Na passada semana, após declarações retoricamente musculadas do ministro Mariano Gago (e com alguma promessa de acção mas “apenas” em caso de “abusos”), o presidente do Instituto Superior Técnico (IST) decidiu levar a ideia ao nível seguinte e proibir as praxes nas instalações do IST.
Seguramente não por ser feroz opositor da praxe, mas certamente por lhe cheirar a sarilhos em potência. Como ele com certeza sabe, e sabe bem, as praxes são um caldeirão em ebulição, palco das maiores irracionalidades e arbitrariedades que estudantes cometem a estudantes. O único controlo que há na praxe, e como muitas vezes repetem os praxistas, é o “bom-senso”. Ora, basta observar apenas 5 minutos de praxe para perceber que quando se mistura álcool, pressões de grupo, comportamentos de massas, sede de vingança, e ainda para mais quando tudo parece ser legitimado pelas pessoas e pelo meio, o apregoado “bom-senso” se perde pelo caminho e dá lugar aos comportamentos condenáveis e patetas que conhecemos.
Proibindo as praxes, em vez de as discutir e colocar em causa, o presidente do IST trilha o caminho mais fácil. Escolheu a melhor forma de fingir fazer alguma coisa, ao mesmo tempo que não altera nada: proibe-se aqui, mas faz-se já ali ao lado! E desta forma, em caso de problemas, pode sempre argumentar que não é da sua responsabilidade porque não autorizou as práticas. Tapa o sol com a peneira e sacode a chuva do capote!
Podendo à primeira vista parecer contraditório, o M.A.T.A. sempre manifestou a sua oposição tanto às praxes quanto às tentativas sobre as legislar ou proibir. Se por um lado pensamos que regular as praxes por decreto na tentativa de impedir os excessos é impossível (dada a sua natureza sempre violenta e sempre arbitrária), por outro sempre nos manifestamos contra a sua proibição por acreditarmos que recusar a praxe deve partir de uma escolha individual e colectiva e tendo por base uma discussão alargada na escola e na sociedade. Para nós a questão nunca foi impedir as pessoas de participarem na praxe, mas sim de criar toda uma vivência e ambiente que façam com que as pessoas queiram elas próprias recusar participar na praxe e a condenem. E é esse desafio, difícil e trabalhoso, que o presidente do IST se absteve de abraçar. “Daí lavo as minhas mãos” diz-nos ele.
P.S. - No final deste texto, é já sabido que a Faculdade de Ciências de Lisboa (FCUL) decidiu trilhar o mesmo caminho, tomando a mesma medida. Tal como no IST, um pequeno passeio pelas instalações permite-nos perceber o quão “para inglês ver” esta medida se está a revelar. Outras medidas e outras respostas são necessárias. Concretizando e propondo: assumir que as praxes não são manifestações bem-vindas na escola, disponibilizando informação aos alunos aquando da sua inscrição; promover e apoiar acções de integração alternativas como exposições, convívios, actividades culturais, passeios por Lisboa, estruturas de apoio aos estudantes recém-chegados, ... ; organizar o confronto de ideias com a praxe (melhor forma para a desacreditar) através de debates e sessões de esclarecimento; dar seguimento jurídico e apoio psicossocial a todas as pessoas que se queixem e sejam vítimas da praxe. Acima de tudo importa perceber a cada momento quais são as necessidades e as vontades dos alunos da faculdade e da comunidade escolar e com tod@s construir essas respostas.
Vitor Ferreira
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Praxes: da proibição ao seu desrespeito
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sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Diz-se que a festa é feita para "receber", mas é organizada pela Super Bock
Estudantes em “flagrante delitro” na semana em que as praxes voltaram à agenda
Público,26-09-08
A festa dedicada aos caloiros no arranque do ano universitário não está directamente ligada às praxes. Não as promove, mas também não as proíbe. Por isso, é inevitável ver chegar grupos de caloiros acompanhados pelos novos colegas orgulhosamente trajados a rigor. Gritam, fazem-se ouvir e cantam músicas, de gosto mais ou menos duvidoso.
