é importante que Mariano Gago faça o que é normal, assumindo as suas responsabilidades e afastando o manto de impunidade que protege as instituições de ensino superior e respectivos Reitores, cúmplices de actos frequentemente medievais e quase sempre mais preocupados com a "imagem" do seu reinado e em garantir as graças dos "seus" estudantes.
Gago responde a um contexto novo e a uma nova atenção perante o escândalo, mas também por um passado em que sempre se afirmou contra as praxes. Hoje, enquanto ministro, escolhe palavras duras, considerando-as "fascistas" e avisando a navegação, com ar decidido, que, com ele, o regabofe vai parar aos tribunais.
Mas Mariano Gago precisa, também ele, dum julgamento mais cuidado. As praxes são uma ovação dum ensino superior excludente e elitista, uma claque que grita pelo reconhecimento tribal e situacionista numa Universidade à venda para consumidores desesperados, à mercê das angústias do sub-financiamento e sob a cobiça do mercado que exige portas escancaradas para a invadir. Nesta fábrica de futuros precários que Gago confirmou e acentuou, a passagem é mais breve e o horizonte mais curto: por essas e por outras, a praxe muda - adapta-se, apesar de afirmar a "tradição" - mas persiste na sua função essencial de contenção e esvaziamento, ocupando o espaço deixado vazio por outras experiências que ficam por acontecer.
É por isso que este ministro não nos pode oferecer - como nenhum outro - um combate definitivo às praxes, às suas raízes, significados e consequências. Porque Gago continua a querer estudantes dóceis, que aceitem a sua Universidade de penúrias luxuosas, com propinas e empréstimos, a caminho ou já pomposas fundações, excluindo os estudantes das decisões que importam à comunidade escolar.
É de facto urgente uma luta forte contra a maior de todas as violências da praxe. O combate ao conformismo é o desafio permanente do movimento estudantil e foi sempre nele que se colocaram todas as questões decisivas e todos os avanços importantes. A oposição às praxes sempre fez e fará parte duma disputa grande pela Universidade, onde não se esperam que sejam decretos a substituir uma luta aberta e decidida, capaz de convocar o conjunto dos estudantes e da sociedade, em que todos têm lugar, independentemente do número de matrículas ou de outra coisa qualquer.
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sábado, novembro 14, 2009
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sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Ovos "bons" ou ovos podres, eis a questão!
Ora, eu acho que a questão é: mas faz sentido "convidar" (com aspas, como escreveu a leitora) pessoas a partirem ovos, em bom estado ou podres, na cabeça?
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Marcha pelo Ensino Superior a 17 de Novembro
A Marcha pelo Ensino Superior surge pela urgente necessidade de mais financiamento do Estado para o Ensino Superior e pelo reforço do investimento do Governo na Acção Social Escolar.
Cada dia que passa aumentam as dificuldades e problemas dos estudantes em todas as faculdades/escolas do país. Desde Bolonha ao RJiES, a passar pelas propinas ou Acção Social (escassez de bolsas) e os cortes orçamentais ao Ensino Superior realizados pelos sucessivos Governos, os estudantes estão cada vez mais descontentes com o rumo que o Ensino Superior está a tomar.
Em Portugal, a Acção Social é cada vez mais tema de notícias. Face à crise económica e social sentida em todo o país (com o crescente desemprego nas famílias portuguesas), cada vez mais estudantes têm de recorrer a este apoio para poder continuar os seus estudos. É urgente um intervenção activa por parte do Governo. Mas esta acção do Governo não pode ser a sua desresponsabilização, como acontece actualmente com o incentivo aos empréstimos bancários e a "empregos" precários dentro das Instituições de Ensino Superior. Estas medidas não são a solução!
Por isso, dia 17 de Novembro (na próxima 3ª-feira) junta-te à Marcha pelo Ensino Superior...
