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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A ideologia do endividamento privado (no ensino superior) com os resultados que se esperavam (na vida das pessoas e na economia)

Uma realidade que já se esperava: os empréstimos bancários não são uma boa maneira de financiar o ensino superior. São apenas uma boa maneira de prender pessoas cada vez mais jovens aos bancos, para o resto da sua vida. É claro que ia ser (e vai ser, se continuar) dramático para muita pobre gente. Cortar nas bolsas ao mesmo tempo foi o golpe que tornou óbvia a agenda ideológica.
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Segue notícia do Público.


O nó cego da vida de estudante, sem emprego e com uma dívida para pagar ao banco
11.11.2012 - 09:05 Por Catarina Fernandes Martins

Desde que em 2007 foi criado o sistema de empréstimos estudantis com garantia governamental já foram concedidos mais de 202 milhões de euros a 17.750 alunos. A maioria daqueles que contrai um empréstimo tem até 23 anos. Com o desemprego jovem nos 35,9%, alguns têm dificuldade em pagar os milhares de euros que devem ao banco.
Tiago Teixeira devia ter começado em Setembro o segundo ano do Mestrado em Comunicação e Jornalismo na Universidade de Coimbra, mas em vez disso, voltou para a casa dos pais, em Guimarães e agora procura, desesperado, um trabalho.

Em Novembro de 2010, aluno do último ano da licenciatura em Jornalismo, pediu um empréstimo para poder terminar o curso. Já licenciado, decidiu continuar os estudos e inscreveu-se no mestrado, que teve de suspender por não ter capacidade financeira para pagar alojamento, alimentação e estudos e os 4200 euros que em breve terá de começar a pagar de volta ao banco, agora que o período de carência do empréstimo terminou.

Tiago tem 21 anos, uma licenciatura e um “grande sentimento de impotência”. Sabia que ia ser difícil encontrar um trabalho na área da sua formação, uma vez que “o jornalismo está pela hora da morte”.

Não pensou que fosse tão complicado empregar-se num restaurante, numa loja de roupa ou numa loja de electrodomésticos. Quando entrega currículos ouve duas respostas: “tem formação a mais” ou “estamos a reduzir pessoal”.

“É uma perspectiva muito negra. Não consigo arranjar emprego para ter dinheiro para mim. Não consigo arranjar emprego para pagar o empréstimo. Não sei como vou sair deste buraco”, lamenta.

Tiago percebeu que quando chegasse o momento de começar a pagar o empréstimo não teria o dinheiro necessário e por isso foi ao banco pedir um adiamento do momento em que tem de começar a pagar. Disseram-lhe para escrever uma carta a explicar a sua situação e que iriam avaliá-la. Ainda não começou a pagar o empréstimo, mas também não sabe se o seu pedido foi aceite.

Em Portugal, depois de uma primeira tentativa de criação de um regime de crédito bonificado para os estudantes do ensino superior em 1999, que não teve muito sucesso, a implementação de um sistema de empréstimos só se concretizou em Setembro de 2007, altura em que o Governo português lançou um novo sistema de empréstimos estudantis com garantia governamental.

De acordo com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, “pretendeu-se aproveitar o sistema de garantia já desenvolvido no país, em que as sociedades de garantia mútua são contra garantidas por um fundo público, o Fundo de Garantia Mútuo, gerido pela sociedade gestora do Fundo – a SPGM – para efeitos de promoção do acesso ao ensino superior.

A linha de crédito para estudantes com garantia mútua foi criada numa parceria do Ministério de Educação com nove bancos. Os estudantes podem pedir entre mil e cinco mil euros por cada ano de curso, num máximo de 25 mil euros a dividir por cinco anos. Enquanto estão a estudar e durante o primeiro ano a seguir ao final do curso – o chamado período de carência - os estudantes só pagam juros. Têm, depois, entre cinco a dez anos para pagar a totalidade do empréstimo.