Esta semana, o tema das praxes voltou a ser falado depois da recomendação enviada às universidades pelo ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e da proibição de fazer praxes decretada pelo presidente do Instituto Superior Técnico. No meio do turbilhão de capas pretas há uns mais atentos do que outros à polémica, mas, no final, o discurso é sempre o mesmo: “Os caloiros estão aqui porque querem, nós não obrigamos ninguém a ser praxado. Damos-lhes uma boa oportunidade para fazerem coisas que nunca pensaram, como gritar e fazer palhaçadas no meio da rua”, defende Sofia que frequenta o 2º ano de Medicina da Universidade de Lisboa. “Desenvolvem amizades e ligações fortes que duram durante o curso porque vivem momentos únicos e fortes de união”, justifica ainda a estudante.
Há mais coisas curiosas na notícia: para quem não saiba, ainda há quem acredite que o "Código da Praxe" é mesmo um "documento" regulador de alguma coisa. Será que regula, por exemplo, que uma pessoa que acabou de entrar na faculdade não seja alvo de insultos piores que "verme" ou "besta"? Ou regula que os estudantes da mesma Universidade têm estatutos diferentes, mas não mais diferentes do que o que está escrito?
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quinta-feira, 25 de setembro de 2008
O que se vai vendo nas praxes
Este é o primeiro de uma série de relatos (para a qual esperamos todas as contribuições que por aí houver) do que se vai vendo nas praxes.
Se há quem insista a dizer que é divertido, basta estar com um pouco de atenção e facilmente se percebe que o tédio e a desilusão (para quem ainda estava iludido) é o que mais se vê por aí.
Ponnette escreveu: «As praxes de hoje ao meu lado, aqui na janela, consistem no seguinte: há um grupo de praxados há mais de uma hora e meia de pé, com as mãos atrás das costas, a olhar para o chão. Os veteranos estão um pouco ao lado a beber cervejas e jogar futebol e nem sequer olham para os "caloiros". (...) Apetece-me gritar-lhes: "Vão-se embora! Está um dia tão lindo! O que é que estão aí a fazer?!"Também era bom ter aqui uma câmara. Para filmar o nada. Quer dizer, um nada cheio de conteúdo, de ideologia e de horror.»
Mais tarde Ponnette enviou novo mail onde dizia: «Ah, e agora já deixou de ser há "mais de uma hora e meia" para "mais de duas horas". Eles ainda ali estão. Sem fazer nada! É mesmo verdade. Em pé. Os "veteranos" estão a jogar à bola e à apanhada em frente a eles. É isto que se passa. Os que estão de plantão já dobram as pernas, agarram o pescoço, estão cheios de dores no corpo. E o mais incrível disto tudo... é que NÃO SE VÃO EMBORA!!! E uma coisa garanto: se eu lhes fosse perguntar, era IMPOSSÍVEL eles dizerem que a praxe não tinha sido uma seca. Eles estão há duas horas de pé, sem fazerem nada e com um ar bué enfadado. Não podem falar uns com os outros sequer, mãos atrás das costas, coçam-se a medo.»
Isto passa-se na Cidade Universitária em Lisboa.
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terça-feira, 23 de setembro de 2008
Agora a Cidade Universitária está mais bonita!
Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa
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sábado, 20 de setembro de 2008
Praxes ou Pré-xes?
Acabou ontem a semana de inscrições nas faculdades, por entre vozes que diziam "Estou um bocado nervosa" ou "É uma mudança na minha vida" .
Depois de lermos em todos os jornais o "aviso" do ministro Mariano Gago, a semana acabou com o presidente do Instituto Superior Técnico (IST) a comunicar que proíbe as praxes na "sua" instituição.
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terça-feira, 16 de setembro de 2008
As cedências à praxe
Marco Pinto Barreiros, especialista em psicologia social e das organizações, realça que este género de comportamentos surge «no cumprimento de uma das necessidades mais básicas do ser humano que é a de se sentir parte de um grupo».
