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terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

«O que eu penso das praxes», por Antonino Solmer

Eis que nos chega a décima primeira contribuição para a nossa rúbrica «O que eu penso das praxes». A lista completa pode ser vista na coluna lateral direita.

Antonino Solmer (n. 1950) é actor e encenador. Formou-se na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa e estagiou na Polónia. Trabalhou, entre outros, com os encenadores Ricardo Pais, Jorge Listopad, Fernanda Lapa e Osório Mateus. Encenou textos de Handke, Schnitzler, Rozewicz, Herberto Hélder, Brian Friel, Gabriela Llansol, Yourcenar, Y. Ritos, José Triana, Hauptman, Lorca, Ibsen, Strindberg e Martin Crimp. Fundou e dirigiu a companhia ContraRegra. Foi professor de teatro no Conservatório Nacional e integrou o ACT - Escola de Actores. Foi director do Teatro da Trindade e subdirector do Teatro Nacional D. Maria II. No cinema, trabalhou, entre outros, com João Mário Grilo e Fernando Matos Silva. Na televisão com António Escudeiro, Ferrão Katzenstein e Jaime Campos e integrou o elenco da série Duarte & Companhia e da telenovela Terra-Mãe. Dirigiu espectáculos musicais para Sérgio Godinho e Emilio Cao. Ver mais aqui.



O QUE EU PENSO DAS PRAXES


Circularidade duma afirmação mais ou menos irracional como numa bebedeira.
Um editor amigo dizia-me: Porque é que continuamos a publicar mais, sempre mais, e a vendermos menos, cada vez menos? Porque estás a cavalo numa bicicleta. Se parares de pedalar, cais. Tens a sensação de que perdes, que não acompanhas o outro.

“Como no poço da morte, como no poço da morte…”

Há uma força centrífuga que te torna herói ou te distingue.



As capas sempre tiveram propósitos. Ao longo da história.
Foram adoptadas as negras. Curiosamente como em Espanha, como negros são as borlas e chapéus académicos do Brasil.


Ritos de iniciação. A “caloiros”.
Quem sabe já o que são esses ritos?


Nos anos sessenta, paquete de uma companhia de seguros, mandaram-me ir do 3º andar ao r/c buscar o “livro dos mortos” dos anos trinta. Disseram-me que eram aqueles tantos calhamaços encadernados e o mais que houvesse…
O meu pai recebeu um aprendiz que dizia “frosfaz” em vez de esferográfica; e “frifo” em vez de frigorífico. Fizeram-lhe uma “amostra”, consistindo isso numa exposição dos órgãos genitais onde todos podiam cuspir. A este, por último, puseram-lhe massa consistente a cobrir os pêlos dos colhões. O jovem chegou a casa e teve se ir lavar ao ar livre, fora da vista da família que vivia numa barraca.


Qualquer feiticeiro ancestral, dum qualquer povo recôndito e “subdesenvolvido”
ficaria incrédulo com tal rito e tal iniciação.
Qualquer autor de Harry Potter transcreverá ritos galhofeiros, pelo meio da trama,
duma forma que acrescenta uma finalidade positiva.



O rapaz do “frofaz” e do “frifo” chegou no outro dia para ganhar o seu salário.
Contou com melancolia o que teve de passar para lavar os colhões na água fria. E estava sorridente.
E eu percebi que a sua solidão continha o medo da afirmação que o desprenderia do “costume”.
Que o despenderia da “maioria”. Que tudo isso o levava ao exercício e aceitação de uma fácil e autoritária hierarquia.


“A referência é o patamar de cima.

- Como no poço da morte, como no poço da morte… -

Um desejo de ascenção e até de identificação com quem já lá esteja. Uma vez lá chegados, naturalmente, acamaradamos com os que ali se encontram e, recordando as provações passadas, traçamos os limites corporativos do patamar.
E torna-se evidente que tudo isto pode valer. Como prova de um sistema baseado no primado do poder.”


As capas sempre tiveram propósitos. E histórias cuja densidade tiveram identidade e história.
Tradição? Sim!
Mas qual?


Esquecemo-nos no tempo como Coimbra (a das capas) para uns é Choupal, Pedro e Inês, serenatas às raparigas, Menano e Luís Góis, Zeca Afonso,
Adriano, e ainda Antero.
E para outros mais a cidade conservadora que ainda vence.
A cidade da obscura espera
de Cerejeira e Salazar, antes do ataque.


