segunda-feira, 16 de junho de 2008

Próxima reunião do MATA.

REUNIÃO: a próxima é na 4ª feira, dia 18, às 17h30, no Stadium (atrás da Cantina Velha, contornando esta pelo lado esquerdo).
Continuaremos a discutir os mesmos temas da última reunião.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

As praxes...

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Próxima reunião do MATA

A próxima reunião é
na próxima 4f, dia 11 de Junho
pontualmente às 17h30*
na Cantina Velha (Cidade Universitária)

* tem de ser mesmo pontualmente, porque a partir das 18h o senhor da porta já não deixa entrar ninguém sem cartão!


A Ordem de Trabalhos é a seguinte:

1 - discutir o panfleto do secundário
2 - aprofundar as ideias para o início do ano, incluindo fazedura do documentário
3 - ...
4 - ...

(Se levarem 2 euros, podemos jantar a seguir.)

terça-feira, 3 de junho de 2008

É já amanhã...!

reunião aberta e informal
dia 4 de maio * feira
17h30
esplanada da Facul.CiênciasSociaisHumanas
Av. Berna * metro Campo Pequeno ou Praça de Espanha

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Sobre a violência e a necessidade de transformar a Escola

O país recebeu a notícia em choque, ao ritmo das imagens que foram sendo repetidas em loop psicadélico bem regado com histerismo, alarmismo e tiques repressivo-autoritários. Telejornais, jornais, “opinion-makers”, críticos, políticos oportunistas… A verborreia estéril encheu-nos ainda mais os ouvidos do que as imagens nos saturaram os olhos! Aquela estranha dança da professora e da aluna, intermediada por um telemóvel, presenciada por uma turma divertida, visualizada por um país em espanto. É a sociedade do espectáculo, da mediatização, da manipulação. Para acabar o ciclo só falta fazerem o toque de telemóvel “Dá-me o telemóvel já!”…

Mas choque para quem? Só para quem não está nem nunca esteve na escola! Só para quem pensa na escola como um micro-cosmos ou uma realidade social paralela e alheada de tudo o resto. Só para quem não quer ver o falhanço do modelo meritocrático, anti-democrático e profundamente exclusivo em que transformaram a escola pública. Penso que a única coisa que nos deveria chocar foi o aproveitamento mediático e o cavalgamento político da sempre “querida e bem-vinda” insegurança, ao melhor estilo da direita e da direitinha.

Desconstruindo o senso comum e as politiquices, analisando as implicações:

- todos os estudos apontam, baseados nos dados disponíveis sobre a violência escolar, que de facto o número de denúncias tem aumentado mas devido ao número de queixas efectivas (a discussão pública sobre o tema aumenta a consciencialização) e muito improvavelmente devido a um aumento efectivo de práticas violentas - cai por terra, portanto, o carácter alegadamente recente e de “onda” de violência veiculado

- mistura de atitudes completamente diferentes tão diferentes como a “não aceitação” de regras, a postura crítica, a indisciplina, o bullying e a violência - dando a ilusão que é tudo o mesmo e não analisando as motivações e as causas, assistimos hoje a um processo de “delinquentização” de tudo o que não se enquadra na norma e na conformidade

- naturalização (e generalização) dos fenómenos violentos tendo como perspectiva o contexto social, étnico, religioso e sexual da escola e dos seus alunos, ou seja, uma espécie de “só há violência porque são pobres, porque são pretos, porque são ciganos, porque são de más famílias, porque são mal educados, porque são rapazes, ou porque são maus alunos” – os estudos indicam, pelo contrário, que a violência é transversal às escolas com alunos de todos os estratos sociais (escolas onde predominam alunos de classe alta também têm estes problemas), etnias, religiões, sexo e percursos escolares

- ignora que democratização do acesso ao ensino não se traduziu numa democratização do sucesso escolar, do processo de aprendizagem e das sociabilizações dentro da escola - ocultando por isso a falência do actual modelo pedagógico, social e organizacional da escola

Ao contrário do que vemos, lemos e ouvimos vindo de todos os “pseudo-qualquer coisa” peritos em desinformação, não se pode negar o carácter multidimensional e variável da violência escolar e dos seus contextos.