«Os limites de cada um são diferentes, mas todos estamos dispostos a ceder alguma coisa e por isso é que estamos a ver jovens que até descreveríamos como tendo uma personalidade forte a submeterem-se a determinados comportamentos que podem ser descritos como humilhantes, com o simples propósito de virem a fazer parte de um grupo», explicou à Agência Lusa.
Pinto Barreiros sublinhou ainda que «as praxes são levadas a cabo por um grupo de estudantes e todos sabemos que as pessoas ultrapassam um bocadinho os seus limites, na medida daquilo que normalmente são capazes de fazer, quando estão em grupo».
Na óptica da «vítima», muitas vezes o que sucede também é que «as pessoas acabam por perpetrar comportamentos que não fazem parte da sua paleta habitual de comportamentos e isso acaba por gerar posteriormente uma situação de revolta».
«Tentam voltar para trás e geralmente é tarde, já há um sentimento de turba criado naqueles que estão a executar a praxe e que normalmente não deixam ou deixam com muita relutância que a praxe pare ou seja interrompida», sublinhou.
Para o especialista o importante é que quem vai submeter-se à praxe saiba exactamente o que lhe vai acontecer, de forma a pesar os prós e os contras, para escolher livremente submeter-se ou não, porque depois de iniciado o processo é mais difícil «controlar a massa humana constituída».
O especialista em Direito Constitucional e professor universitário Jorge Miranda considera que «a praxe em si, entendida como uma forma de integração do aluno na escola, não é mau».
«O problema é quando acontecem, como têm acontecido nos últimos anos, casos em que as praxes se tornam violentas, contrárias à dignidade da vida humana, usam processos que são contrários à vontade das pessoas, até sob formas pornográficas absolutamente inadmissíveis, em que grupos de estudantes põem em causa direitos liberdades e garantias de outros estudantes», destacou.
O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior anunciou no passado dia 10 que será dado conhecimento ao Ministério Público de qualquer «prática de ilícito» nas praxes e serão utilizados os meios necessários para responsabilizar civil e criminalmente quem não evitar os danos ocorridos, conforme escreveu numa carta enviada a todas as instituições de ensino superior públicas e privadas.
Jorge Miranda destaca que qualquer aluno tem desde logo o direito de não querer estar sujeito a qualquer tipo de praxe e o direito de não estar sujeito a praxes com violência, abusos sexuais e outras tentativas de degradação da pessoa.
«Em primeiro lugar ninguém pode ser obrigado e no caso de a pessoa aceitar, a praxe tem de se desenvolver dentro dos limites aceites pela própria pessoa», acrescentou, salientando que «não pode servir para justificar verdadeiros crimes que estudantes comentem sobre outros estudantes».
Para Ana Feijão, do Movimento Anti-Tradições Académicas (MATA), tem havido desde 2003 mais atenção para os abusos na praxe, devido a casos ocorridos no Instituto Piaget de Macedo de Cavaleiros e em Santarém, mas situações em que estudantes ultrapassam os limites continuam a existir.
«Tem havido uma linguagem mais moderada, mesmo dos praxistas, mas os casos de exagero continuam a existir porque são baseados num sistema em que há uma hierarquização e não uma verdadeira integração» do novo estudante, destaca esta responsável do movimento MATA, salientando que a praxe, em muitos casos, «nem sequer é uma verdadeira tradição porque só surgiu nos anos oitenta».
«Querem fazer parte do estereótipo do estudante, vestir aquele fato, sair às quintas-feiras para o Bairro Alto ou equivalente noutras cidades e pensam que é assim, porque a própria escola não lhes dá outras alternativas de integração», disse, salientando medidas adoptadas pelo Instituto Politécnico de Leiria, entre as quais a criação, em 2003, de um Provedor do Caloiro, para apoiar os novos estudantes, e um regulamento com normas para os actos de praxe no Campus.
