domingo, 11 de outubro de 2009

Opinião de Manuel Caldeira Cabral sobre as praxes

Esta opinião vem directamente do Jornal de Negócios Online.
Manuel Caldeira Cabral é Professor Auxiliar do Departamento de Economia da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho.


INSULTAR PARA INTEGRAR SERÁ UMA BOA IDEIA?

Hoje o principal problema das praxes não é a sua violência. É antes o seu carácter e a sua extensão. As praxes são longas, duram meses, absorvendo demasiado tempo e energia dos alunos. Evoluíram para um modelo militar, em que os alunos ficam em sentido, marcham e recebem ordens e insultos como se estivessem na recruta.
Este modelo serve bem os propósitos da formação de soldados, onde a uniformização e o sacrifício do indivíduo face ao grupo são objectivos importantes, mas dificilmente se percebe na universidade, onde se pretende estimular a criatividade, inteligência e imaginação, e onde a diversidade e a afirmação da diferença deveriam liderar numa fase em que cada aluno procura afirmar a sua identidade.
Mariano Gago tem razão quando, no seu recente comunicado, diz que "a degradação física e psicológica dos mais novos como rito de iniciação é uma afronta aos valores da própria educação e à razão de ser das instituições de ensino superior e deve ser eficazmente combatida por todos".
De facto não lembra a ninguém acolher novos elementos numa instituição começando por os insultar, e continuando a arrastá-los durante todo o ano em actividades inúteis, que acabam por os impedir de se integrarem numa vida académica digna desse nome.
Este modelo de praxe já existe há alguns anos. Há quinze anos já havia abusos e muita estupidez. Afinal, já na altura, os alunos menos interessantes eram os mais interessados em praxar. Mas as coisas acabavam em quinze dias e não se via alunos a marchar ou em formação a olhar para o chão durante meses.
A praxe não se prolongava tanto, nem era vista como a principal actividade académica. Hoje, em muitas universidades, é.
Para muitos alunos, a praxe confunde-se com a vida académica. Confunde-se porque ocupa quase todo o primeiro ano e por ser a principal actividade dos alunos do último ano. Confunde-se porque os códigos e rituais da praxe se reproduzem nas festas e noutras actividades.
O modelo de praxe actual é um reflexo do empobrecimento da participação cívica e da vida cultural dos estudantes do ensino superior português, mas é também uma causa deste. Este modelo reproduz em cada nova geração a mesma ideia boçal do que é a vida académica. Os alunos mais interessantes acabam por se ver obrigados a viver à margem desta ou a emigrar de Erasmus para paragens mais estimulantes.
Este empobrecimento está a criar uma geração para a qual passar pela universidade não significa estar mais informado ou envolvido com o mundo. A maioria dos alunos do ensino superior não lê regularmente jornais ou livros, não vai ao teatro, à ópera, não vê cinema diferente do de Hollywood. Para a maioria, a vida académica não cria novos hábitos culturais.
Este quadro é muito diferente do vivido pelos alunos de outros países europeus. A maior parte destes países não tem praxe. E, no entanto, tem alunos mais integrados numa vida académica saudável.
Quando um aluno entra numa universidade inglesa, é convidado a participar na "Welcome Week". Esta é marcada por jogos, desportos, concursos e actividades culturais e por festas diferentes todas as noites.
A ideia é dar as boas-vindas (por isso "Welcome"). A segunda ideia é integrar os alunos. Assim, esta semana, para além de actividades recreativas e festas, também os convida a aderir a organizações e associações (desportivas, culturais, políticas, lúdicas, etc.) que apresentam as suas actividades e tentam angariar novos sócios. Os alunos juntam-se ao clube de remo, de rugby, de futebol, ou de montanhismo, e também às sociedades de leitura, grupos de teatro e de poesia. Em paralelo, são convidados a participar em organizações como a Amnistia Internacional, Greepeace, WWF, ou a OXFAM.
Todos estes clubes, associações e organizações fazem parte da vida académica europeia e contribuem para a integração dos novos alunos, em paralelo com actividades curriculares e as festas e bares onde os alunos se encontram ou se apresentam com as suas bandas de garagem.
É por esta razão que a "Welcome Week" é apenas uma "Week". Esta semana não é suposto ser a vida académica, serve apenas para abrir e apresentar os alunos à vida da universidade, deixando que escolham a integração com que mais se identificam.
Uma enorme diferença face à praxe que hoje se pratica em Portugal. Uma tortura chata, longa, ordinária e desinteressante, dirigida principalmente pelos alunos menos interessantes, em que os que entram são chateados em actividades sem graça onde apenas conhecem pessoas do mesmo curso.
Este modelo está condenado a desaparecer. Não por proibição. Mas porque os alunos têm de querer mais do que isto. Não por ser imoral. Mas por ser chato e foleiro. É importante começar desde já a dar alternativas dentro dos campi universitários, trazendo mais actividades culturais, promovendo actividades interessantes para os alunos do primeiro ano e estimulando a participação cívica dos alunos. Este é um papel em que os professores, os actuais alunos, o Ministério da Cultura e o do Ensino Superior têm de apostar, se queremos mudar o que é ser um universitário e se queremos que a universidade dê o seu contributo para a vida cívica e cultural de Portugal.