As boas tradições são aquelas que perduram na senda do futuro.
Que perseguem uma Obra e uma Construção.


Hoje, o respeito pelos homens e pelos Direitos Humanos, exigem das autoridades,
a começar – logo, evidentemente – pela autonomia dos movimentos associativos –
o exercício das responsabilidades que lhes são inerentes.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

«O que eu penso das praxes», por Gonçalo Amorim

Esta é a décima contribuição para a nossa rubrica «O que eu penso das praxes», que começou a ser publicada no blog do MATA desde Outubro. Gonçalo Amorim junta-se assim aos nove outros nomes que podem encontrar na lista «O que eu penso das praxes», na coluna lateral do blog.

Gonçalo Amorim (n. 1976) é actor e encenador. É formado em teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Já trabalhou, entre outros, com o Teatro o Bando, os Primeiros Sintomas, o Útero, os Artistas Unidos e a companhia Olga Roriz. Em cinema já trabalhou com Raquel Freire, Edgar Feldman e Josá Filipe Costa. Em 2007 ganhou o prémio da crítica, atribuido pela A.P.C.T., pela sua encenação de Foder e ir às compras de Mark Ravenhill. Tirado daqui.



A irresistível prAXE

A irresistível prAXE é a palavra portuguesa que mais se assemelha ao desodorizante de odor duvidoso irresistível AXE.
A irresistível prAXE tal como o irresistível AXE servem, supostamente, para melhorar, de forma manhosa, a coabitação de estranhos no mesmo espaço. No entanto, a irresistível prAXE é uma solução fácil para impulsionar a higiene universitária, uma vez que a irresistível prAXE, assim como o irresistível AXE, duram pouco e não se podem considerar (por mais publicidade que se faça) soluções fiáveis para o sovaco do ser humano. O ser humano precisa de arejar e arejar o mais possível. Os amigos/as e namorados/as que tu consegues com a irresistível prAXE são os mesmos que tu consegues com o irresistível AXE: Cheiram a mofo!
A irresistível prAXE e o irresistível AXE só são irresistíveis se alguém o berrar constantemente ao teu ouvido.
Tanto a irresistível prAXE como o irresistível AXE têm os dias contados.
A Universidade precisa de novos ares e tenho a certeza que todos juntos somos capazes de melhor. Ou não?

terça-feira, 24 de novembro de 2009

«O que eu penso das praxes», por Pedro Vieira

Continua a nossa rubrica «O que eu penso das praxes», desta vez com Pedro Vieira. Para acederem aos outros textos e participações é só clicarem nos nomes na barra lateral direita.


Pedro Vieira (n. 1975) é designer gráfico. Licenciado em na área de Comunicação e Publicidade trabalha em vários projectos de ilustração e banda desenhada. Faz vários trabalhos para variadas publicações, como o Diário de Notícias, o Público, o i, o Jornal de Letras e a Revista LER. Coloca os seus trabalhos e textos no seu blogue pessoal, Irmão Lucia; participa no blogue colectivo Arrastão; e tem o seu portefólio no Riscar.net.


Irmão Lucia
o veterano grunho, a mim não me convém, não me convém

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

«O que eu penso das praxes», por António Louçã

Continuamos a publicar a série de textos com o tema «O que eu penso das praxes». Várias personalidades já responderam. Para verem mais textos, consultem a lista de nomes na coluna lateral do blog.

António Louçã (n. 1955) é historiador e jornalista. Licenciou-se em História na Faculdade de Letras de Lisboa, em 1979, e fez o Mestrado em História Contemporânea de Portugal em 2000, com uma tese sobre Portugal e o ouro nazi. É colaborador e redactor de diversas publicações periódicas desde 1974. Foi correspondente do Diário Popular em Madrid em 1979, director da revista Versus entre 1983 e 1987, chefe de redacção da Semana Informática em Lisboa e correspondente em Berlim entre 1989 e 1994, editor da revista História em 2000. É jornalista da RTP desde 2001. Venceu, com Sofia Leite, o Grande Prémio Gazeta 2008 de Jornalismo. Tem vários livros publicados. Ver mais aqui.