Segundo a SPGM, desde 2007/2008, ano em que se iniciou este sistema de empréstimos juvenis, já foram concedidos mais de 202 milhões de euros a 17.750 alunos, o que corresponde a cerca de 4% da população que frequenta o ensino superior.

Em 2011 a SPGM apresentou um relatório feito com base nos resultados de um inquérito aos estudantes que recorreram ao sistema de empréstimos com garantia mútua. Nesse estudo é possível perceber que a maioria (68,5%) dos estudantes que fazem um empréstimo tem até 23 anos.

O ano lectivo de 2010/2011 foi aquele em que mais estudantes foram apoiados, com um total de 4537 empréstimos feitos.

Nos cinco anos de duração deste programa, o número de incumprimentos acumulado é de 2.884.790.

“Não podemos dizer que em Portugal houve uma adesão massiva aos empréstimos”, afirma Luísa Cerdeira, pró-reitora da Universidade de Lisboa e autora de uma tese de doutoramento sobre o financiamento do ensino superior português, onde procurou perceber até que ponto os custos de educação e de vida dos estudantes podem fomentar ou travar a acessibilidade ao ensino superior.Segundo a investigadora, muitos dos que procuraram empréstimos “foram empurrados por não terem bolsa”.

No estudo da SPGM, cerca de um terço dos inquiridos (31,4%) responderam também usufruir de uma bolsa de acção social.

“A bolsa mínima só paga as propinas e para sobreviver, os estudantes têm de pedir um empréstimo”, explica a Luísa Cerdeira.

Uma decisão adulta e inocente

Quando se inscreveu na licenciatura em Audiovisual e Multimédia na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa, em 2008, Andreia Dinis, 23 anos, foi ao banco pedir um empréstimo. Andreia nem se quer tinha conhecimento do crédito com garantia mútua em que o Estado é o fiador, por isso fez um empréstimo normal.

Na altura, disseram-lhe: “é o dever dos teus pais pagarem-te o curso”.

“Porque é que é dever dos meus pais”, perguntou? E pensou para ela própria: “Sou adulta. Tenho mãos e pés. Vou trabalhar”.

Nas primeiras semanas de aulas, convenceu-se de que o curso que tinha escolhido era caro – entre propinas e materiais, pensou que o que recebia do trabalho no call center não iria chegar.

Os pais de Andreia têm uma vida modesta. A mãe trabalha como empregada doméstica e o pai é empregado de balcão. Se Andreia pedisse, eles fariam de tudo para ajudá-la, diz. Mas a perspectiva de ser um encargo incomodou-a e Andreia não conseguiu evitar pensar em tudo o que poderia correr mal: e se os pais ficassem desempregados? E se os avós ficassem doentes? E se o pai (doente renal) ficasse tão doente que não podia continuar a trabalhar?

Andreia pensou no futuro de todos. Só não pensou no seu futuro com aquela dívida. “Foi uma decisão adulta, mas inocente”, diz.

Quatro anos depois, Andreia mudou de curso (estuda História de Arte na Universidade Nova de Lisboa) e há um ano que paga 277 euros por mês. Trabalha num call center e está à procura de outro trabalho. Tem enviado currículos, mas ainda não encontrou um segundo emprego.

Com uma dívida de mais de 17 mil euros para pagar, Andreia está arrependida: “Fui ingénua. Nunca deveria ter feito este empréstimo: é uma pequena maldiçãozinha que está sempre comigo”.

Luísa Cerdeira concorda com a ideia de que alguns jovens não sabem tudo o que deviam saber quando fazem um empréstimo: “Quanto mais jovens, menos conhecimentos têm”.

Para a investigadora, esta situação agrava-se quando se trata de alunos carenciados, que, muitas vezes “não têm percepção do endividamento, nem literacia financeira”. Por isso mesmo, pensa que os empréstimos a alunos com maiores dificuldades devem ser vistos com muita cautela. “Para apoiar as classes desfavorecidas deve recorrer-se a bolsas”, defende.