21 comentários:

Paivamix disse...

Concordo em certos pontos, é a melhor critica que já li até agora, mas quanto às actividades tenho a dizer que maior parte das universidades também tem "Welcome Weeks", e que praxantes e praxados, JUNTOS, assistem a esses momentos todos. Somos todos da mesma academia e posso dizer que sou praxante e tive um orgulho desmedido quando vi os meus caloiros berrarem pelo seu curso na recepção ao reitor.
Vocês esquecem-se que a praxe não é só isso. É ganhar amor ao que se faz, é saber amar o curso, saber defendê-lo, ficar forte. A praxe é isso também. Eu posso dizer que sou dos que menos praxo, e quando o faço é para fazer brincadeiras. Não me revejo no conceito físico que a praxe tem, mas ela é muito útil. Só quem não passa por isso é que não sabe. São como as palmadas dos pais quando somos novos. Doeu? Sim. Valeu a pena? Muito provavelmente. Sâo lições de vida.

ser.r.alves disse...

Amar o curso?!?!?!?
Saber defendê-lo?!?!?!? (de quê?)
São como as palmadas dos pais?? (então conotas a praxe com algo negativo, certo?)

"Quando o faço [praxo] é para fazer brincadeiras" - que brincadeiras mais concretamente? Podes precisar Paivamix?

Paivamix disse...

Sim, amar o curso. Gostar de se estar na academia, saber o que queremos e gostar daquilo que fazemos.

Sim, saber defender. Defender nao é de quê mas sim só defender. Em inglês, stand up for. Respeitá-lo e não rebaixar a importância do curso em relação a outros mais "populares" do género de medicina.

Sim, as palmadas dos pais. As palmadas nunca foram negativas. São, aliás, positivas, porque ensinam. Qualquer vida sem disciplina regrada acaba por ser contraproducente.

Brincadeiras de interacção com os caloiros, entre mim e eles, ou entre eles próprios. Jogos, teatros, conversas inventadas, composições... etc.

Por exemplo, mandei uma caloira fazer-me uma composição metafórica sobre fichas triplas, para ver o quanto a imaginação funcionava e li coisas interessantíssimas, associações que eu nunca me lembraria, como por exemplo o a santíssima trindade, e coisas do género.

A praxe não é só má. A praxe, bem feita, estimula e pode ser benéfica.

Pedro disse...

"Gostar de se estar na academia, saber o que queremos e gostar daquilo que fazemos."

ninguém precisa da praxe para saber o que quer, e gostar de fazer ou estudar uma área. Basta gostar da temática. E se eu entrar num curso que não tenho o minimo interesse (infelizmente realidade comum), é com a praxe que passo a gostar dele, ou é com o que vou aprendedo no decurso do curso?

"Defender nao é de quê mas sim só defender."

hã?!?!? para haver uma defesa, tem que haver uma agressão. isto não faz sentido nenhum.

"Respeitá-lo e não rebaixar a importância do curso em relação a outros mais "populares" do género de medicina."

hã?!?!? isto também não faz sentido nenhum. nenhum curso obviamente é menor e menos necessário que qualquer outro (ok, com as devidas excepções), mas por exemplo, em que aspecto é que um curso de engenharia física ou mesmo física é inferior a um curso de medicina? não é preciso a praxe para perceber isto.

Paivamix disse...

Quem não quer perceber, claro que não percebe, e o papel de inquisidor é sempre mais fácil.