GREGARISMO PRAXISTA OU ACÇÃO COLECTIVA E SOLIDÁRIA?

Pedem-me umas linhas sobre a praxe e custa-me a escrevê-las. Não devia custar, porque andei na Universidade nos anos 70 do século passado. Como tradição, a praxe seria, supostamente, mais viva nessa época distante e ter-se-ia, supostamente, diluído nos nossos tempos de globalização e de internet.

Mas a suposição é falsa. Naquele tempo de universidade que era o meu, nunca vi praxe alguma nem nada que cheirasse, remotamente, sequer à praxe actual. Aquele tempo tinha, por certo, as suas tradições: as do movimento estudantil, contra a reforma de Veiga Simão, contra os gorilas nas faculdades, contra a ditadura fascista, contra a guerra colonial, contra o genocídio imperialista no Vietname.

Quem hoje vê estudantes trajando de negro como bandos de corvos não consegue reprimir a ideia de que a tradição já não é o que era. Esta “tradição” é coisa muito recente. Ela foi tão fabricada pelas conveniências da política dominante nos nossos dias como a “tradicional” indumentária vermelha do Pai Natal foi fabricada pela Coca-Cola.

A praxe é bem a antítese artificial de tradições solidárias e combativas, internacionalistas e libertárias, que identificaram a juventude do século XX, em vagas sucessivas até ao ponto culminante de Maio de 68. Onde ali prevalecia a acção de massas por um mundo novo, aqui sobressai a mesquinhez dos tiranetes de trazer por casa, o abuso de poder por parte das almas de lacaios, o desforrar-se para baixo por parte de quem habitualmente se desbarreta para cima.

E, no entanto ...

No entanto, esta mentira, para ser mentira, tem de trazer à mistura qualquer coisa de verdade. A praxe combina o individualismo tacanho e egoísta com um gregarismo atávico e primitivo, tirbutário da psicologia do rebanho – como as claques futebolísticas, como os fanatismos religiosos. E, no entanto, foi no meio das claques futebolísticas que a resistência ucraniana pôde jogar em casa contra os ocupantes nazis, foi no meio delas que despontaram algumas das primeiras grandes manifestações contra a ditadura argentina de 1976-1982. Os e as estudantes com sentido crítico, que hoje são uma pequena vanguarda na resistência aos tiques autoritários das praxes, não têm de desanimar por se sentirem, temporariamente, em minoria. À mínima viragem no ambiente, a acção colectiva pelas aspirações sociais da grande massa virá, como a velha toupeira que fez o seu caminho, irromper sob a carcaça do gregarismo praxista.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

«O que eu penso das praxes», por João Pacheco

Mais um texto «O que eu penso das praxes». Já várias pessoas nos deram o seu contributo. A lista de todos os textos está na coluna lateral do blog. Espreitem-na para conhecerem mais opiniões.

João Pacheco (n. 1981) é jornalista. Passou pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, pela Orientale de Nápoles e pelo CENJOR, em Lisboa. Tem trabalhado como jornalista desde o início de 2005, sobretudo no Público, na Visão e na revista do i. No Verão de 2007 recebeu o prémio de jornalismo Gazeta Revelação 2006 do Clube de Jornalistas, aproveitando para falar sobre precariedade perante o Presidente da República e os restantes convidados. É membro do grupo anti-precariedade Precários-Inflexíveis. Durante a faculdade, foi activista do MATA.


O QUE EU PENSO DAS PRAXES

Parece-me que a praxe cheira mal da boca. Cheira a bafio e a formatação para a carneiragem, cheira a tradição quase sempre inventada e perigosa, cheira ao pior que há na espécie humana: cheira à propensão para humilhar.
A praxe cheira mal da boca e não só. Porque a praxe tem o patrocínio de marcas de cerveja e a benção de muitas faculdades e politécnicos, cheira também mal o que está por detrás da praxe e o que está depois da praxe.
Caras pintadas? Palavrões? Música pimba? Tudo isso me é indiferente. Quem quiser palhaçar que palhace livremente. O que me irrita os pêlos das narinas é o objectivo mais ou menos consciente da praxe: vergar, torcer, quebrar, preparar para uma vida de joelhos.
O que eu penso das praxes tem a ver com uma pergunta: Já repararam que as gerações cada vez mais precarizadas são as gerações que passaram pelas universidades em Portugal quando a praxe estava a ser ressuscitada? Isto anda tudo ligado.

domingo, 25 de outubro de 2009

«O que eu penso das praxes», por Ana Deus

Este é o sétimo dos textos pedidos pelo MATA a diversas personalidades, com o tema «O que eu penso das praxes». Mais hão-de vir. A lista de todos os textos está na coluna lateral do blog.