Mas sem dúvida que o mais preocupante são as respostas que a sociedade, iludidada por este “senso-comum politicamente construído” e que baseia o seu apoio nos medos mais básicos e irracionais do ser-humano, se propõe na sua maioria a dar: a abordagem policial repressiva.

Em primeiro lugar importa dizer que esta abordagem denota desde logo a rejeição de toda a teoria e análise social, rejeita a pedagogia e rejeita a escola enquanto possível meio de resolução ou atenuação dos problemas sociais que a maior parte das vezes ela própria gera. Ela parte do princípio que a violência na escola é algo de externo a esta, algo que a “infecta”, e que atribui a minorias ou a maus alunos. É a resposta típica e generalizada do “sistema” quando não consegue dar resposta aos problemas que gera: reprimir, afastar, negligenciar. “Separar o trigo do joio”. E entretanto os vigilantes, os cartões de acesso, os polícias e as câmaras entram pela escola e são apresentados como “A solução” (o programa Escola Segura é disso um bom exemplo). Nada de novo: é a casa fortificada, a escola prisão, a Europa fortaleza. E no entretanto, temos toda uma geração a sociabilizar e a aprender a “cidadania” sob a batuta da vigilância e do policiamento…

A resposta e a proposta que temos que fazer é outra, diametralmente oposta, que vá ao fundo das questões. Por oposição ao policiamento temos que responder com um projecto de pedagogia (num sentido de interacção e de aprendizagem, não de paternalismo). É transformar a escola num espaço que promova não só a democratização do acesso mas sim a democratização do “sucesso” escolar, social e pessoal. Esse sucesso tem de ter muitas formas e muito diferentes, e consequentemente muitas formas de ser avaliado, opondo-se ao método meritocrático gerador de exclusões. Isso envolve a transformação radical da escola:
- integração dos estudantes na gestão das instituições da escola e no planeamento dos seus currículos
- novas e diferentes propostas e oportunidades formativas
- alteração da relação de autoridade baseada na dualidade do professor enquanto poder e mestre e o aluno enquanto subjugado e aprendiz
- boas condições materiais e físicas dos espaços e equipamentos
- professores motivados, com um contrato estável e com formação continuada
- recreios e os tempos livres como espaço de sociabilização e de aprendizagem da amizade, do amor, da cidadania, do livre pensamento, da crítica, da intervenção
- uma escola aberta à comunidade, que nela se quer inserir e intervir

Sim, de facto a sociedade está no seu todo mais violenta. Porque as explorações, as opressões e as contradições a isso conduzem. Mas negar a escola como ela própria co-geradora dos conflitos e problemas que nela se vivem, é aceitar que tudo está bem lá dentro. É aceitar que exclua quem não se adequa. É aceitar a escola enquanto selecção e reprodução. É aceitar a escola meritocrática, exclusiva, formatadora e autoritária. É abster-se de a querer transformar. Enfim, é aceitar tudo como está.

Então e a praxe? Embora com iconografias e simbologias diferentes, ela por aí anda no secundário e no superior. E onde se enquadra aqui todo o discurso sobre a violência? Onde estão os mesmos que tão violentamente atacam os que acusam de praticar a violência? Porque violenta para o corpo, para a mente, para as crenças, para os direitos e para as diferenças todos sabemos que a praxe é, embora nem todos o queiramos admitir.

Aqui se revela uma contradição fundamental. Aqueles que exigem a “tolerância zero” perante fenómenos extremos de manifestação de relações, tensões e injustiças sociais, como é o caso da violência nas escolas, são exactamente os mesmos que apologizam a praxe (e a violência que irremediavelmente a acompanha) enquanto processo uniformizador, integrante, estabilizador e conformista.

Não se trata, portanto, da violência em si mesma, mas sim do que ela significa e do que representa. Se representar a não aceitação, a manifestação, a expressão, o inconformismo, a explosão, então deve ser violentamente (mais uma vez) reprimida e afastada. Se for um Carnaval divertido, recambulesco, marialva, pimba, paternalista, sexista, racista, homofóbico, anti-democrático, hierárquico, e se ainda por cima for um negócio que rende muito dinheirinho aos compadrios, ora, como recusar fórmula tão apetecível? A violência é um excesso, indesejável mas que por vezes acontece, dizem eles… Sem o dizerem, dizem-no: a praxe é violência!