Não é a praxe que vai fazer isso, mas ensina-te a ter ogrulho onde entraste, e foste tu que entraste, com mérito teu. É só isso. Tens mérito? Sim. a praxe dá-te só um empurrão extra pra teres ainda mais orgulho nas cores que vestes e nas fitas que usas.

Pronto, defender.... Vejam mais "defender" como honrar e respeitar e não ligar a criticas mal construidas de outros sobre o que fazemos. Saber ripostar.

Nem a praxe te ensina a perceber. Simplesmente te ensina a teres orgulho e a dizer que gostas mesmo de onde entraste.

Os meus caloiros, maior parte gosta da praxe.

É uma seca. Concordo. EU também já passei por isso e por muito pior do que eles, acreditem. Encher logo 100 de manhã não é pêra doce.

Mas agora olho pra trás e essa coisa do encher parece-me mal e não faço isso. só se houver mesmo um desrespeito total pra mim ou o curso e as pessoas dele.

Brincadeiras, Integração, com respeito. É só isso a praxe.

Quem abusa é que faz mal.

Ainda hoje de manhã fui às aulas, sem traje, e um caloiro pergunta-me entusiasmado se eu tinha pacotes de leite, porque o mandei fazer tanques com pacotes de leite pra depois andar a simular uma guerra, numa praxe que queria fazer.

SOmos todos amigos, temos um denominador em comum, o curso. É o que nos une e isso é muito importante. Defende-lo, respeitá-lo. Dizer bem.

Eu já passei por pior, e não concordo com muitas coisas que se fazem, exageros.

Mas não acho que deva acabar. talvez reformulada. Nada mais.

Pedro disse...

Bom, paivamix, vamos lá por partes:

"Quem não quer perceber, claro que não percebe, e o papel de inquisidor é sempre mais fácil."

Neste ponto realmente não percebo nada. Este blog é um espaço aberto à discussão e troca de opiniões, e leste um artigo com o qual concordaste com alguns aspectos, e com outros discordaste. Nos aspectos que não concordaste, argumentaste. Li os teus argumentos, contra-argumentei e coloquei questões para melhor compreender o teu raciocínio. A isto chama-se debate ou troca de ideias (até à data, parece-me que dentro de um discurso saudável, apesar das posições antagónicas). Portanto, não percebo mesmo este comentário. Em contrapartida, parece-me que estás a criar uma barreira ao diálogo e à troca de ideias, afirmando imediatamente que eu não quero perceber. Mas realmente, há muita coisa que não percebo nos teus argumentos e ao contrário do que dizes, estou a querer perceber.

“Vejam mais "defender" como honrar e respeitar e não ligar a criticas mal construidas de outros sobre o que fazemos. Saber ripostar.”

Também não percebo isto. Como é que a praxe me vai ensinar a saber ripostar? Não é com a evolução do curso e o aumento do meu conhecimento que ganho as tais "armas" para elucidar alguém sobre a importância da matéria que estudo? E se as críticas forem bem construídas, e realmente terem razão? Como é que a praxe me ensina a lidar com isto?

"Simplesmente te ensina a teres orgulho e a dizer que gostas mesmo de onde entraste."

bom, questiono os ensinamentos da praxe, e também questiono esse orgulho a que te referes. Mas sem entrar por aí (pode ser que entremos por aí - ou não), não percebo como é que a praxe me pode ensinar a ter orgulho e a gostar do meu curso. Não percebo mesmo isto. Então se entro num curso para o qual não tenho a mínima paciência, estudo coisas que não suporto até À raiz do cabelo, como é que a praxe me faz gostar disto? Tenho que gostar só por gostar e porque a praxe me ensinou a isso, ou gosto porque o tema estudado são realmente do meu interesse?

"SOmos todos amigos, temos um denominador em comum, o curso. É o que nos une e isso é muito importante. Defende-lo, respeitá-lo. Dizer bem."

independentemente da existência ou não de praxe, entras num curso, conheces as pessoas, gostas delas e fazes amigos, é natural. Agora, o que não percebo mesmo é o porquê dessa fobia em defender, respeitar, e dizer bem do curso. Porque é que preciso de defender, respeitar, e dizer bem do curso com unhas e dentes? Muitas vezes até temos professores que nem são nada de jeito, que não explicam bem a matéria, há cursos que estão mal equipadas e não têm condições para o desenvolvimento normal e aprendizagem das matérias leccionadas, e eu tenho que aprender a dizer bem do curso? Não só não percebo esta ideia, como também não percebo a necessidade dela.