Ana Deus (n. 1963) é cantora. Em 1987 integrou os Ban e foi a vocalista dos Três Tristes Tigres desde que começaram, em 1992. Entretanto tem colaborado em muitos projectos a solo ou em grupo. Fez várias músicas para filmes e teatro. Participou, com Regina Guimarães, no disco colectivo realizado pelo MATA em 2006 - Não resistir só e não só resistir - e foi cantar à festa que organizámos nesse ano. O que faz actualmente pode ser ouvido e visto aqui.



O QUE PENSO QUANDO VEJO PRAXES

Penso que parecem velhos, antigos, que não sabem o que fazer, que têm medo de não pertencer, de destoar.
Desesperadamente agarrados a uma ideia de grupo e de caminho.
Os que praxam, praxados também são, pela limitada ideia, circular.
Tantos velhos para derrubar e eles atordoando-se entre eles, ora agora sou eu ora agora és tu.
Tanto espaço para reinvindicar e só aprenderam o folclórico lugar onde se urra.

Penso que parecem bandeiras tristes representando uma sonhada ascensão de classe, doutores senhores, directamente para o longo caudal do desemprego...

e penso nas ruas tão cuspidas com as capas a arrastar...argh.


Quem berra não tem razão, quem quer obedecer tá mas é doido!


quinta-feira, 22 de outubro de 2009

«O que eu penso das praxes», por João Cerqueira

O escritor João Cerqueira tomou a liberdade - ainda bem! - de propor ao MATA que publicássemos no nosso blog, no contexto da nossa iniciativa «O que eu penso das praxes», um trecho que nos enviou do seu livro A culpa é destas liberdades, publicado pela Pena Perfeita. Surge assim o sexto texto da nossa rubrica.

João Cerqueira (n. 1964) é escritor. Licenciou-se e fez o Mestrado em História da Arte na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Actualmente prepara o seu doutoramento sobre o artista plástico José de Guimarães. Tem vários livros publicados. Ver mais aqui.


O QUE EU PENSO DAS PRAXES

Praxe:

Mas o melhor estava para vir.
Dias depois, quando já me preparava para regressar à ignominiosa normalidade democrática deparo com outra vibrante demonstração de restauro dos valores do antigamente. E desta vez eram os mais novos a darem o exemplo. Os ventos da mudança já se fazem sentir entre a juventude soprando os ares da renovação numa fulgurante limpeza da podridão que inquina as mentalidades. Pois a natureza humana foi dotada de mecanismos de auto-regulação que disparam o funcionamento de implacáveis engrenagens quando os comportamentos individuais ou colectivos ultrapassam os limites da decência patinando desgovernados nas acidentadas pistas de gelo da liberdade onde o tombo se sucede. Accionado o travão de mão e reposta a inércia, inicia-se então o processo de marcha-atrás, com a colaboração dos próprios sujeitos como adiante se verá, numa viagem de purificação espiritual e higiene mental cujo percurso os leva a descobrir, com a ajuda de pedagogos, uma nova dimensão na sua existência. Liberto das grades da liberdade, o animal ruge e logo exibe as garras pronto a esgadanhar o primeiro realizando a sua essência de besta irracional que os democratas lhe negavam. Como é bela a natureza.
Eram mais de uma centena marchando ordeiros com pinturas de guerra nos rostos e arrastando latas atadas por cordas aos tornozelos. Um cortejo da Inquisição veio-me de súbito à ideia, como se o tempo tivesse regredido. Meia dúzia de inquisidores de ambos os sexos impecavelmente trajados de preto comandavam os condenados sob intensas ordens e acintosos insultos. Técnicos bem preparados e voluntários esforçados produzem sempre resultados extraordinários. O enxovalho era sentido como uma iniciação ao conhecimento, a honra de ter sido escolhido entre muitos candidatos frustrados, o ponto de viragem das suas vidas. Logo, todos obedeciam com indisfarçável orgulho num êxtase semelhante ao das seitas suicidas que os fazia ansiar por humilhações cada vez mais torpes e degradantes. Como estes rapazes e raparigas não param de me surpreender. Por muito que tinjam o cabelo de cores berrantes e esburaquem as cartilagens auriculares e nasais numa aparente rebeldia há algo bem lá no fundo deles próprios que exige os prazeres indescritíveis do jugo e da vassalagem, sem qualquer razão que os justifique. Longas distâncias percorrem e consideráveis somas de dinheiro pagam para que alguém lhes demonstre a sua, e a deles, estupidez. Fantástico. A nação tem o futuro garantido. Eles são a prova de que os adolescentes estão fartos de liberdade e do excesso de direitos. Frustrados na abundância, viram-se para a ascese. Então, num crescendo de apoucamento, levaram-nos para um grande largo onde se encontrava algum público_ cenário escolhido para o culminar do ritual de passagem_ sob o olhar incrédulo de inúmeros cidadãos pois, como é evidente, uma verdadeira humilhação exige o testemunho de terceiros. Começaram por os obrigar a ajoelhar na pedra fria para nessa posição beata entoarem grosseiras ladainhas carregadas de ofensas a si próprios e aos seus familiares, num acto de culto supremo à divindade monoteísta da imbecilidade. Adoraram. Depois promoveram um jogo de estratégia destinado a estimular o raciocínio e a tomada de decisões dos participantes que consistia em coagi-los a tirar os sapatos e as peúgas efectuando assim um montículo onde se misturavam apetrechos para os pés de diversas proveniências e odores do qual os descalços recrutas deveriam retirar, após exaustiva pesquisa manual estimulada pelos impropérios que os seus donos lhes lançavam, os bens que lhes pertenciam. Fabuloso. Não é qualquer um que se lembra disto, nem um qualquer que aceita participar. Contudo, não totalmente seguros da eficácia do seu proselitismo ou da conversão dos novos fiéis, os sacerdotes e as sacerdotisas da capa preta redobraram a gritaria e as ameaças diversificando esconjuros e promessas de estadia no inferno. Pareciam levar muito a sério o seu papel. Se não fossem as circunstâncias, diria até que existia um excesso de zelo entre estes patuscos aprendizes de capataz inebriados por um poder que nunca tiveram na vida.
Não os censuro - algo dá mais gozo que achincalhar os outros?
Então, lentamente, os demónios da democracia, da inteligência e do respeito individual começavam a abandonar o corpo supliciado dos possessos irremediavelmente exorcizados, com o rabinho entre as pernas. E, como em todas as cerimónias litúrgicas, deu-se a possibilidade aos crentes de comungarem o divino sob a forma de hóstias que neste caso eram as biqueiras sujas dos sapatos e das botas dos doutores da fé, obedientemente beijadas pelas bocas pecaminosas dos noviços. Caniches de circo treinados a guloseimas não fariam melhor. Estava por fim consumado o excelso ritual de despersonalização da manada: a anulação absoluta da vontade, o fim da auto-estima, a ligação directa entre o intestino e o cérebro. Medidas alternativas como a simulação de actos sexuais ou a imitação de quadrúpedes da família do burro já não eram necessárias. Ei-los agora embrutecidos, com a dignidade esfarrapada por ilustres desconhecidos que se dizem seus amigos e o seu bem desejam, espumando um rancor que tentativas de afogamento em marés de cerveja não conseguem apaziguar, prontos a devolver com redobrada intensidade a futuras vítimas alegres o aviltamento sádico a que foram sujeitos.

domingo, 18 de outubro de 2009

«O que eu penso das praxes», por Miguel Cardina

Mais um texto «O que eu penso das praxes». Vê na coluna lateral a lista de textos já existentes com a opinião das diversas personalidades que têm respondido a este desafio proposto pelo MATA. Para que a sociedade debata.

Miguel Cardina (n. 1978) é licenciado em Filosofia e mestre em História das Ideologias e Utopias Contemporâneas pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É também investigador-associado do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. É autor do livro "A tradição da contestação". Ver mais aqui.