- por uma intervenção de urgência por parte do Estado/Governo, que restabeleça o normal funcionamento das instituições de Ensino Superior público, assegurando o respeito pelos mais elementares compromissos financeiros de cada instituição, começando por salários e fornecimentos essenciais;
- pela adopção de uma política de mais e melhor Acção Social escolar;
- por um sistema de financiamento plurianual, idêntico ao que o ministro Mariano Gago reserva às Fundações, capaz de garantir um planeamento adequado por parte das instituições de Ensino Superior;
- pelo restabelecimento da autonomia das instituições, constitucionalmente consagrada, que se encontra ameaçada pelos estrangulamentos financeiros e pelos impactos decorrentes da implementação do Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJiES);
- pela promoção de um Ensino Superior público, universal, de qualidade e tendencialmente gratuito.
- blogue da Marcha pelo Ensino Superior: http://
marchapeloensinosuperior. blogspot.com
- a "Marcha pelo Ensino Superior" no Facebook: http://www.facebook.com/event.
php?eid=173869213753
- vídeo [da Associação Académica de Coimbra] de mobilização para a Marcha pelo Ensino Superior: http://www.youtube.com/watch?
v=pCAyD02WfRg
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quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Mais uma direcção proibe as praxes dentro do perímetro do seu estabelecimento... (comercial?)
À semelhança de outras direcções de outros institutos de ensino superior do país (ver aqui), o presidente do IPV resolveu seguir o caminho mais directo para acabar com as praxes - proibi-las. Outras direcções tiveram outras atitudes, mais ou menos tímidas - aqui e aqui.
No ano passado algo semelhante já tinha acontecido - no IS Técnico, por exemplo.
Instituto Politécnico de Viseu proíbe as praxes académicas
Decisão motivada pelas recomendações do ministro da Ciência e Tecnologia
IOL Diário, 11.Nov.09
O presidente do Instituto Politécnico de Viseu (IPV), Fernando Sebastião, proibiu as praxes académicas nos edifícios e espaços envolventes das escolas da instituição para não «dar facilidades» aos alunos para cumprirem esta tradição, refere a Lusa.
A decisão, que consta num despacho de 30 de Outubro, prendeu-se «com as recomendações do ministro [da Ciência, da Tecnologia e do Ensino Superior) e com o impacto negativo para a imagem do instituto» que tiveram notícias recentes sobre a existência de alegados «negócios lucrativos» de membros do Conselho de Viriato com os bares para onde levam os caloiros, justificou à Agência Lusa Fernando Sebastião.
«O ministro recomendou que não fossem dadas facilidades relativamente às actividades de praxe e avisou que, se houver denúncia de humilhação dos alunos, comunicará ao Ministério Público. Ora, se permitirmos as actividades, estamos a facilitá-las», considerou, aludindo à mensagem enviada por Mariano Gago aos responsáveis máximos das universidades públicas e privadas e dos politécnicos.
Fernando Sebastião admitiu que, na sua decisão, pesou a denúncia anónima que apontou o dedo a elementos do Conselho de Viriato (nomeadamente à sua presidente), que estariam a lucrar à conta dos caloiros e que levou mesmo a Associação Académica a suspender a praxe.
«A única medida que eu podia tomar era não autorizar as actividades de praxe», frisou.
No que respeita a este assunto, contou que o ministro lhe enviou «cópias de recortes das notícias de jornais» e «mostrou preocupação pela situação». «Acho que depois de tudo isto os dirigentes associativos estão preocupados com a situação e não querem abusos, nem que a academia esteja na praça pública por maus motivos», considerou, contando que houve quem não tivesse gostado da sua decisão e quem achasse que «já devia ter sido tomada há mais tempo».
O presidente da Associação Académica do Instituto Politécnico de Viseu, Rafael Guimarães, escusou-se a dizer se concorda ou não com o despacho de Fernando Sebastião.
«Já havia algumas escolas que proibiam a prática de praxe, nomeadamente a Superior de Tecnologia e a de Tecnologia e Gestão de Lamego. Foi uma questão de estender isso às restantes escolas do Politécnico», disse apenas, disposto a dar o assunto das praxes por encerrado.