Um dos perigos, explica Luísa Cerdeira, é que os jovens não compreendam que se trata de um empréstimo bancário, com consequências em caso de incumprimento: “É bom que os jovens não entendam estes empréstimos como bolsas. Se não pagar, o estudante fica na lista do Banco de Portugal como devedor. Acontece aquilo que acontece a qualquer mau, ainda que neste caso involuntário, pagador: o banco não vai perdoar o empréstimo”.

Se não tiver emprego, não pago

Para Ricardo Canha parece lógica a situação em que se encontra: “Se querem que eu pague, tenho de ter emprego. Se não tiver emprego, não pago”.

Ricardo tem 24 anos e é finalista de Medicina Veterinária na Universidade Técnica de Lisboa. Chumbou no primeiro ano, porque teve uma depressão. No segundo, o banco manteve o empréstimo.

Pensou que não haveria problema e que o empréstimo se estenderia por mais um ano. Isso não aconteceu e por isso, em Novembro deixou de receber os 300 euros que todos os meses recebia emprestados e que usava para pagar transportes, alimentação e material de estudo. Agora, Ricardo vive apenas com a bolsa de apoio social, o que significa que tem direito a 220 euros mais a residência universitária onde vive.“Quando chumbei pensei que me dessem ao menos mais um ano de carência. Não é que omitam informação, mas também não dizem. Parti do princípio que sim”, explica.

Já telefonou para o banco a pedir a extensão do período de carência, mas disseram-lhe que não. Agora planeia ir ao banco pessoalmente e explicar a sua situação. “Não te podes rebaixar perante eles”, diz.

No inquérito encomendado pela SPGM são apresentadas algumas sugestões feitas pelos estudantes com base na sua utilização do sistema de empréstimos.

A principal sugestão dos estudantes prende-se com a redução do valor dos juros, mas há quem proponha a possibilidade de renegociar prazos, juros e pagamentos, de forma a ter em conta alterações na situação social ou escolar dos jovens (por exemplo, chumbar um ano ou não encontrar trabalho após a conclusão do curso).

Luísa Cerdeira não acredita que haja uma revisão do programa para aligeirar as condições.

Em Portugal, a única modalidade de empréstimos a estudantes disponível é a dos empréstimos convencionais ou hipotecários, que se caracterizam por terem uma taxa de juro anual, um calendário de pagamentos e uma modalidade de pagamento.

Em países como o Reino Unido ou a Suécia, por exemplo, é praticada outra modalidade, a dos empréstimos dependentes do rendimento do diplomado, em que o estudante, depois de encontrar um trabalho, paga uma percentagem do seu rendimento até que uma destas situações se verifique: o empréstimo e os juros são liquidados; o devedor paga uma quantia máxima; atinge-se um número máximo de anos e os detentores de rendimentos mais baixos ficam livres do empréstimo.

Para Luísa Cerdeira, o sistema convencional é “mais prudente porque não se esconde que é um empréstimo”.

Contudo, continua, “se o nosso Governo tivesse condições (e não tem), um sistema híbrido [em que há a opção de, em anos de baixos rendimentos devido a desemprego, o devedor efectuar pagamentos condicionados aos rendimentos desses anos, em vez de estar obrigado a um sistema fixo de pagamentos] seria vantajoso para ajudar os diplomados em situações de desemprego ou com salários abaixo de um certo nível”.

Acabo o curso, arranjo um emprego, pago o empréstimo

Uma das conclusões apresentadas na tese de Luísa Cerdeira, publicada em 2008, era a de que os diplomados entravam directamente no mercado de trabalho ou não passavam mais de 12 meses à procura de emprego, o que viabilizava o processo de reembolso do empréstimo.

Em 2006/2007 (quando surgiu o programa de empréstimos) o tempo de espera médio para arranjar emprego era consentâneo com o período de carência (1 ano).