O QUE EU PENSO DAS PRAXES


Penso que a praxe integra. Integra a crença de que a humilhação e o arbítrio podem dar lugar a formas salutares de relacionamento. Integra os cânticos boçais e a gesticularia grosseira no complexo das “culturas académicas”. Integra rituais de carácter hierárquico ou punitivo que privilegiam a autosuficiência grupal em detrimento do direito à dissidência ou à timidez. Integra as “tradições” como um valor em si, independentemente dos juízos que sobre elas possamos fazer. Integra uma nebulosa de desconhecimento sobre a origem das tais “tradições”, em regra bastante recentes e “impuras”. Integra o machismo e a homofobia no senso comum. Integra os estudantes numa estranha mistura de irresponsabilidade e elitismo social. Integra a ideia de que brincando à obediência se fomenta a liberdade. Integra a noção chantagista de que “tudo é praxe”, mesmo quando muitas práticas efectuadas em território estudantil ocorrem à margem ou contra aquilo que a praxe pretende integrar. É verdade, a praxe integra. Só falta agora desintegrá-la.

sábado, 17 de outubro de 2009

«O que eu penso das praxes», por Miguel Vale de Almeida

O MATA anda a pedir a diversas personalidades, ligadas ou não à universidade, que escrevam sobre «O que eu penso das praxes». Este é o quarto texto que publicamos. Para verem textos de outras pessoas, vejam a lista na coluna lateral.

Miguel Vale de Almeida (n. 1960) é antropólogo e um activista do movimento LGBT. É professor associado do ISCTE. Mantém o blog Os tempos que correm e participa também no blog Jugular. É deputado do Partido Socialista. Ver mais aqui.

O QUE EU PENSO SOBRE AS PRAXES

Quando nos anos oitenta fui para a faculdade nem se ouvia falar de praxes. Era uma coisa velha, de Coimbra, do antigamente. Já depois de começar a ser prof, nos anos noventa, começaram as praxes, apresentadas desde logo como "tradição". Um horror. Mas a liberdade de opting in e opting out é importante: em todas as inscrições em todas as faculdades deveria haver uma caixinha em que @s alunas assinalassem: "aceito/recuso" ser submetid@ a praxe". Ponto final.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

«O que eu penso das praxes», por Jorge Silva Melo

Este é o terceiro de muitos textos pedidos pelo MATA a personalidades ligadas ou não à universidade, com o tema «O que eu penso sobre as praxes». Na coluna lateral podem ver a lista dos textos que já publicámos (até agora, da autoria de Miguel Castro Caldas e de Teresa R. Cadete).

Jorge Silva Melo (n. 1948) é actor, encenador, dramaturgo, cineasta, tradutor, ensaísta. Fez parte do Grupo de Teatro de Letras da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Estudou cinema na London Film School e teatro em Berlim e em Milão, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Fundou e dirigiu, com Luís Miguel Cintra, o Teatro da Cornucópia (1973-1979). Em 1995 fundou os Artistas Unidos. Escreve também para jornais e revistas. Ver mais aqui.



O QUE EU PENSO DAS PRAXES

1. que é uma total cretinice;
2. que é uma total estupidez;
3. que é um total disparate;
4. que é uma total javardice;
5. que é uma total idiotice;
6. que é uma total patetice;
7. que é uma total falta de gosto;
8. que é um total desrespeito;
9. que é uma total imbecilidade;
10. que é uma prática totalitária.
É o que eu penso e ninguém me contradiz.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

«O que eu penso das praxes», por Teresa Cadete

Este é o segundo de muitos textos que o MATA decidiu pedir a várias personalidades, ligadas ou não ao meio universitário, e que terão como tema «O que eu penso das praxes». Na coluna lateral do nosso blog, os nomes dessas pessoas aparecerão listados para que seja mais fácil encontrar a opinião de cada um no nosso blog.

Teresa R. Cadete (n. 1947) é professora catedrática da Faculdade de Letras e faz parte do Departamento de Estudos Germanísticos. Tem dezenas de estudos publicados nas áreas da Teoria e História da Cultura e dos Estudos Schillerianos e traduziu também Schiller e Nietzsche. É também autora de romances, que publica com o nome literário de Teresa Salema. Ver mais aqui.