E como é que a praxe me ensina estas coisas? Não é gritando “sexo, orgia, só em …” Ou gritar em uníssimo (por exemplo) “Informática”, ou a fazer não sei o quê a mando de quem que a praxe me pode ensinar estas coisas. Porque se alguém vai dizer que o que eu estudei não interessa para nada, a minha resposta não é “Informática!!!” ou “Sexo, orgia, só em … “. Se respondesse isto, bem que lhe demonstrava que o meu curso não interessava para nada (ou pelo menos a praxe).

Realmente, não percebo mesmo os teus argumentos.

Paivamix disse...

Hmmm, com a praxe, por exemplo, fomos, engeheiros e caloiros, cantar o hino nacional em frente ao "aqui nasceu portugal" em guimaraes.

Acho que isso é um momento bonito.
Quem quer estar na praxe, é porque percebe que não é mau. Ninguém anda obrigado. São actividades.

Isso do defender, podes ver por exemplo nas gritarias, a ver quem berra mais, é bonito de se ver por acaso.

Essas coisas do berrar e gritar Informática são pra espicaçar "adversários", pra ver quem é que berra mais, na brincadeira.

E não é a praxe que te vai ensinar a gostar do curso se não gostares dele. se não gostares, vais embora. simples. a praxe é pra quem quer ficar, não pra quem já quer ir embora ao princípio.

E repito, a praxe não é má. No fundo é só uma brincadeira. No final somos todos iguais.

E nunca é demais frisar mais esta ideia.

ser.r.alves disse...

Oh!... Eu queria um pouco mais de precisão Paivamix. Afinal as praxes já duram mais de duas semanas em alguns sítios. E muitas vezes de muito cedinho até muito tarde.
O que fazem nessas horas todas.
Só cantam o hino nacional. Espicaçam outros cursos para ver quem berra mais alto. Que brincadeiras são essas. Vá lá, conta. 1º dia, 1ª hora - cantámos aquilo; 1º dia, 2ª hora - fizemos aquela brincadeira onde se passa aquilo; 1º dia, 3ª hora - fomos ali por aquele motivo; 1º dia, 4ª hora - pintámos a cara dos caloiros para dizer isto; 1º dia, 5ª hora - almoçámos naquele local, desta maneira; 1º dia, 6ª hora - ...
Conta-me, estou curioso.
Porque é que achaste determinadas brincadeiras e cantarias engraçadas? Que aprendeste com elas que não poderias aprender de outras formas?

Bastian disse...

"Vocês esquecem-se que a praxe não é só isso. É ganhar amor ao que se faz, é saber amar o curso, saber defendê-lo, ficar forte."

No primeiro curso para o qual entrei fui praxado. Acabei por vir a perder o interesse no curso e a mudar para outro do qual gosto mais.

A praxe não fez absolutamente nada para aumentar o meu gosto ao curso e duvido que faça o mesmo por outros, até porque coisa que não falta são pessoas que seguem para cursos dos quais não gostam e que acabam por mudar, com ou sem praxe.

E comparar a praxe à educação e disciplina dada pelos pais face a questões de educação ou mau comportamento por parte dos filhos, é, no mínimo, uma comparação muito má.

A praxe é suposta existir com um fim disciplinar ou educativo? Foram os caloiros que se portaram mal e agora merecem umas "palmadas" no rabo?

Quando uma das coisas que se argumenta deste lado é exactamente a discriminação hierárquica e o ambiente pseudo-disciplinar que parece derivar duma formação militar, não ajuda muito à vossa argumentação virem a compará-lo à educação dada pelos encarregados de educação em circunstâncias que nada têm a ver com a praxe.

Em suma: o facto é que o Ensino Superior podia existir sem praxe, e pode vir a existir sem praxe, sem que em nada isso altere a qualidade da educação ou a interacção com outros colegas do curso.

Paivamix disse...

Não há plano nenhum. simplesmente estamos com os caloiros. mais de duas semanas? aqui é até maio.

Vamos almoçar com eles, todos juntos, vamos com eles até às salas, etc...

Falamos com eles, brincadeiras que nos surgem na altura.

Já mencionei algumas lá atrás.

"Porque é que achaste determinadas brincadeiras e cantarias engraçadas? Que aprendeste com elas que não poderias aprender de outras formas?"