Agora, já não é assim. “A entrada na vida activa é muito difícil. Dentro da área é ainda mais difícil”, explica Luísa Cerdeira.

Actualmente, o desemprego jovem está nos 35,9%. Entre os licenciados, a taxa de desemprego é de 10,2%.

Quando em 2007 Ricardo pediu 17 mil euros emprestados através do crédito com garantia mútua em que o Estado é fiador, pensou que a sua vida seguiria uma trajectória linear: “quando acabar o curso, arranjo um emprego e pago o empréstimo”.

Desde Setembro que envia CV, na esperança de encontrar um emprego que o ajude agora que deixou de receber dinheiro do banco. Tentou supermercados, call centers, cadeias de restauração... Mas “está muito difícil”.

Ricardo espera encontrar um emprego que lhe permita trabalhar nos dias em que tem aulas teóricas para não prejudicar demasiado os estudos.

No próximo ano, para além de não receber o empréstimo, terá de começar a pagar aquilo que deve. Não sabe como vai conciliar um trabalho a tempo inteiro com o ano de estágio que o espera.Um dos maiores receios de Ricardo é o de ser obrigado a ficar afastado da sua área de estudos durante muito tempo, acabando por não conseguir encontrar um emprego relacionado com Medicina e Veterinária.

Luísa Cerdeira acha que a preocupação de Ricardo é justificada. É frequente que alguns jovens tenham de trabalhar para pagar o empréstimo: “Para pagar o empréstimo, têm de trabalhar num call center e se calhar fazem umas horas ao fim-de-semana num supermercado. Durante esse tempo, não se vão concentrar em procurar emprego na sua área”, diz a investigadora.

E isso “é um perigo”, conclui.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Que se passa no Ensino Superior? (5)

Há mais alunos a desistir do ensino superior devido à crise
24.01.2012, Público, Samuel Silva

Cerca de 3300 alunos já cancelaram a sua inscrição no ensino superior desde o início deste ano lectivo. Os dados dizem respeito a apenas metade das universidades, ainda que estejam contabilizadas as maiores instituições. As dificuldades económicas dos estudantes estão na base de muitas das desistências, reconhecem os responsáveis académicos. A dificuldade de acesso a bolsas de estudo e o aumento das propinas criam ainda mais problemas, alertam as associações estudantis

Estes 3300 abandonos representam um aumento de 6% face ao registado em igual período do ano passado nas mesmas instituições. Os dados foram recolhidos pelo PÚBLICO junto de sete universidades, metade da oferta nacional, mas incluem as maiores academias. Só a Universidade de Lisboa concentra mais de um quarto das desistências. Na Clássica, 870 estudantes pediram o cancelamento da matrícula desde Setembro, um número que é considerado pelos responsáveis da instituição como "ligeiramente superior" face ao registado há um ano.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Que se passa no Ensino Superior? (4)

Alunos do ensino superior voltam a ter crédito bancário
O sistema de crédito bancário aos estudantes do ensino superior, suspenso desde o início do ano letivo, vai ser retomado.

O Ministério da Educação e Ciência (MEC) anunciou hoje o reinício do sistema de crédito bancário com garantia mútua a estudantes do Ensino Superior suspenso desde o início do ano letivo.

Ao abrigo da linha de crédito com garantia mútua para estudantes do Ensino Superior, o Estado comprometeu-se, anualmente, a reforçar o fundo de contra garantia mútuo com o capital necessário para assegurar a sua continuidade.

A decisão de proceder à suspensão do sistema, adianta o MEC em comunicado, tinha resultado do atraso existente, desde maio de 2010, na liquidação do montante necessário à capitalização do fundo de contra garantia mútuo, desvio esse que foi identificado pelo atual Executivo em julho de 2011.