«A simulação de actos sexuais, por exemplo, muita gente não acha nada de mal porque está vulgarizado nos meios académicos», disse.
Filipe Santos é responsável na Academia de Lisboa por uma equipa que está a elaborar o primeiro Código de Praxe a englobar todas as tradições das faculdades das «cinquenta e tal» instituições de ensino superior da cidade.
«Esse trabalho está a ser feito e está a ser difícil, muito complicado mesmo. Cada faculdade terá a sua tradição e não quer de alguma forma perder a cultura que tem», disse.
Destacando que não existe em Lisboa uma única comissão de praxe de forma que cada faculdade faz o seu trabalho individual, refere que a comissão está «a trabalhar para que todas as situações mais anómalas sejam prontamente resolvidas» porque tem de «existir um elemento mediador para todas as questões que possam surgir».
«Todo o novo código está pensado para que todos os abusos e situações mais anómalas sejam punidas visto que a praxe não passa por uma vingança, tem um espírito integrante e é para isso que deve existir. Doutra forma não faz sentido», considerou, admitindo que este documento possa estar nas faculdades «não este, mas durante o próximo ano».
Rosário Salvado, Lusa
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terça-feira, setembro 16, 2008
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sábado, 13 de setembro de 2008
O que é a praxe? Resposta de Mariano Gago
"A degradação física e psicológica dos mais novos como rito de iniciação é uma afronta aos valores da própria educação e à razão de ser das instituições de ensino superior e deve pois ser eficazmente combatida por todos, estudantes, professores e, muito especialmente, pelos próprios responsáveis das instituições"
(carta enviada pelo ministro Mariano Gago, no dia 10 de Setembro, a todas as instituições de ensino superior públicas e privadas)
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domingo, 17 de agosto de 2008
O futuro aí à porta (como sempre, aliás)...
Fizemos uma maratona. Mas a nossa maratona durou um pouco mais do que as dos atletas das maratonas de 42km.
Treze horas depois de começarmos, aparece a primeira curta-documentário do M.A.T.A. (ainda a caminho dos retoques finais).
Enquanto ela não entra em circulação, fiquem com esta, que foi apresentada na festa "Não resistir só e não só resistir", em 2006.
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domingo, agosto 17, 2008
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segunda-feira, 16 de junho de 2008
Próxima reunião do MATA.
REUNIÃO: a próxima é na 4ª feira, dia 18, às 17h30, no Stadium (atrás da Cantina Velha, contornando esta pelo lado esquerdo).
Continuaremos a discutir os mesmos temas da última reunião.
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quinta-feira, 12 de junho de 2008
sexta-feira, 6 de junho de 2008
Próxima reunião do MATA
na próxima 4f, dia 11 de Junho
pontualmente às 17h30*
na Cantina Velha (Cidade Universitária)
* tem de ser mesmo pontualmente, porque a partir das 18h o senhor da porta já não deixa entrar ninguém sem cartão!
A Ordem de Trabalhos é a seguinte:
1 - discutir o panfleto do secundário
2 - aprofundar as ideias para o início do ano, incluindo fazedura do documentário
3 - ...
4 - ...
(Se levarem 2 euros, podemos jantar a seguir.)
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sexta-feira, junho 06, 2008
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terça-feira, 3 de junho de 2008
É já amanhã...!
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sexta-feira, 30 de maio de 2008
Sobre a violência e a necessidade de transformar a Escola
Mas choque para quem? Só para quem não está nem nunca esteve na escola! Só para quem pensa na escola como um micro-cosmos ou uma realidade social paralela e alheada de tudo o resto. Só para quem não quer ver o falhanço do modelo meritocrático, anti-democrático e profundamente exclusivo em que transformaram a escola pública. Penso que a única coisa que nos deveria chocar foi o aproveitamento mediático e o cavalgamento político da sempre “querida e bem-vinda” insegurança, ao melhor estilo da direita e da direitinha.