Cerra-se as fileiras, ordena-se que se acabe com os “excessos”: acaba-se com a violência visível e intensifica-se a violência silenciosa, modera-se o discurso e mantém-se as práticas.

Resumindo: é um projecto político, social e cultural, conservador e classista, para a escola.

Como transformar este projecto de escola que exclui e violenta, como combater a praxe normativa e integrativa, como o fazer tendo sempre em vista a transformação da escola, do meio e da sociedade, rompendo com os consensos, colectivamente, abertamente, propositivamente, provocativamente, inconformadamente, divertidamente e apelativamente? Acho que a resposta é só uma: com as mãos…e a mente! Reflexão e acção!

domingo, 25 de maio de 2008

reunião do M.A.T.A.

» feira
» 26 de Maio
» 21h30
» bar do Cinema são Jorge
(Av. da Liberdade, metro: Marquês ou Avenida)


As reuniões do M.A.T.A. são informais e abertas a quem tem vontade de aparecer.
Aparece!

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Depois disto... há mais para mudar

Julgamento das praxes: condenação histórica


Terminou hoje o julgamento que pôs em causa as práticas de praxes académicas decorridas na Escola Superior Agrária de Santarém – em Outubro de 2002, quando a Ana Santos foi obrigada a ter o seu corpo coberto com excrementos de animais – com a condenação dos sete arguidos.

Seis arguidos, acusados do crime de ofensa à integridade física qualificada, e o sétimo, do crime de coacção, foram condenados a pagar multas entre os 640€ e os 1600€.

Este foi um julgamento em que se usou recorrentemente os conceitos de "anti-praxe", "código de praxe" e "acordo", definindo a praxe como um acordo entre praxados e praxistas.

Na sua exposição, o juiz declara que não é obrigatório alguém declarar-se “anti-praxe” para não ser sujeito a tais práticas; o código que a regula não tem qualquer legitimidade [inclusivamente incorpora elementos que se opõem à constituição]; e que os actos inseridos no contexto de praxe não se baseiam em nenhum acordo entre quem manda [”veteranos”] e quem obedece [“caloiros”].

Pela primeira vez, a instituição de justiça competente, e não um poder inventado de uma hierarquia fantasiosa, julga e condena acções em contexto de praxes académicas, lembrando ou mostrando que ninguém é inimputável à sombra do traje académico e que um crime é um crime, mesmo “sendo da praxe”.

A coragem da Ana, que apesar de todos os obstáculos nunca desistiu, levou a este ponto de viragem: a partir de hoje as “leis da praxe” já não se podem considerar paralelas às leis do país. E o futuro, a partir de hoje, pode pensar noutras mudanças que tornem livres as relações entre estudantes.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Mais um caso de violência onde o palco é a "tradicional" Queimas das Fitas

Uma aluna de primeiro ano – dita "caloira" na hierarquia das "praxes" – da Universidade do Minho foi violada por um colega – "cardeal", na mesma hierarquia – durante a festa da "Queima das fitas".

É mais um caso de violência em contexto de "tradição académica". Não o sendo, as notícias não chamariam "caloira" à vítima e "cardeal" ao violador, nem procurariam comentários da direcção da Escola ou da associação académica. Não o sendo, a própria aluna não diria "nunca desconfiei dele até porque ele é cardeal do curso e tem por dever proteger os caloiros", nem diria que "ainda pensava que se tratava de mais uma praxe".

Este caso é diferente de outros do passado, porque a brutalidade de uma violação sexual choca e é condenável por qualquer pessoa, independentemente do contexto do acto. Também difere por não se ter sucedido em grupo: foi uma decisão individual do "cardeal" (e não das "comissões de praxes") e ocorreu fora do alcance das outras pessoas (e não em situação de "arrebanhamento" onde existem sempre pressões de grupo).

