quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Afinal foi a JSD

Parece que afinal a praxe e coisas afins não persistem dos tempos de D. Dinis. Lá existiram, acabaram e foi a Juventude Social Democrata que as resolveu fazer reaparecer.

Pelo menos assim o diz a sinopse do livro Histórias da JSD: ‹‹Sabia que... (...) … o reavivar das tradições académicas em Coimbra foi uma decisão estratégica da respectiva Associação Académica, na altura liderada pela JSD?››. Reparem: estratégica.

Agora já sabemos quem inventou a coisa que muita gente acha normal. Já agora, isso foi antes ou depois do PSD inventar as propinas?

9 comentários:

serraleixo disse...

Esta é fantástica! De facto uma coisa "tradicional" e conservadora só poderia ser ressuscitada por um partido tradicionalista e conservador.
Mas de qualquer maneira não sei se lhes dou o mérito dessa proeza. Se bem que reza a história que "2 de Junho de 1979, centenas de pessoas terão aplaudido, na Baixa coimbrã, o aparecimento de estudantes de capa e batina. É o ano do regresso da Queima das Fitas e das praxes." (Público de 12/01/03)
Ou seja este episódio parece ter sido organizado por alguém com a intenção de ressuscitar esta "tradição".
Não sei quem estaria na Associação académica na altura. Mas também não me admiraria que a JSD quisesse puxar para si, de uma forma desonesta, os louros do reaparecimento de uma coisa que condiz com a sua ideologia política.

É engraçado que outro dos episódios conta que "no I Congresso da JSD foi colocado um busto de Karl Marx no palco".
Estes tipos são mesmo oportunistas, demagogos e hipócritas!

Anónimo disse...

É engraçado que outro dos episódios conta que "no I Congresso da JSD foi colocado um busto de Karl Marx no palco".
Nesse momento Marx deve-se ter revolvido onde quer que esteja. Onde já se viu um partido como o PSD que de revolucionário não tem nada, nem de defensor do "proletariado" (do século XIX, hoje provavelmente, sendo o povo, os explorados, ou qualquer outra nomenclatura que acharem adequada), nem de esquerda, nem de libertador, mas sim de conservador e neo-capitalista, neo-liberal e um destruidor do nosso ensino. A questão das propinas está correctíssima, foi Cavaco Silva (PSD) quem começou com o pagamento das mesmas em ensino superior. É certo que começou por um valor muito pequeno, quase minímo, mas até nisso podemos deduzir. Cavaco sabia que aumentando pouco a pouco as propinas, e os seus grandes sucessores( que muitas vezes foram do PS ou apoiados por ele) iriam aumentando as mesmas pouco. E afinal, o PSD, a JSD não pecam só por isto, "decisão estratégica"? Nunca tinha pensado nesta adjectivação, mas sim. A praxe é uma mera decisão estratégica de manutenção da sociedade tal e qual como ela está, apelando sempre à tradição e nunca à reflexão. Pois, claro, a reflexão incomoda, não é?
Enfim.
Ass:Mariana

Anónimo disse...

*Cavaco sabia que aumentando pouco a pouco as propinas, e os seus grandes sucessores( que muitas vezes foram do PS ou apoiados por ele) iriam aumentando as mesmas sem que se fosse notando. Esqueceu-se foi que as propinas são hoje cerca de 1000 euros por ano, ou seja, tendo em conta o valor inicial e segundo um artigo que li, já aumentaram mais de 200% desde o seu início. Coincidência?
Mariana

Anónimo disse...

só dá burros neste blog... só para que saibam que o PPD era um partido de centro esquerda, o CDS não era o que o PP é hoje... eram outros tempos...a política n era o que é hoje, o busto de Marx tinha uma lógica na altura! ou querem comentar uma coisa dos anos 70 com os dados de hoje??? Meu deus... ajudem-nos Senhor...

Youri Paiva disse...

Dizer que o PPD era um partido de centro-esquerda nos anos 70 é um pouco redutor. Se existia um busto de Karl Marx no I Congresso da JSD penso que fosse mais um fruto dos tempos, de uma tendência para agradar o eleitorado, do que outra coisa qualquer. Não esquecer de onde vem o PPD: da chamada Ala Liberal, personalizada por Sá Carneiro, que fazia parte da Assembleia Nacional do Estado Novo.

Quanto ao CDS também tem coisas curiosas. Freitas do Amaral chegou a dizer que o caminho era o socialismo, mas não significa que na prática assim fosse. O PPD e o CDS faziam discursos de circunstância adaptados à época, mas não significa que fossem socialistas.