Desconstruindo o senso comum e as politiquices, analisando as implicações:
- todos os estudos apontam, baseados nos dados disponíveis sobre a violência escolar, que de facto o número de denúncias tem aumentado mas devido ao número de queixas efectivas (a discussão pública sobre o tema aumenta a consciencialização) e muito improvavelmente devido a um aumento efectivo de práticas violentas - cai por terra, portanto, o carácter alegadamente recente e de “onda” de violência veiculado
- mistura de atitudes completamente diferentes tão diferentes como a “não aceitação” de regras, a postura crítica, a indisciplina, o bullying e a violência - dando a ilusão que é tudo o mesmo e não analisando as motivações e as causas, assistimos hoje a um processo de “delinquentização” de tudo o que não se enquadra na norma e na conformidade
- naturalização (e generalização) dos fenómenos violentos tendo como perspectiva o contexto social, étnico, religioso e sexual da escola e dos seus alunos, ou seja, uma espécie de “só há violência porque são pobres, porque são pretos, porque são ciganos, porque são de más famílias, porque são mal educados, porque são rapazes, ou porque são maus alunos” – os estudos indicam, pelo contrário, que a violência é transversal às escolas com alunos de todos os estratos sociais (escolas onde predominam alunos de classe alta também têm estes problemas), etnias, religiões, sexo e percursos escolares
- ignora que democratização do acesso ao ensino não se traduziu numa democratização do sucesso escolar, do processo de aprendizagem e das sociabilizações dentro da escola - ocultando por isso a falência do actual modelo pedagógico, social e organizacional da escola
Ao contrário do que vemos, lemos e ouvimos vindo de todos os “pseudo-qualquer coisa” peritos em desinformação, não se pode negar o carácter multidimensional e variável da violência escolar e dos seus contextos.
Mas sem dúvida que o mais preocupante são as respostas que a sociedade, iludidada por este “senso-comum politicamente construído” e que baseia o seu apoio nos medos mais básicos e irracionais do ser-humano, se propõe na sua maioria a dar: a abordagem policial repressiva.
Em primeiro lugar importa dizer que esta abordagem denota desde logo a rejeição de toda a teoria e análise social, rejeita a pedagogia e rejeita a escola enquanto possível meio de resolução ou atenuação dos problemas sociais que a maior parte das vezes ela própria gera. Ela parte do princípio que a violência na escola é algo de externo a esta, algo que a “infecta”, e que atribui a minorias ou a maus alunos. É a resposta típica e generalizada do “sistema” quando não consegue dar resposta aos problemas que gera: reprimir, afastar, negligenciar. “Separar o trigo do joio”. E entretanto os vigilantes, os cartões de acesso, os polícias e as câmaras entram pela escola e são apresentados como “A solução” (o programa Escola Segura é disso um bom exemplo). Nada de novo: é a casa fortificada, a escola prisão, a Europa fortaleza. E no entretanto, temos toda uma geração a sociabilizar e a aprender a “cidadania” sob a batuta da vigilância e do policiamento…
A resposta e a proposta que temos que fazer é outra, diametralmente oposta, que vá ao fundo das questões. Por oposição ao policiamento temos que responder com um projecto de pedagogia (num sentido de interacção e de aprendizagem, não de paternalismo). É transformar a escola num espaço que promova não só a democratização do acesso mas sim a democratização do “sucesso” escolar, social e pessoal. Esse sucesso tem de ter muitas formas e muito diferentes, e consequentemente muitas formas de ser avaliado, opondo-se ao método meritocrático gerador de exclusões. Isso envolve a transformação radical da escola:
- integração dos estudantes na gestão das instituições da escola e no planeamento dos seus currículos
- novas e diferentes propostas e oportunidades formativas
- alteração da relação de autoridade baseada na dualidade do professor enquanto poder e mestre e o aluno enquanto subjugado e aprendiz
- boas condições materiais e físicas dos espaços e equipamentos
- professores motivados, com um contrato estável e com formação continuada
- recreios e os tempos livres como espaço de sociabilização e de aprendizagem da amizade, do amor, da cidadania, do livre pensamento, da crítica, da intervenção
- uma escola aberta à comunidade, que nela se quer inserir e intervir
Sim, de facto a sociedade está no seu todo mais violenta. Porque as explorações, as opressões e as contradições a isso conduzem. Mas negar a escola como ela própria co-geradora dos conflitos e problemas que nela se vivem, é aceitar que tudo está bem lá dentro. É aceitar que exclua quem não se adequa. É aceitar a escola enquanto selecção e reprodução. É aceitar a escola meritocrática, exclusiva, formatadora e autoritária. É abster-se de a querer transformar. Enfim, é aceitar tudo como está.