No entanto, tem semelhanças em vários pontos com outros casos tornados públicos, por exemplo, "Ana Santos, de Santarém", "Ana Sofia Damião, de Macedo de Cavaleiros" ou "Diogo Macedo, de Famalicão"; e é por isto que não se pode desligar da relação que tem com a "tradição académica":

- a confiança depositada num colega "superior" acaba por ser defraudada, deixando clara a arbitrariedade das hierarquias entre estudantes (absurdas e inventadas pela "tradição académica", mas supostamente "protectoras");

- a relutância em denunciar o sucedido (denúncia esta que, note-se, não foi feita em Braga) esconde o medo de voltar à escola onde o "cardeal" continuará a "proteger os seus caloiros", e esconde também o receio de dificilmente voltar a frequentar o curso e a escola, aos quais tem todo o direito;

- a reacção da direcção da Escola anuncia que “só abrirá um inquérito quando houver uma queixa formal da vítima”, desresponsabilizando-se uma vez mais. Não porque tenha responsabilidade no sucedido, mas porque ao escolher o caminho da ignorância faz com que uma aluna deixe de ter condições de frequentar a instituição de ensino e possa perder, pelo menos, um ano da sua vida;

- os convívios escolhidos usam o álcool como argumento que justifica a violência (sendo que nenhum tipo de violência pode ser legitimada pelo abuso de álcool), quando, de facto, a origem dessa violência está no facto de esses convívios se basearem nas "tradicionais" hierarquias que conferem diferentes poderes às pessoas que assim "convivem";

- fica mais uma vez provado que na escola e nas suas "tradições", tal como na sociedade, as mulheres são encaradas como "o elo mais fraco", sendo por isso as principais vítimas das discriminações e abusos.

Recusamos o policiamento dos convívios entre estudantes como resposta. Pelo contrário, pensamos que a gravidade deste caso obriga a várias reflexões: por parte de quem acredita que a hierarquia é uma solução legítima para o convívio; por parte da direcção da Escola que tem a obrigação de garantir que esta aluna pode continuar a estudar; por parte da direcção da Escola, do Ministério do Ensino Superior e do Ministério Público, que têm a responsabilidade de não deixar este caso cair no esquecimento.

Não se pode admitir que uma pessoa tenha medo de denunciar uma agressão, nem tão pouco que essa denúncia traga ainda mais obstáculos à sua vida. Este medo e estes obstáculos são transversais a todos os casos conhecidos (e desconhecidos) e terão que acabar um dia.
E esse dia deve ser hoje.

(Comunicado de imprensa. 16 Maio 2008)

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Ela, a "caloira"; ele, o "cardeal".

A hierarquia dá o mote, a violência é o "final infeliz".


Uma rapariga foi violada na queima das fitas, em Braga. Para ela foi uma surpresa, mas o resto da história é igual a tantas outras (umas conhecidas, outras abafadas).
"Estava na barraquinha do curso e ele arrastou-me. Pensei que queria conversar e beber um copo, nunca desconfiei dele até porque ele é cardeal do curso e tem por dever proteger os caloiros".

Depois de violada, não teve coragem de o contar aos colegas e só decidiu apresentar queixa dois dias depois. No meio, estão a vergonha de qualquer pessoa (geralmente mulher) violada e, em particular, de alguém que confiava na pessoa violadora; está o medo de voltar à escola onde terá que se confrontar com o "cardeal" e com as outras pessoas que escolhem o silêncio como resposta ao sucedido.

E, no fim da linha, ainda vem a Escola. Abrirá um inquérito para saber o que se passou (serão as violações tão diferentes umas das outras?) se a aluna lhe apresentar uma queixa; deixará o caso cair no esquecimento, se a aluna não a apresentar.

E, de facto, a Escola não tem que se responsabilizar pelo que aconteceu. Mas a partir do momento em que uma pessoa se sente obrigada a deixar de frequentar a instituição de ensino superior porque não se sente protegida nela, a instituição tem a obrigação de fazer alguma coisa e garantir que essa pessoa possa continuar normalmente o curso que iniciou. E o argumento de que "ela não apresentou queixa" ou "não soubemos de nada" não servem, porque hoje já toda a gente sabe (e até os colegas, minimamente atentos, já montaram o puzzle todo e já sabem quem é o "cardeal-violador").
O "fim" desta história, será mais uma vez o silêncio e o esquecimento?


As notícias:




terça-feira, 13 de maio de 2008

A invasão...