Brincadeiras é suposto serem engraçadas não é? E cantorias também são engraçadas, não são? Cantar e brincar e dançar e mexer-se faz bem, por isso essa pergunta nem sequer faz muito sentido. Tu aprendes a cantar quando estás a tomar banho?

O propósito disto é tu aproveitares pra fazer este tipo de coisas com todas as pessoas do teu curso.
Se quiseres ir pra outro lado fazer as mesmas coisas, isso já é do foro de cada um.

Se estás assim tão curioso em ver um dia de praxe, o melhor é ires ver, porque eu não sou um calendário com memória fotográfica.

É só porque o comentário me soou sarcástico e irónico.

Paivamix disse...

"No primeiro curso para o qual entrei fui praxado. Acabei por vir a perder o interesse no curso e a mudar para outro do qual gosto mais."

Perdeste o interesse no curso, tu próprio, a praxe não tem nada a ver com isso. É só pra quem quer ficar. A praxe não te vai fazer gostar do curso se não gostares dele. Vai é fazer que gostes ainda mais, quando já gostas. Acho que já frisei isto lá atrás.

"Em suma: o facto é que o Ensino Superior podia existir sem praxe, e pode vir a existir sem praxe, sem que em nada isso altere a qualidade da educação ou a interacção com outros colegas do curso."

Então deixa-a existir. É que maior parte das pessoas só vê o negativo da praxe. São extremistas. Ninguém se portou mal, ninguém é mais que ninguém. É uma brincadeira e quem quiser alinhar, alinha.

É simples. E é um teste à tua resistência à adversidade, à tua vontade de querer envergar o traje da academia. Chama-lhe simbolismo.

pedro disse...

Paivamix,

“mais de duas semanas? aqui é até maio.”
Chiça, na tua faculdade voçês são massacrantes!

“Fomos (…) cantar o hino nacional em frente ao "aqui nasceu portugal" em guimaraes. Acho que isso é um momento bonito.”

Eu não acho isto nada bonito, Acho isto um ímpeto nacionalista bacoco, com toques fascizantes. Salazar (que já foi para aqui referido várias vezes neste blog) é que sim, haveria de gostar destes comportamentos, característico de grupos do tipo Mocidade Portuguesa (MP).

“Brincadeiras é suposto serem engraçadas não é?”

Engraçadas para quem? Quantas destas brincadeiras, quem apenas se ri são os “doutores”? Para além de ter observado isso in loco, se fizeres uma pesquisa rápida no youtube e afins (onde se podem observar vários vídeos relacionados com praxe), e verás quem é que se diverte mais com as ditas brincadeiras. Não duvido que, nas praxes, tenciones não ferir os princípios de ninguém, mas não podemos resumir as praxes à forma como tu as praticas, pois existe muito mais gente a praticá-las e por vezes com motivações algo obscuras.

“A praxe não te vai fazer gostar do curso se não gostares dele. Vai é fazer que gostes ainda mais, quando já gostas.”

Continuo sem perceber esta ideia, para além que há aqui uma contradição no teu raciocínio. Concordas que não é a praxe que vai influenciar o meu gosto pessoal pelo curso (afirmaste-o nesta frase). Se não me faz gostar do curso, não compreendo como é que me possa fazer gostar ainda mais. Não é com esse sentimento algo militarista e corporativista, de gritar e de obedecer (muitas vezes!!) cegamente ao que alguém MANDA fazer que vou passar a gostar mais das disciplinas e da matéria que vou estudar.

“é um teste à tua resistência à adversidade, à tua vontade de querer envergar o traje da academia.”

Primeiramente, eu não preciso da praxe para nada para usar o traje académico. Vou à loja, compro um e pronto. No máximo dos máximos, o teste à minha resistência seria eu ir trabalhar e esforçar-me pa caraças para ter $$ para pagar o traje. Na esmagadora maioria dos casos, os alunos ainda estão dependentes do rendimento familiar, pelo que quem paga são os responsáveis (pais, tios, avós, etc). Logo, este raciocínio também não me faz sentido. Além de que, mais uma vez, eu posso comprar o traje sem passar pela praxe, portanto esta ideia de sofrimento para atingir o (suposto) inatingível é muito bacoca.

“E repito, a praxe não é má. No fundo é só uma brincadeira.”