Não estou a dizer que a JSD reinventou as praxes académicas, mas acredito que tenha tido um papel (estratégico) nisso. Mas gostava de ter o livro para perceber quando é que isso foi e em que moldes isso aconteceu.

joão josé cardoso disse...

Sim é verdade: a restauração das praxes é responsabilidade directa da JSD de Coimbra, juntamente com o resto da direita sua aliada.
Muito embora a primeira serenata na Sé Velha (que ainda foi boicotada) tenha sido feito por conta de uma DG próxima da JCP.
A restauração começou com uma denominada "Semana Académica", espécie de treino para uma Queima das Fitas "a sério".
Curiosidade é a completa ilegalidade, à luz do código da praxe, de toda esta restauração, já que apenas o Conselho das Repúblicas a podia decretar, e avalizar o Conselho de Veteranos entretanto criado. Pelo menos no meu tempo nunca o fez.

m.a.t.a. disse...

Sobre este assunto, aqui vai entrevista de Maló de Abreu, quem era na altura o presidente da AAC (retirado daqui: http://www.asbeiras.pt/2011/05/malo-de-abreu-o-meu-sonho-foi-o-de-restaurar-as-tradicoes/)

O primeiro presidente da Académica a vestir capa e batina depois do 25 de Abril confessa-se. Em 1979, Maló de Abreu “roubou” a direção da Associação Académica à esquerda. No ano a seguir presidiu à primeira Queima das Fitas após o luto académico. Estava cumprido o sonho de sempre.

Como é que surgiu ligado à retoma das tradições académicas?
Vejamos. Quando, em 1974, vim para Coimbra, com 17 anos, a ideia que tinha construído em toda a minha vida, de uma Coimbra da capa e batina, da canção e da serenata, do Orfeon, da universidade, do futebol – onde o meu irmão tinha jogado – depressa se desvaneceu. Nesses anos, a academia decidia-se pelo confronto partidário, entre duas forças que definiam também a dicotomia do próprio país. Mas tenho de dizer que só me meti na vida associativa e nos movimentos políticos de juventude com o objetivo de contribuir para restaurar todos os meus sonhos de juventude, em relação a Coimbra. Muito do que foi a minha participação, nas comissões de curso da Faculdade de Medicina e, sobretudo, depois, como presidente da Académica, teve a ver com esse sonho.

O que eram as vivências académicas, quando estudava?
Não eram. Ou eram demasiado tímidas. Por exemplo, para fazer uma serenata era preciso muito cuidado e fazer tudo muito depressa e muito escondido, caso contrário era certo o confronto físico. Quem queria usar capa e batina tinha dificuldades e era perseguido. Para além disso, o futebol era o que sabemos. Até o Orfeon tinha desaparecido e foi já no meu tempo, em colaboração com o saudoso dr. Teixeira Santos, que regressou, com o Coro dos Antigos Orfeonistas. Também as secções na Académica, ligadas às tradições, como a Secção de Fado, começaram a ser preparadas, embora tenham arrancado já depois de mim.

É eleito presidente da Académica, numa lista da JSD, em 1979, quando Mota Pinto era primeiro-ministro…
Sim. Aliás, o prof. Mota Pinto, que era muito meu amigo e é uma das minhas referências políticas, viria a ajudar-me imenso nos primeiros tempos de presidente da Académica. E também o secretário de Estado da Cultura do governo dele, David Mourão Ferreira, em quem Mota Pinto delegou as negociações connosco.

As reformas na universidade, que vinham do tempo de Sottomayor Cardia, também contribuíram para a vitória da JSD, em 1979?
É verdade que estava já em curso uma grande mudança na universidade. E também é verdade é que nós fomos assim, de peito feito, para as eleições da Académica muito por causa dessa reforma, que repôs os órgãos diretivos e científicos e a assembleia de representantes eleitos. Foram todas essas eleições, nas faculdades, que nos deram muita força e que nos permitiram ir buscar muita gente que tinha já estado nessas lutas com sucesso.

m.a.t.a. disse...

Entretanto a AD ganhou as eleições nacionais e o ministro da Educação foi um professor de Coimbra…
Sim, o prof. Victor Crespo, que também foi um homem determinante para as nossas intenções. Tal como foi, em Coimbra, o governador civil de então, que era o dr. Carlos Encarnação, e o presidente da câmara. Mas também os jornais, como diário de Coimbra, com o Lino Vinhal, e o Comércio do Porto, com o Santos Martins e o Cabral de Oliveira.

