domingo, 18 de outubro de 2009

«O que eu penso das praxes», por Miguel Cardina

Mais um texto «O que eu penso das praxes». Vê na coluna lateral a lista de textos já existentes com a opinião das diversas personalidades que têm respondido a este desafio proposto pelo MATA. Para que a sociedade debata.

Miguel Cardina (n. 1978) é licenciado em Filosofia e mestre em História das Ideologias e Utopias Contemporâneas pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É também investigador-associado do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. É autor do livro "A tradição da contestação". Ver mais aqui.



O QUE EU PENSO DAS PRAXES


Penso que a praxe integra. Integra a crença de que a humilhação e o arbítrio podem dar lugar a formas salutares de relacionamento. Integra os cânticos boçais e a gesticularia grosseira no complexo das “culturas académicas”. Integra rituais de carácter hierárquico ou punitivo que privilegiam a autosuficiência grupal em detrimento do direito à dissidência ou à timidez. Integra as “tradições” como um valor em si, independentemente dos juízos que sobre elas possamos fazer. Integra uma nebulosa de desconhecimento sobre a origem das tais “tradições”, em regra bastante recentes e “impuras”. Integra o machismo e a homofobia no senso comum. Integra os estudantes numa estranha mistura de irresponsabilidade e elitismo social. Integra a ideia de que brincando à obediência se fomenta a liberdade. Integra a noção chantagista de que “tudo é praxe”, mesmo quando muitas práticas efectuadas em território estudantil ocorrem à margem ou contra aquilo que a praxe pretende integrar. É verdade, a praxe integra. Só falta agora desintegrá-la.

5 comentários:

douchebag disse...

muito bom texto. parabéns!

João dos Santos Silva disse...

Um filósofo utópico a discertar sobre um mundo que só pode existir em suas próprias fantasias.

Foi graças a filósofos utópicos que milhares de milhões de pessoas morrem em experiências sociais como o fascismo, comunismo e tantos ismos que prometem paraísos e levam a humanidade ao abismo mais negro da condição humana.

ser.r.alves disse...

Como o capitalismo?

Ricardo disse...

Os portugueses como o sr João Silva primam pelo polir dum vocabulário que fala fala fala, mas não leva a ideia alguma.

Anónimo disse...

Que texto encantador do Doutor Miguel Cardina. Só resta referir que ele é produto desse estranho elitismo social que critica no seu visionário texto. Ou nao é ele um produto Universitário??