Boa é que ela não é de certeza, cada vez isso é mais visto. Comportamento até recentemente eram aceites como “normais” e obrigatórios na praxe, hoje vão para a barra do tribunal, já havendo casos de condenações. Felizmente, cada vez há mais coragem para a denúncia delas, e ao contrário do que se possa pensar, elas não são assim tão raras. Se assim fosse, as denuncias não aumentavam de ano para ano.

“No final somos todos iguais.”
o problema é que com a praxe NUNCA somos iguais. Existe uma hierarquia definida de acordo com o número de matrículas e não baseada nas tuas capacidades e valores enquanto indivíduo. Na praxe, nós nunca seremos iguais a alguém que tenha mais que uma matrícula que nós, porque ela torna-se nosso superior. E isto não tem lógica nenhuma. São criadas estruturas proto-militares muito parecidas à MP nos seus objectivos, na anulação dos “defeitos” (vulgo características individuais) e formação do carácter, tal como no cultivo e devoção do curso (que no caso da MP seria não o curso mas sim a pátria). Estás enganado, paivamix, a praxe não é inocente. E muito menos, ao contrário do que possas fazer e pensar, um conjunto de brincadeiras.

(continua)

pedro disse...

(continuação)

Em jeito de conculsão, um comentário (retirado de http://topazio1950.blogs.sapo.pt/207131.html) sobre a Mocidade Portuguesa, de alguém que viveu este tempo:

“Para tristeza minha que como criança não entendia, porque meu pai, fez um requerimento para eu não frequentar nem a mocidade nem as aulas de região e moral, conclusão eu nas aulas de educação física era excluída porque depois não ía ao fim do ano a festa acho que era no Estádio Nacional”

Infelizmente, A praxe é TÃO isto!!!!

Bastian disse...

"Perdeste o interesse no curso, tu próprio, a praxe não tem nada a ver com isso. É só pra quem quer ficar. A praxe não te vai fazer gostar do curso se não gostares dele. Vai é fazer que gostes ainda mais, quando já gostas. Acho que já frisei isto lá atrás."

Não. O que disseste lá atrás foi:

"Vocês esquecem-se que a praxe não é só isso. É ganhar amor ao que se faz, é saber amar o curso, saber defendê-lo, ficar forte."

Se se ganha algo é porque lá antes não havia nada, e visto que o Português não é, de forma alguma, o meu fraco, creio que te faltou uma escolha de palavras adequada àquilo que pretendias passar na mensagem.

Eu continuo a achar piada a comentários do género "quem quiser alinhar alinha", quando aposto e meto as mãos no fogo em como não haveria uma aderência tão forte à praxe por parte dos caloiros se realmente fosse esse o caso e não houvesse uma advertência subjacente a quem não participa: como a exclusão de actividades académicas, poder usar o traje, etc... recordo-me nitidamente que isto estava presente no meu dossier/documento de caloiro, portanto por favor... toquem a trocar o disco porque esse já está riscado.

E visto que tenho ouvido comentários semelhantes vindo de alunos de outras faculdades este não é um fenómeno isolado e que se passa apenas na minha universidade.

"Então deixa-a existir. É que maior parte das pessoas só vê o negativo da praxe. São extremistas. Ninguém se portou mal, ninguém é mais que ninguém. É uma brincadeira e quem quiser alinhar, alinha."

Isso seria assim tão simples se não fosse uma infeliz realidade que, de tempos a tempos, ou quase sempre em certas universidades hajam sérios abusos.

Como o "acidente" que vitimizou o Diogo Paiva ou os incidentes relativos às praxes das Universidades de agronomia em Évora, entre outras.

A questão não é se "por uns fazerem mal terão todos pagar?", mas se "para que a maioria se possa divertir tenham de haver eventualmente pessoas que acabem mortas ou barradas em esterco?"

Tanto a pergunta que se deve pôr como a resposta parecem-me óbvias.

Sir Giga disse...