(...)
Voltando à restauração das tradições…
Todo o processo de inversão do posicionamento da academia, face às tradições, processa-se em dois anos: o primeiro, em que fui presidente da Académica, e o segundo, em que fui presidente da primeira Comissão Central da Queima das Fitas. No primeiro ano, em 1979, preparámos o relançamento de todos os atos, por exemplo, com a realização da Semana Académica – que ainda não tinha o cortejo. Depois, com o sentimento do trabalho feito e com a sucessão garantida – fui eu que escolhi o meu sucessor, o Luís Teixeira, na direção geral –, e também porque acho que um ano é mais do que suficiente, avancei para a Queima das Fitas…
O Luto Académico devia ter acabado em 1974?
Claro. Mas, a luta política e a incompreensão que uma certa esquerda tinha das tradições académicas fizeram com que se mantivesse. Ainda há pouco tempo, o ex-reitor, prof. Seabra Santos, que foi um homem do PCP e da Brigada Victor Jara, admitiu que esse foi um dos grandes erros da esquerda, em Coimbra. É claro que há eexcssos, na praxe académica, como algum tipo de trupes ou aquela coisa de querer obrigar a que se use a capa e batina, mas, de uma forma geral, a tradição é muito positiva.

Na universidade, quem apoiou a mudança?
Houve muita gente importante e algumas pessoas determinantes, e não só na universidade. Desde logo, muitos antigos estudantes, que não tinham tido queima das fitas e que fizeram muita pressão. Depois, o reitor, prof. Ferrer Correia, que era um homem de esquerda, mas que nos apoiou, embora na sua forma muito cautelosa e muito ponderada de fazer as coisas. Por isso, de resto, todas as decisões que tomámos, no sentido da retoma das tradições, foram sempre muito negociadas e difíceis. Aliás, a Semana Académica foi um pouco como que uma sondagem. Ele temia um confronto sério, na academia…

A verdade é que houve confrontos…
Sim, mas nada de grave e, hoje, à distância, até dá para nos rirmos, de um lado e do outro. A maior parte até somos, agora, amigos…

A academia continua pouco aberta à cidade?
Sim. E eu só vejo a academia como ligada fortemente à cidade e à região. Os estudantes não podem ver a queima das fitas como um momento só deles. No meu tempo, fizemos uma festa muito tradicional porque tinha de ser assim mesmo, depois de uma década de vazio. Mas já nessa altura queria fazer algo diferente e sempre pensei que isso viesse a acontecer. Infelizmente, salvo coisas muito pontuais, a queima e as tradições continuam a ser muito fechadas.

m.a.t.a. disse...

Três décadas depois, o que (não) mudou em Coimbra?
Coimbra hoje não é liderante. As pessoas e as instituições são muito paroquiais, não gostam de perder espaço e têm muita dificuldade em dialogar. Isto quando precisamos de uma estratégia comum que nos fortaleça, que nos faça olhar para o que está à nossa volta, de modo a criarmos uma região forte, entre a Lisboa cada vez mais a olhar para o mundo e o Porto cada vez mais fechado sobre si próprio. Temos de aproveitar uma coisa que temos de positivo, em Coimbra: no fundo, todos nos damos bem. O que nos une consegue com facilidade ultrapassar todas as nossas diferenças.

O que falta, então?
Coimbra só tem força se houver um pacto de cidadania, entre todos os que, transitoriamente, ocupam cargos políticos, sociais e institucionais. A cidade fica, não pode, nunca, perder as suas raízes, mas tem de ser uma cidade de futuro. E é isso que não vejo. Coimbra tem de ter uma aposta forte nos jovens, na cultura, na investigação, nas empresas de ponta… eu acredito muito no Coimbra Inovação Parque, mas precisa de ser muito mais dinamizado.

(...)
Em 1979/80 regressaram as tradições mas não se reintegrou o futebol. Porquê?
Como se sabe, nessa altura, havia o Clube Académico de Coimbra, longe da academia, embora presidido por um homem que sempre foi de diálogo e de integração, o eng. Jorge Anjinho. Agora, o que muita gente não saberá e, certamente, alguns dos que lá estão não sabem, é que fomos nós que lançámos o processo para trazer o futebol de novo à Académica. Foi connosco que aconteceu uma primeira aproximação simbólica, quando levámos a taça de 1939 à sede do CAC. Mas não foi fácil e a prova é que só cinco anos depois, em 1984, quando o Ricardo Roque era presidente da Académica, é que tudo se resolveu.

Mantém ligações com os seus colegas do tempo da JSD?
Fui vice-presidente da JSD quatro anos e mantenho ligação muito próxima com algumas pessoas que são desse tempo, como Rui Rio, o João Carlos Cunha e Silva, que é primeiro vice-presidente do governo da Madeira, ambos vice-presidentes também, o José Pedro Aguiar Branco, da comissão política, e o próprio Pedro Passos, que era vogal da comissão política.
(...)