Então e a praxe? Embora com iconografias e simbologias diferentes, ela por aí anda no secundário e no superior. E onde se enquadra aqui todo o discurso sobre a violência? Onde estão os mesmos que tão violentamente atacam os que acusam de praticar a violência? Porque violenta para o corpo, para a mente, para as crenças, para os direitos e para as diferenças todos sabemos que a praxe é, embora nem todos o queiramos admitir.
Aqui se revela uma contradição fundamental. Aqueles que exigem a “tolerância zero” perante fenómenos extremos de manifestação de relações, tensões e injustiças sociais, como é o caso da violência nas escolas, são exactamente os mesmos que apologizam a praxe (e a violência que irremediavelmente a acompanha) enquanto processo uniformizador, integrante, estabilizador e conformista.
Não se trata, portanto, da violência em si mesma, mas sim do que ela significa e do que representa. Se representar a não aceitação, a manifestação, a expressão, o inconformismo, a explosão, então deve ser violentamente (mais uma vez) reprimida e afastada. Se for um Carnaval divertido, recambulesco, marialva, pimba, paternalista, sexista, racista, homofóbico, anti-democrático, hierárquico, e se ainda por cima for um negócio que rende muito dinheirinho aos compadrios, ora, como recusar fórmula tão apetecível? A violência é um excesso, indesejável mas que por vezes acontece, dizem eles… Sem o dizerem, dizem-no: a praxe é violência!
Cerra-se as fileiras, ordena-se que se acabe com os “excessos”: acaba-se com a violência visível e intensifica-se a violência silenciosa, modera-se o discurso e mantém-se as práticas.
Resumindo: é um projecto político, social e cultural, conservador e classista, para a escola.
Como transformar este projecto de escola que exclui e violenta, como combater a praxe normativa e integrativa, como o fazer tendo sempre em vista a transformação da escola, do meio e da sociedade, rompendo com os consensos, colectivamente, abertamente, propositivamente, provocativamente, inconformadamente, divertidamente e apelativamente? Acho que a resposta é só uma: com as mãos…e a mente! Reflexão e acção!
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domingo, 25 de maio de 2008
reunião do M.A.T.A.
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sexta-feira, 23 de maio de 2008
Depois disto... há mais para mudar
Julgamento das praxes: condenação histórica
Terminou hoje o julgamento que pôs em causa as práticas de praxes académicas decorridas na Escola Superior Agrária de Santarém – em Outubro de 2002, quando a Ana Santos foi obrigada a ter o seu corpo coberto com excrementos de animais – com a condenação dos sete arguidos.
Seis arguidos, acusados do crime de ofensa à integridade física qualificada, e o sétimo, do crime de coacção, foram condenados a pagar multas entre os 640€ e os 1600€.
Este foi um julgamento em que se usou recorrentemente os conceitos de "anti-praxe", "código de praxe" e "acordo", definindo a praxe como um acordo entre praxados e praxistas.
Na sua exposição, o juiz declara que não é obrigatório alguém declarar-se “anti-praxe” para não ser sujeito a tais práticas; o código que a regula não tem qualquer legitimidade [inclusivamente incorpora elementos que se opõem à constituição]; e que os actos inseridos no contexto de praxe não se baseiam em nenhum acordo entre quem manda [”veteranos”] e quem obedece [“caloiros”].