As “praxes” estão concebidas para receber, conhecer e integrar os novos colegas que todos os anos chegam às universidades. A pretexto das mesmas praticam-se muitas vezes actos como flexões, “binge-drinking”, andar de gatas, beber mistelas (inócuas, ainda que de travo arrepiante) e outros que tais, que reprovo. Também não percebo porque muitos que praxam não gostam que os caloiros se riam, se a ideia principal é que se divirtam. Acredito que deva haver respeito (dos mais novos pelos mais velhos, mas também o recíproco), partilha, educação e lealdade.
Adorei berrar pelo curso, aprender as músicas do mesmo e outras e “competir” com outros cursos e academias. Ninguém acredita que sejam momentos de grande solenidade ou que tenha um significado transcendente, mas é divertido, despretensioso e permite um convívio salutar. Há quem não goste, e tal deve ser respeitado. Adiante.
Quem já alguma vez foi a um “dia da empresa” pode ter uma ligeira ideia dos benefícios de atravessar dificuldades (em desportos radicais, “rally-papers” e outros), competir com colegas, dançar e cantar numa ambiente descontraído, e terminar com um repasto bem regado. Do porteiro ao director, todos acabam por conhecer-se melhor e daí saem muitas vezes oportunidades de colaboração que de outro modo nem seriam equacionadas. Até ao meu primeiro dia da empresa, passei mais de um ano conhecendo apenas quem estava no meu escritório e pouco mais, num edifício onde trabalham mais de quinhentas pessoas. Podia ainda hoje lá trabalhar sem conhecer mais ninguém? “Podia, mas não era a mesma coisa”. Não o era, de todo. E as praxes tem muito disto, quando são feitas a pensar nos caloiros, algo que me ensinaram a fazer e procurei transmitir aos mais novos.
Como em qualquer actividade social, há muitas vezes (mas nem sempre, e ainda bem) aspectos negativos a melhorar. Já foi dito neste blog, e até à exaustão, que qualquer abuso é um desvirtuamento quer da Praxe (“lato senso”), quer das “praxes” (“stricto senso”). Urge limpar a imagem de impunidade que muitas vezes no passado levou a práticas sob todos os pontos de vista condenáveis.
Quem vê as praxes de relance, não as consegue contextualizar devidamente. Não vê como os veteranos ajudam os caloiros nos primeiros dias da faculdade, algo especialmente importante para quem estuda longe de casa. Não vê os jantares de convívio. Não sente a alegria e responsabilidade de ter alguém a pedir-nos que os apadrinhe. Também não vê os abraços e os sorrisos no final do ano lectivo. Quem vê as praxes numa pequena e baça janela temporal não percebe porque os caloiros de hoje praxarão amanhã, ainda que dê trabalho. Ser praxado quinze dias e nada é quase a mesma coisa.

Sir Giga disse...

Nem vou estar aqui fazer a apologia da Tradição Académica, que o MATA tanto odeia e quer, infrutífera e incompreensivelmente, erradicar. Já o fiz antes e não gosto de me repetir. As praxes são, em si, algo a preservar. Pelas festas (onde me diverti como nunca, exceptuando uns pequenos excessos aqui e ali, por culpa da minha juventude, e não de quem me praxou), os rally-papers (ondese aprende a história e conhecem os lugares mais emblemáticos da cidade, bem como os caloiros de outros cursos na mesma equipe), as composições-maravilha, as aulas-fantasma (onde aprendi numa hora que tenho o direito de reivindicar o cumprimento das normas pedagógicas seja a que professor for, e inclusive ao Magnífico Reitor, que me deu aulas), a Latada (que guardo na recordação como um dos melhores dias da minha vida, e cuja preparação me permitiu conhecer todo o segundo ano do meu curso), a semana das barraquinhas, a semana do caloiro, a semana académica, o cortejo, as brincadeiras, os jogos populares, as canções e todo o turbilhão de emoções que foi o meu primeiro ano.
E sim, nas praxes – e à luz da Praxe - somos todos iguais. Pretos, brancos, chineses, comunistas, cavaquistas, ricos, pobres, de “Curral-de-Moinas” ou de Cascais, homens e mulheres, não há discriminação como a de que infelizmente muitos alunos são ainda alvo, nas salas de aula, nos empregos e nas suas vidas. Se faz aflição a alguém que os mais novos possam respeitar e aprender com os mais velhos (e, pasme-se, tal acontece mesmo), e que tal esteja hierarquizado, paciência. Muitas dezenas de milhares de estudantes (ultrapassando certamente a centenas de milhar) continuam a honrar a Tradição Académica. Já aqueles que da mesma se servem para praticar actos reprováveis, devem ser devidamente responsabilizados e penalizados. Se fosse este o vosso desígnio e este um espaço para a discussão franca dos aspectos mais negativos associados à Praxis Académica, teriam bem mais adeptos que opositores. Digo eu…

Paivamix disse...

Sir Giga, tiraste-me as palavras da boca. Só quem não vive os momentos académicos proporcionados pela praxe é que não sabe o que aquilo representa.