Atenção! Atenção! Aviso à população!
A Baixa Lisboeta, desde da Praça dos Restauradores até ao Cais do Sodré, foi completamente invadida por corvos. É fenómeno anti-natura nunca antes visto na nossa sociedade evoluída. Eu tive o privilégio de assistir, com os meus próprios olhos, aos comportamentos destes espécimes.
Durante a tarde no meu trabalho, na Baixa, ouvia gritos histéricos pela rua. Sempre que ia para a entrada espreitar não via nada de suspeito. Pensei que pudesse ser uma manifestação da CGTP, dois cauteleiros a discutir sobre a melhor terminação da Lotaria Clássica, ou uma pessoa desesperada por ter encontrado o seu automóvel bloqueado pela Polícia Municipal enquanto só tinha ido beber uma mini ao café "O Fingal".
Saio do trabalho ao final da tarde e dirijo-me para a Casa do Alentejo e começo a ver algumas, mas poucas, figuras de indumentária bastante estranha. Por um lado pareciam trabalhadores de colarinho branco que deviam ter saído da Loja do Cidadão, por outro pareciam o fantástico Zorro pelas compridas e belas capas que ostentavam orgulhosamente. Apesar disso, segui em passo acelerado para a embaixada alentejana, pois eu cá estava com sede.
Umas duas horas depois saio, já acompanhado, da magnífica associação cultural para me dirigir para casa. Começamos a observar que eles se multiplicaram - eram pior que coelhos. Agora via-os pela rua de Portas de Santo Antão a beber ginginhas como se não houvesse amanhã, e ainda fomos a tempo de ver um grande grupo mais elitista que preferiu a suculenta carne frita do McDonald's, erguendo orgulhosamente a nossa lusa bandeira. Eles urravam! Eles gritavam! Eles estavam tão divertidos! Essa sensação de liberdade imediatamente me preencheu. É tão bom ver seres humanos tão jovens armados em aves.
Seguimos pelo Rossio, entrei na rua do Carmo e já via vários a subir e a descer a rua Garrett. Achei estranho, pois era segunda-feira e o Bairro Alto é aborrecido (embora para mim essa seja uma constante da vida). Já não estava a compreender nada. Comecei a sentir-me perdido e agoniado. Só queria sair dali, não ter que ver tanta felicidade alcoólica em gente bem vestida.
Descemos para a rua do Ouro, o movimento de aves continua semelhante... até ver a rua do Comércio cortada. Olho para a Direita e vejo um bando enorme de corvos aos berros. Oiço música. Vejo luz. A Praça do Município estava repleta, invadida, e infelizmente não era o 25 de Abril. Fugimos para a Praça do Comércio - lá estaríamos em segurança para apanhar o eléctrico. Novamente encontro estes seres vorazes a gritarem obscenidades sobre como desejam fazer sexo em grupo nos seus futuros consultórios de psicologia. Outro bando, maioritariamente masculino, em jeito de pré-acasalamento, berra o mesmo mas a estudar pedras... E começa uma bela dança de palavras entre futuras psicólogas e futuros geólogos.
Finalmente chega o eléctrico, que antes de nos salvar, leva-nos principalmente para a toca do lobo. Passamos pela Praça do Município e nunca vi nada assim: os corvos grasnavam em volta de belos banquetes de cerveja e churros. Alguns bandos já derrotados afagavam as cabeças dos seus compinchas em quase coma alcoólico, outros erguiam os seus copos de plástico e as suas guitarras em direcção da Câmara Municipal, outros limitavam-se a não deixar o eléctrico passar. Felizmente estava lá a polícia e ajudou-os a sair do meio dos carris.
É compreensível, as aves não primam pela inteligência.
Y.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

A impunidade continua...