NA MESMA GALERA, OU SOMOS TODOS PRAXADOS

A carnavalização do mundo já nos toca na pele. Todos somos praxados ao vermos alunos a fugir às nossas aulas para se submeterem a rituais sadomasoquistas e apenas conseguimos proferir umas frases críticas com as quais sabemos de antemão que não vão concordar, porque: “Quem quer trajar, tem de praxar”.

Não vale a pena defender a proibição do intolerável. Não vale a pena repetir diante de quem pode até não ser mas que se faz néscio em momentos em que o tribalismo mimético se torna essencial à sobrevivência simbólica, à consolidação de um grupo. A Faculdade de Letras transforma-se, durante as primeiras semanas de aulas, em hordas de hooligans e vítimas, todos convencidos que estão muito distraídos e contando com a tolerância dos docentes por só mais tarde iniciarem rituais decerto mais chatos como preencherem fichas, informarem-se sobre programas das cadeiras, bibliografias, métodos de avaliação.

O que corre mal aqui não se soluciona com uma seca proibição, que talvez aliviasse por momentos a alma de quem se sente ofendido pelo facto de semelhantes práticas estarem a decorrer numa faculdade onde é suposto que se forme o espírito crítico. Pelo facto de semelhantes práticas serem importadas, coimbrices relativamente recentes.

A violência voltou aos espaços que deveriam ser de intervalo, convívio, leitura e lazer, não de ofensa directa ao trabalho de quem quer estudar e aprender ensinando.

Qual a solução?

Talvez não exista – enquanto receita de cozinha. Mas se a violência se extravasou, então é tempo que os críticos da praxe se mobilizem antes do início da mesma e adquiram visibilidade, apontando também alternativas. E que, já agora, as vão discutindo ao longo do ano para não ficarem pesarosos ao verem como as praxes sobem cada ano de tom em idiotice e ordinarice.

Continuamos na mesma galera – remando, até quando?

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

«O que eu penso das praxes» por Miguel Castro Caldas

Este é o primeiro de muitos textos que o MATA decidiu pedir a várias personalidades, ligadas ou não ao meio universitário, e que terão como tema «O que eu penso das praxes». Na coluna lateral do nosso blog, os nomes dessas pessoas aparecerão listados para que seja mais fácil encontrar a opinião de cada um no nosso blog.

Miguel Castro Caldas (n. 1972) é escritor. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Publicou textos no jornal da AE da Faculdade de Letras Os Fazedores de Letras entre 1998 e 2001. Publicou vários livros e escreveu e traduziu muitos textos para teatro. Recebeu uma menção especial da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro pela sua actividade em 2005. (Ver mais aqui)



O QUE EU PENSO DAS PRAXES

Penso que não devíamos ser indiferentes aos autos de fé. Mas não vale a pena chamar a polícia porque a polícia não vem, é conivente. Assim como os professores. Assim como os merceeiros. Assim como os miúdos que passam na mota a entregar a pizza. E os do banco que vêm de gravata da hora do almoço. E as velhas que alimentam a migalhas as pombas. E os bêbedos descalços sentados no chão. Não vale a pena chamar ninguém, temos de ser nós a segurar bem a raiva que nos sobe aos punhos perante qualquer espectáculo de humilhação. Temos de ser nós a partir-lhes a cara. Poisamos o lápis e as batatas em cima da balança e vamos lá dar uma cabeçada num palerma vestido de abutre que os outros fogem logo a seguir. Encostamos a mota da pizza e vamos ao focinho daquele que está a berrar com uma miúda de joelhos que é obrigada a enterrar-lhe a cara no fecho-éclair. Despimos a roupa de polícia dentro de uma cabine telefónica e vamos de camisa dar um pontapé naquele que se esfrega no dorso de um rapaz obrigado a manter-se debruçado para a frente. Chegamos atrasados ao banco porque vamos lá perguntar o que vem a ser aquilo de obrigar pessoas a porem-se de gatas no meio da rua. Poisamos a frigideira das migalhas para os pombos e vamos lá partir os dentes daqueles que passeiam gente por uma trela. E nem precisamos de largar a garrafa de vinho, não é preciso largar nada, para nos levantarmos do chão e irmos lá descalços, enxotá-los, enxotá-los, enxotá-los.