E pelo que vi, tu pertences a uma tuna. E a praxe da tuna ainda é mais importante. Imagino o que se sente quando se passa a tuno. Deve ser uma alegria desmedida.

Obrigado Sir Giga. É preciso que as pessoas compreendam que a praxe não é má e que não podemos tomar como exemplos a meia dúzia que a torna assim.

Pedro disse...

Ainda que sem tempo para grandes testamentos, apenas chamo à atenção a isto:

“E sim, nas praxes – e à luz da Praxe - somos todos iguais. (…) Se faz aflição a alguém que os mais novos possam respeitar e aprender com os mais velhos (…) e que tal esteja hierarquizado, paciência.”

Paciência… é preciso ter muita paciência…. Até quando se vêm defender a praxe e contradiz-se no mesmo parágrafo…

Bastian disse...

Acho que a única coisa infrutífera por parte do MATA é tentar argumentar com pessoas pró-praxe, tipo "Sir" (de novo falho em ver a foleirada do título de cavalaria...) Giga, porque tanto quanto eu por ventura me quero coibir de fazer comentários, leio coisas tão além da verdade que é díficil não dizer nada.

" Se faz aflição a alguém que os mais novos possam respeitar e aprender com os mais velhos"

Mentira. Quando se fala de coacção não há espaço para respeito. E o respeito ganha-se através de respeito.

Desculpem mas falho em ver como se desenvolve respeito por alguém que nos grita aos ouvidos, que diz que não os podemos olhar nos olhos, que nos faz deitar no chão, etc etc...

Esta já é velha, mas o que sempre me foi ensinado é que quando se quer respeito devemos respeitar os outros. E sinceramente falho em ver como é que os exemplos que apontei são respeito de alguma forma.

Talvez nalgum universo paralelo, à parte das regras nas quais nos regemos neste?

E o MATA não procura ERRADICAR nada.

De novo o Sir Giga está a fazer propaganda, pura e dura, através da distorção e mentindo, tal como parece ser hábito de alguns apologistas da praxe.

Porque ninguém no MATA se opõe a rally-papers, a festas ou alguma coisa que... pelo menos escrita, não pareça ser degradante para os caloiros.

Se queres ser pró-praxe e defendê-la, fá-lo sem seres tão mentiroso e tão recambolesco nos argumentos que DISTORCES a favor da praxe.

ser.r.alves disse...

Pois, faz parte de quem defende as praxes, ou a praxe, ou a tradição académica, ou como quiserem designar, açambarcar o maior número de coisas possíveis daquelas que se passam em meio universitário, como se essa existência fosse sua (dela, da praxe) responsabilidade. Querem com isto fazer crer que essas coisas não aconteceriam se não fosse a praxe - as pessoas não se conheciam, não se divertiam, não se respeitavam, não se ajudavam mutuamente, não emprestavam apontamentos, não faziam festas nem rally-papers, não haveria música, etc. Para alguns defensores da praxe (e recuso-me a escrever com maiúscula), para estas coisas acontecerem em ambiente académico é necessário que exista um código que diga como são feitas e quem manda e é preciso atribuir a uns uma categoria hierárquica superior. Também é preciso que seja tradição e que se tenha de usar traje e só assim se pode um considerar academista ou universitário, pelo menos um "verdadeiro academista" ou "verdadeiro universitário".
É a arrogância, o elitismo e o pretensiosismo no seu esplendor máximo!

Anónimo disse...

Olá!

Concordo com o que o Prof. disse. Eu sou caloira; andei na praxe durante três semanas no início do ano lectivo e cheguei a conclusão de que aquilo não serve tanto quanto dizem! Em primeiro lugar, acho que a praxe tem duas funções: integrar e desintegrar. Sim, integrar no que diz respeito aqueles que andam na praxe, pois integram-se no grupo de amigos dos "Doutores", e desintegrar, pois os praxados deixam de sociabilizar com aqueles que, no inicio, desistiram da praxe e ignoram os que nunca pertenceram. Em segundo lugar, tenho que concordar com o que o prof. disse relativamente aos alunos que andam na praxe. É verdade, muito deles são os alunos menos interessantes, porque, além de ignorarem o resto da turma, são os mais mal educados! Estão sempre na conversa durante as aulas (a falarem com os "Doutores")....

Tenho pena que isto seja assim!