Pela primeira vez, a instituição de justiça competente, e não um poder inventado de uma hierarquia fantasiosa, julga e condena acções em contexto de praxes académicas, lembrando ou mostrando que ninguém é inimputável à sombra do traje académico e que um crime é um crime, mesmo “sendo da praxe”.
A coragem da Ana, que apesar de todos os obstáculos nunca desistiu, levou a este ponto de viragem: a partir de hoje as “leis da praxe” já não se podem considerar paralelas às leis do país. E o futuro, a partir de hoje, pode pensar noutras mudanças que tornem livres as relações entre estudantes.
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terça-feira, 20 de maio de 2008
Mais um caso de violência onde o palco é a "tradicional" Queimas das Fitas
Uma aluna de primeiro ano – dita "caloira" na hierarquia das "praxes" – da Universidade do Minho foi violada por um colega – "cardeal", na mesma hierarquia – durante a festa da "Queima das fitas".
É mais um caso de violência em contexto de "tradição académica". Não o sendo, as notícias não chamariam "caloira" à vítima e "cardeal" ao violador, nem procurariam comentários da direcção da Escola ou da associação académica. Não o sendo, a própria aluna não diria "nunca desconfiei dele até porque ele é cardeal do curso e tem por dever proteger os caloiros", nem diria que "ainda pensava que se tratava de mais uma praxe".
Este caso é diferente de outros do passado, porque a brutalidade de uma violação sexual choca e é condenável por qualquer pessoa, independentemente do contexto do acto. Também difere por não se ter sucedido em grupo: foi uma decisão individual do "cardeal" (e não das "comissões de praxes") e ocorreu fora do alcance das outras pessoas (e não em situação de "arrebanhamento" onde existem sempre pressões de grupo).
No entanto, tem semelhanças em vários pontos com outros casos tornados públicos, por exemplo, "Ana Santos, de Santarém", "Ana Sofia Damião, de Macedo de Cavaleiros" ou "Diogo Macedo, de Famalicão"; e é por isto que não se pode desligar da relação que tem com a "tradição académica":
- a confiança depositada num colega "superior" acaba por ser defraudada, deixando clara a arbitrariedade das hierarquias entre estudantes (absurdas e inventadas pela "tradição académica", mas supostamente "protectoras");
- a relutância em denunciar o sucedido (denúncia esta que, note-se, não foi feita em Braga) esconde o medo de voltar à escola onde o "cardeal" continuará a "proteger os seus caloiros", e esconde também o receio de dificilmente voltar a frequentar o curso e a escola, aos quais tem todo o direito;
- a reacção da direcção da Escola anuncia que “só abrirá um inquérito quando houver uma queixa formal da vítima”, desresponsabilizando-se uma vez mais. Não porque tenha responsabilidade no sucedido, mas porque ao escolher o caminho da ignorância faz com que uma aluna deixe de ter condições de frequentar a instituição de ensino e possa perder, pelo menos, um ano da sua vida;
- os convívios escolhidos usam o álcool como argumento que justifica a violência (sendo que nenhum tipo de violência pode ser legitimada pelo abuso de álcool), quando, de facto, a origem dessa violência está no facto de esses convívios se basearem nas "tradicionais" hierarquias que conferem diferentes poderes às pessoas que assim "convivem";
- fica mais uma vez provado que na escola e nas suas "tradições", tal como na sociedade, as mulheres são encaradas como "o elo mais fraco", sendo por isso as principais vítimas das discriminações e abusos.
Recusamos o policiamento dos convívios entre estudantes como resposta. Pelo contrário, pensamos que a gravidade deste caso obriga a várias reflexões: por parte de quem acredita que a hierarquia é uma solução legítima para o convívio; por parte da direcção da Escola que tem a obrigação de garantir que esta aluna pode continuar a estudar; por parte da direcção da Escola, do Ministério do Ensino Superior e do Ministério Público, que têm a responsabilidade de não deixar este caso cair no esquecimento.