Desde essa data, o MEC manteve contactos com a Sociedade Portuguesa de Garantia Mútua com vista à reabertura da linha de crédito, tendo agora chegado a um acordo que, ao mesmo tempo que inicia a liquidação dos montantes em atraso, permite reativar o sistema, assegurando a manutenção das condições, nomeadamente o montante do crédito, o prazo de utilização e de reembolso, o período de carência e a taxa de juro.

Segundo o Ministério da Educação e Ciência, o sistema agora retomado permite aos estudantes financiar os seus estudos superiores, beneficiando de uma garantia prestada pelo Estado português, através do Sistema de Garantia Mútua, que dispensa a intervenção de terceiros, com uma taxa de juro baixa e um prazo alargado de reembolso.

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O Estado paga aos bancos para emprestarem dinheiro aos estudantes que não possam pagar os seus estudos e se estes não conseguirem pagar, paga o Estado. Quem fica a ganhar, quem é? Mais uma vez, os bancos!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Que se passa no ensino superior? (3)

Associações académicas protestam contra sistema de atribuição de bolsas
Texto de Lusa, 20/12/2011

Associações de Estudantes do Ensino Superior iniciam protesto de três dias contra o sistema de atribuição de bolsas


As Associações de Estudantes e Académicas do Ensino Superior iniciam hoje, 20 de Dezembro, três dias de protesto contra o sistema de atribuição de bolsas, culminando na quinta-feira com uma acção de sensibilização no Parlamento.

A 10 de Dezembro, reunidas em Braga num Encontro Nacional de Direcções Associativas (ENDA) extraordinário, as associações estudantis aprovaram para hoje, quarta-feira e quinta-feira acções públicas como “forma de protesto” contra o actual Regime de Atribuição de Bolsas para o Ensino Superior, sob o mote “o Natal está negro”.

Em declarações à Lusa, o presidente da Federação Académica do Porto (FAP), Luís Rebelo, alertou que “com os contínuos atrasos no pagamento das bolsas, com as famílias a passar mais dificuldades, com os cortes salariais, com a taxa de desemprego e quando o sistema de acção social não consegue dar resposta a estas problemáticas sociais, naturalmente haverá mais pessoas a abandonar o ensino superior”, tendo este número já ultrapassado os seis mil estudantes este ano lectivo, em termos nacionais.

As acções começaram hoje “com a divulgação de uma imagem corporativa que faz referência a um natal difícil por parte dos estudantes do ensino superior”, sob o mote ‘o Natal está negro’, sendo esta uma “imagem muito marcada, com a presença muito forte da cor preta” que vai estar presente nos jornais, redes sociais, nos sites institucionais das associações académicas e de estudantes.

“Na quarta-feira teremos acções de sensibilização a nível local que passarão, em muitas cidades, pela colocação de árvores de natal com faixas negras, fazendo alusão a essa frase de que o Natal está negro no ensino superior. É uma acção que se vai replicar em diversas cidades: Braga, Porto, Coimbra, Lisboa, Setúbal, Faro”, anunciou o dirigente estudantil.

Acção na Assembleia da República
Segundo Luís Rebelo, para quinta-feira está marcada “uma acção única a nível nacional, em que os dirigentes associativos, em representação dos estudantes do ensino superior, se deslocarão a Lisboa para uma acção de sensibilização na Assembleia da República, que passará também por uma vigília, fazendo alusão aos mais de seis mil estudantes que, pelas contas das instituições, já abandonaram o ensino superior” este ano.

“Também faremos uma paragem na secretaria de Estado do Ensino Superior para sensibilizar para estes problemas. Mais uma vez os atrasos crónicos na atribuição das bolsas de estudo. É impensável que, ano após ano, as pessoas continuam a receber as bolsas extremamente tarde”, condenou.

Para o presidente da FAP “os atrasos são o problema mais crónico do processo de atribuição de bolsas”, sendo também feita “alusão à questão dos estudantes do primeiro ano que, ao contrário de todos os outros, só tiveram uma única fase para fazer o requerimento à bolsa de estudo”.