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quarta-feira, 11 de novembro de 2009
O Caloiro e o Monstro
O paradigma tradicionalista, que se defende com a História começa por esquecer que é tão tradicional a defesa da praxe como o seu combate. A praxe é tradicionalista no pior dos sentidos. A cada tempo dos vários tempos dos últimos 150 anos, a praxe esteve sempre contra as mudanças estruturais dos sistemas políticos e sociais. Com a Monarquia contra a República, contra a Revolução e pelo Estado Novo. Nas duas principais revoluções do último século da nossa História a praxe foi suspensa, não só como forma de luta, mas acima de tudo por ela ser absolutamente contraditória com os ideais progressivos que floram nesses períodos. Outro lado pernicioso quanto ao carácter das tradições académicas é o facto de elas perpetuarem e ampliarem sempre as características mais conservadoras da sociedade. Se a sociedade é machista, homofóbica, classista, punitiva, e hierárquica, sob a batuta da estranha selecção do darwinismo social, a praxe ainda amplifica cada um destes defeitos. As mulheres não podem ser duxas nem cantar o fado, o conselho é de veteranos, os gays são figuras de gozo e de chacota (como de resto as derivas à “normalidade”), o caloiro é bicho e animal, “figura infra-humana para o gáudio dos doutores” com mais umas quantas matriculas e o código da praxe viola, sem sufrágio, direitos, liberdades e garantias consagradas na lei de todos.
O paradigma da integração justifica que se cite um livro curioso. Intitula-se “Coimbra Boémia”, livro este que como tantos outros livro de memorias da cidade velha, podemos constatar a violência dos relatos de antigamente, sem cosméticas nem falsas retóricas. Diz o livro: “o caloiro é para saciar os desejos dos doutores, é para entreter”. Integrar, é uma palavra que vem na praxe sempre com um duplo sentido, e são os relatos que o confirmam. No Coimbra boémia, dos anos 40, percebe-se bem o terror das repúblicas praxistas, as perseguições, as milícias, a arrogância ante os trabalhadores (futricas) bem como a simpatia do fascismo pelas trupes e vice-versa. O argumento da integração, usado muitas vezes pelos românticos da praxe, não é mais do que isso mesmo, uma visão romântica, sem nenhum facto da realidade que o suporte. Mandar, rapar, bater, humilhar, perseguir a diferença, nada tem de romântico e muito menos inclui. Permite isso sim, que a violência fique disponível nas mãos de tantos que para ai andam tão pouco sensatos, e que usam da praxe como uma auto-estrada rumo à cura das mais recônditas frustrações. Bateram-me…, pois baterei; raparam-me…, pois raparei, e assim sucessivamente, olho por olho dente por dente, até à derrota final, no ano da cartola e do juízo.
Por último o paradigma da igualdade. Com o traje todos somos iguais. Pobres e ricos serão iguais aos olhos da Academia. A última e a mais hipócrita das mentiras. Os trajes, sejam eles quais forem, foram feitos para diferenciar umas pessoas das outras, não para as unificar. Como se o poder económico não estivesse antes na carteira e nas suas potencialidades. Entre os estudantes, por mais que todos andassem trajados, distinguir-se-ia o carro, a casa, o trabalho que teriam que ter (ou não), os litros de álcool no sangue por semana (e o tipo de álcool que lá circula), os outros consumos e vícios que poderiam ter ou não, as férias em família, na Indochina ou o trabalho precário na costa balnear mais próxima. Quanto à principal diferenciação que o traje impõe, é entre a cidade e os estudantes. Entre quem estuda e faz o pão, os cafés, as refeições, a limpeza da casa, das ruas ou da própria escola, constrói os estádios, as universidades e os hospitais, em quem no fundo garante a vida, e os estudantes, que regra geral, sem reconhecimento e com vaidade exacerbada, em nada retribuem.
A praxe é feia e a praxe é tola e só agrada verdadeiramente, aqueles que querem treinar para senhores, que querem praticar a opressão e a falta de humanidade. São os senhores dos senhores do amanhã de amanhã. E devem por isso também ser combatidos desde tenra idade.
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quarta-feira, novembro 11, 2009
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