Não se pode admitir que uma pessoa tenha medo de denunciar uma agressão, nem tão pouco que essa denúncia traga ainda mais obstáculos à sua vida. Este medo e estes obstáculos são transversais a todos os casos conhecidos (e desconhecidos) e terão que acabar um dia.
E esse dia deve ser hoje.
(Comunicado de imprensa. 16 Maio 2008)
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terça-feira, maio 20, 2008
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sexta-feira, 16 de maio de 2008
Ela, a "caloira"; ele, o "cardeal".
As notícias:
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sexta-feira, maio 16, 2008
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terça-feira, 13 de maio de 2008
A invasão...
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terça-feira, maio 13, 2008
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quarta-feira, 23 de abril de 2008
A impunidade continua...
Instituto Piaget de Macedo de Cavaleiros absolvido no processo das praxes promovido por uma aluna
O Tribunal de Macedo de Cavaleiros ilibou de qualquer responsabilidade o Instituto Piaget, num processo movido por uma ex-aluna do estabelecimento de ensino, que exigia uma indemnização de 67 mil euros por danos morais e materiais sofridos depois de ter sido "vítima de praxes violentas" que, segundo a queixosa, a levaram a abandonar o instituto. O gabinete de Comunicação e Imagem do Piaget explicou, em comunicado, que a sentença proferida pelo tribunal reconhece que a instituição de ensino "não foi responsável pelos factos ocorridos em Setembro de 2002, durante a praxe da Escola Superior de Saúde", onde Ana Damião ingressou como aluna da licenciatura em Fisioterapia. A juíza considerou que "a aluna consentiu nas praxes a que foi sujeita", refere o comunicado, e que posteriormente "exagerou nas denúncias que formulou contra a escola". As praxes em causa, de acordo com o tribunal, "não ofenderam a moral pública e não chocaram com a consciência ou sentimento ético-jurídico da comunidade, não se podendo formular um juízo de censura ou reprovação dirigido ao Instituto Piaget". A advogada da queixosa, Elisa Santos, confirmou a sentença. "Já comuniquei a decisão à minha cliente e espero que ela me diga se vamos recorrer ou não para o Tribunal da Relação", acrescentou. Este desfecho surpreendeu a causídica que, em Julho de 2007, se mostrava bastante confiante, depois de conhecer a matéria dada como provada pelo tribunal. Por exemplo: "Ficou provado que a direcção Piaget tinha conhecimento e aceitava com naturalidade a existência e o conteúdo das praxes no instituto; conheceu os factos ocorridos com a aluna; que a Ana ficou revoltada, triste e humilhada, na sequência do ocorrido; a degradação do estado de saúde da Ana, consequência de todo o processo, levou-a a abandonar a faculdade."
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feija
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quarta-feira, abril 23, 2008
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Etiquetas: Notícias
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Que respondes tu?
As palavras "autoridade", "família", "punição" (palavras muito usadas durante o Estado Novo), que têm entrado em quase todos os discursos (e que transformam as "pessoas mais novas" como pessoas inferiores) são tão antigas e obsoletas quanto o sistema de ensino.
Será normal que a Escola continue a ser apenas um local de reprodução e não de renovação de ideias? Esperamos nós que a Escola "ponha as crianças na linha" em vez de as ajudar a encontrar autonomia e autodeterminação? Queremos que saiam da Escola bons profissionais (precários, claro, que os tempos não estão para melhor) em vez de pessoas com ideias, capacidades e vontades de reinventar a sociedade?
Será que queremos impor desde cedo a estratificação da hierarquia que "nos manda obedecer" (aos pais, aos professores, aos patrões, aos polícias)?
Esperamos nós que a Escola seja um local de medo e retracção, vigiado por polícias e colegas, em vez de um espaço de liberdade onde as diferenças se respeitam?
Queremos que se ache normal que os professores roubem os telemóveis dos alunos, em vez de querermos que a Escola se reinvente e se adapte ao presente?
Eu respondo a tudo que não.
Publicada por
feija
em
sexta-feira, abril 04, 2008
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