quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Aluno fica paraplégico na sequência de praxes

Aluno de 20 anos ficou paraplégico
Estudante da Escola Superior Agrária de Coimbra "deslizou pelo declive de livre vontade"
11.12.2007 - 18h39 Maria João Lopes

O estudante de 20 anos da Escola Superior Agrária de Coimbra ferido durante as praxes, no final de Novembro, acabou por ficar paraplégico. Apesar de não mexer as pernas, existe ainda a esperança de que possa recuperar o movimento dos braços e, por isso, vai ser transferido do Hospital dos Covões em Coimbra, onde continua internado, para uma unidade de saúde especializada em reabilitação, em Cantanhede, explicou a directora clínica do Centro Hospitalar de Coimbra (CHC), Deolinda Portelinha.
“O jovem apresenta alguma mobilidade nos braços e existe a expectativa de que a possa recuperar totalmente”, afirmou ao PÚBLICO, acrescentando que, no futuro, deve ser feito “todo o investimento” na reabilitação deste jovem que, até por se encontrar completamente “consciente”, apresenta grandes hipóteses de “evolução favorável”.
O grave acidente que deixou este jovem paraplégico aconteceu no passado dia 28 de Novembro, no contexto das praxes académicas. Apesar de não ser “caloiro” e de frequentar o 3º ano de Engenharia do Ambiente, o estudante participava nas actividades da praxe, durante as quais os alunos deslizavam de um declive entre dois terrenos, com cerca de dois metros, para uma vala com lama e palha.
Muitos estudantes o fizeram, muitos se lançaram do declive, mas foi este jovem que, na sequência da queda, sofreu um traumatismo vértebro-medular, com diversas fracturas, na região cervical. “Foi um acidente que podia ter acontecido a qualquer um”, afirmou o presidente da Associação de Estudantes daquela escola, José Eugénio Lopes, que estava no local no dia do acidente.
Apesar de lamentar o sucedido, José Eugénio Lopes continua a afirmar que a associação “não tem qualquer responsabilidade na organização da actividade e no incidente” e que o jovem deslizou pelo declive de livre vontade, não tendo sido obrigado por ninguém a fazê-lo. Até porque, frisa, o estudante “não era caloiro” e naquele dia as praxes “destinavam-se unicamente aos alunos do primeiro ano”. Admite, porém, que aquela actividade – escorregar pelo declive até à vala – é comum durante as praxes e que vários estudantes a fizeram durante o dia.
O PÚBLICO tentou, por isso, contactar o conselho directivo da escola para saber se tencionam proibir a actividade, mas os professores recusaram prestar declarações. Apesar de já na altura do acidente, em Novembro, não terem prestado declarações à imprensa, os membros do conselho directivo enviaram uma nota a lamentar o “acidente ocorrido” durante as “actividades da Real Praxe”. No comunicado, garantiam que tiveram o “maior cuidado no sentido de evitar eventuais exageros, que pusessem em causa a dignidade e a saúde dos alunos submetidos às actividades praxísticas”. Mas, admitiam, “não foi possível evitar este acidente”.
Depois da queda, o jovem teve que ser operado no Hospital dos Covões - que faz parte do CHC -, e, apesar de a intervenção ter estabilizado a fractura cervical, os médicos chegaram a temer que o jovem ficasse tetraplégico, deixando de mexer os braços e as pernas. Porém, e apesar de ter perdido o movimento das pernas, o jovem “tem alguma mobilidade nos braços” e, segundo Deolinda Portela, poderá recuperá-la na totalidade com a fisioterapia que irá agora iniciar no Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro - Rovisco Pais, na Tocha (Cantanhede).
No final de Novembro, depois deste acidente e de outro muito semelhante em Elvas, que envolveu um aluno do primeiro ano, o M.A.T.A. - movimento anti-“tradição académica” – reagiu e, em comunicado enviado à imprensa, acusou o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Mariano Gago, de nada fazer para resolver a questão da praxe académica: “(...) espanta-nos que no início da sua legislatura o ministro Mariano Gago tenha manifestado total repúdio perante estas práticas, tendo chegado a caracterizá-las como fascistas, mas que rapidamente tenha adoptado uma postura de total silêncio sobre o assunto.”