“Durante a tarde de quinta-feira faremos também, na Assembleia da República, a entrega de um pequeno manifesto aos partidos que estiverem disponíveis para receber, no qual daremos conta de algumas posições do movimento associativo face ao actual ano e aos actuais procedimentos de requerimento de bolsa de estudo”, antecipou.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Que se passa no Ensino Superior?

Dificuldades económicas forçam desistências no Ensino Superior
Novo regulamento das bolsas de estudo pode vir a agravar número de desistências
Texto de Ana Chaves 06/12/2011

O número de estudantes que abandona o ensino superior terá tendência a aumentar. Marta Coelho, de 22 anos, conhece bem as dificuldades de prosseguir os estudos com dificuldades económicas. Iniciou o percurso académico aos 17, mas já foi obrigada a interrompê-lo várias vezes.

Em 2006 ingressou na Licenciatura em Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP). Com uma situação financeira débil, Marta conta que havia períodos em que não conseguia comparecer às aulas por não ter dinheiro para almoçar.

A residir em Santa Maria da Feira, a prioridade no início do mês era tirar o passe. Quando tinha aulas todo o dia a solução era almoçar na faculdade. Porém, dias existiram em que “nem um euro tinha na carteira.” Era uma amiga que a ajudava: “Quando me emprestava cinco euros, eu almoçava na cantina e o que sobrava levava para casa. Dois euros e meio já davam para o meu pai pôr gasolina e ir trabalhar.”

Nunca reprovou a nenhuma cadeira. Acompanhava as aulas com os documentos que os professores disponibilizavam e mesmo com estes percalços formou-se com média de 16 valores.

"Se não fosse a bolsa, não tinha tirado o curso"
Com um agregado familiar numeroso, Marta e as irmãs sempre tiveram bolsas de estudo ou bolsas de mérito. Quando terminou a licenciatura viu-se obrigada a parar durante um ano. Fazia trabalhos esporádicos e tentava amealhar dinheiro para um dia voltar a estudar. E assim foi.

Actualmente é mestranda em Sociologia na FLUP, mas desta vez não conseguiu sequer frequentar as cadeiras do primeiro semestre. Resiliente, e com receio de ter de protelar os sonhos uma vez mais, envia currículos para todo o lado. “Eu só quero um trabalho, já nem peço o Euromilhões, nem sequer um emprego. Gostava de chegar ao fim do mês com algum dinheiro, pouco ou muito... tanto faz.”

"Percebi que não podia continuar"
Já Carolina Araújo, de 23 anos, não teve o mesmo destino. Frequentava o terceiro ano da licenciatura em Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), em Vila Real, mas a crise acabou por ditar um término definitivo.

Em entrevista telefónica ao P3, Carolina, que não era bolseira, percebeu, durante uma conversa com o pai, que não podia continuar na faculdade, ainda que estivesse no último ano.

Nunca chegou a pedir ajuda, embora o pai tenha precisado de contrair empréstimos. Foi ao cinema, diz, duas ou três vezes e não comprava "bens pessoais" como roupa, por exemplo. Entre outras medidas de austeridade, almoçava sempre em casa, fumava menos e evitava tirar fotocópias: "Perguntava aos professores se não podiam pôr [a matéria] online, porque as fotocópias eram muito caras."

Actualmente, Carolina é administrativa, reside em Lisboa e emigrar não faz parte dos seus planos - pelo menos a curto prazo. Não pensa, também, voltar à faculdade, mas tem pena de não poder trabalhar na área da comunicação.

O novo regulamento das bolsas de estudo pode agravar o cenário: cerca de 30 mil pedidos foram indeferidos. Em 2012 a situação deverá agravar-se, consequência dos cortes que ultrapassam os 178 milhões de euros no Ensino Superior. Segundo o Diário Económico, em Janeiro e Fevereiro de 2011, os cancelamentos de matrículas e desistências aumentaram em 20%, valor que ultrapassa os números registados em todo o ano de 2010.