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1313473&idCanal=58

2 comentários:

m.a.t.a. disse...

Aqui está o comunicado de imprensa completo que o MATA fez circular no dia 30 de Novembro, sobre este caso:

Mais uma vez “acidentes” da praxe são notícia

No passado dia 28 de Novembro, em Elvas e Coimbra assistiu-se, mais uma vez, aos efeitos da praxe, desta feita não só na vida estudantil, mas também na vida de pessoas. Tal como se passou com a Ana Sofia Damião e a Ana Santos, a vida dois jovens nunca mais será a mesma depois de sujeitos às "brincadeiras" da praxe.
Em Coimbra, no contexto da "Real Praxe", Luís Vaz, 20 anos, estudante de Engenharia do Ambiente na Escola Superior Agrária de Coimbra, ter-se-á lançado de um escorrega, com um desnível de 2 metros, para um "lago" de lama e palha. A queda resultou em lesões vertebro-medulares a nível da coluna cervical, sendo que neste momento o estudante se depara com a possibilidade de uma tetraplegia permanente.
No mesmo dia, em Elvas, também no contexto das actividades de recepção ao caloiro, João Pedro Farinha, estudante do 1º ano na Escola Superior Agrária de Elvas, após o "tradicional" rally tascas, terá sofrido uma queda de uma altura de 20 metros, perante o olhar atónito dos seus colegas.
O que é apontado como uma brincadeira, moderada e desejável, é-o apenas no discurso, porque as suas práticas traduzem um total desrespeito pelas liberdades e direitos das pessoas que nelas participam. Na nossa opinião, tal apenas vem demonstrar que as estruturas que a praxe tem vindo a organizar numa tentativa de legitimização, institucionalização e moderação (que surgiram como resposta às pressões de uma opinião pública cada vez menos disposta e menos tolerante perante as "brincadeirinhas" da praxe), não são mais que uma operação cosmética a algo que na sua essência não é mascarável: a subjugação dos estudantes pelos estudantes.
É imperativo que a comunidade escolar (estudantes, professores e funcionários), o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e a sociedade reflictam sobre estes fenómenos. Aliás, espanta-nos que no início da sua legislatura o ministro Mariano Gago tenha manifestado total repúdio perante estas práticas, tendo chegado a caracterizá-las como fascistas, mas que rapidamente tenha adoptado uma postura de total silêncio sobre o assunto.
Chamar brincadeira e integração a algo que permite a prática de actos bárbaros e transforma estudantes, supostamente iguais entre si, em executantes de práticas selvagens e arbitrárias obriga a que a sociedade portuguesa, que se diz livre e democrática, reflicta urgentemente e de forma muito séria sobre as praxes.

Filipa disse...

Em primeiro lugar, o estudante que ficou paraplégico era um aluno de 3º ano e não estava a ser praxado, o acidente aconteceu na altura das praxes e trata-se mais de uma infeliz coincidência do que outra coisa. O segundo caso acima descrito é sobre os denominados rally tascas, esses sim, bastante perigosos e completamente bárbaros. Os rally tascas, embora organizados elas comições de praxe e decorrerem na altura das mesmas, é completamente opcional até para quem adere às praxes e todos os alunos que querem participar são avisados do perigo de todo o "jogo" (no qual várias equipas são pontuadas consoante o quanto bebem e como o fazem). Mesmo assim, não concordo de todo com um jogo cujo objectivo é ver e pontuar os alunos que entram em coma alcoólico.
Isto sim, é uma activiade perigosa e que põe em risco a saude e mesmo a vida tanto dos que participão como a de cidadãos que estejam a passar (o rapaz que caiu da muralha tambem poderia ter sido atropelado ou simplesmente tropeçado no passeio e bater com a cabeça no chão).
Um rally tascas não é de todo uma brincadeira, muito menos moderada ou desejavel.

Mesmo não concordando com o rally tascas, SOU A FAVOR DAS PRAXES e adorei participar nas mesmas, mais como caloira do que como praxante (é muito mais divertido).