Instituto Piaget de Macedo de Cavaleiros absolvido no processo das praxes promovido por uma aluna

O Tribunal de Macedo de Cavaleiros ilibou de qualquer responsabilidade o Instituto Piaget, num processo movido por uma ex-aluna do estabelecimento de ensino, que exigia uma indemnização de 67 mil euros por danos morais e materiais sofridos depois de ter sido "vítima de praxes violentas" que, segundo a queixosa, a levaram a abandonar o instituto. O gabinete de Comunicação e Imagem do Piaget explicou, em comunicado, que a sentença proferida pelo tribunal reconhece que a instituição de ensino "não foi responsável pelos factos ocorridos em Setembro de 2002, durante a praxe da Escola Superior de Saúde", onde Ana Damião ingressou como aluna da licenciatura em Fisioterapia. A juíza considerou que "a aluna consentiu nas praxes a que foi sujeita", refere o comunicado, e que posteriormente "exagerou nas denúncias que formulou contra a escola". As praxes em causa, de acordo com o tribunal, "não ofenderam a moral pública e não chocaram com a consciência ou sentimento ético-jurídico da comunidade, não se podendo formular um juízo de censura ou reprovação dirigido ao Instituto Piaget". A advogada da queixosa, Elisa Santos, confirmou a sentença. "Já comuniquei a decisão à minha cliente e espero que ela me diga se vamos recorrer ou não para o Tribunal da Relação", acrescentou. Este desfecho surpreendeu a causídica que, em Julho de 2007, se mostrava bastante confiante, depois de conhecer a matéria dada como provada pelo tribunal. Por exemplo: "Ficou provado que a direcção Piaget tinha conhecimento e aceitava com naturalidade a existência e o conteúdo das praxes no instituto; conheceu os factos ocorridos com a aluna; que a Ana ficou revoltada, triste e humilhada, na sequência do ocorrido; a degradação do estado de saúde da Ana, consequência de todo o processo, levou-a a abandonar a faculdade."

23.04.2008, Ana Fragoso, Público

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Que respondes tu?

Estou perturbada pelo tema do "incidente do telemóvel", mas ao contrário do que se tem ouvido, a minha perturbação vem exactamente da análise que se tem feito do caso.
As palavras "autoridade", "família", "punição" (palavras muito usadas durante o Estado Novo), que têm entrado em quase todos os discursos (e que transformam as "pessoas mais novas" como pessoas inferiores) são tão antigas e obsoletas quanto o sistema de ensino.


Será normal que a Escola continue a ser apenas um local de reprodução e não de renovação de ideias? Esperamos nós que a Escola "ponha as crianças na linha" em vez de as ajudar a encontrar autonomia e autodeterminação? Queremos que saiam da Escola bons profissionais (precários, claro, que os tempos não estão para melhor) em vez de pessoas com ideias, capacidades e vontades de reinventar a sociedade?

Será que queremos impor desde cedo a estratificação da hierarquia que "nos manda obedecer" (aos pais, aos professores, aos patrões, aos polícias)?
Esperamos nós que a Escola seja um local de medo e retracção, vigiado por polícias e colegas, em vez de um espaço de liberdade onde as diferenças se respeitam?
Queremos que se ache normal que os professores roubem os telemóveis dos alunos, em vez de querermos que a Escola se reinvente e se adapte ao presente?

Eu respondo a tudo que não.


Ana Feijão

domingo, 23 de março de 2008

Será apenas uma questão de fezes?

Notícia do jornal O Mirante, 20/3/08
SECÇÃO:
Sociedade

Julgamento das praxes violentas na Escola Agrária de Santarém está a chegar ao fim
Testemunha confirma que caloira se recusou a ser praxada com bosta
Dois professores da escola, um deles o presidente do conselho directivo em 2002, confirmaram ao tribunal que os excrementos podem ser transmissores de doenças, mas defenderam a normalidade das praxes utilizando bosta.

Uma das testemunhas arroladas pelo Ministério Público confirmou em tribunal que a caloira da Escola Agrária de Santarém que se queixa de ter sido submetida a praxes violentas, se recusou a enfiar a cabeça dentro de um penico com excrementos de animais. As declarações de Bruno Cavaleiro vêm contrariar outros testemunhos que têm apontado para o facto de Ana Francisco não se ter declarado anti-praxe e de não se ter oposto a ser praxada.
A testemunha começou por dizer que não se recordava muito bem do que se tinha passado no dia 8 de Outubro de 2002 quando Ana Francisco foi besuntada com esterco e mais tarde enfiada de cabeça para baixo num penico com bosta. Respondendo a perguntas do procurador do Ministério Público, Bruno disse inicialmente ter reparado que a colega “estava muito calada mas nada mais que isso”. Confrontado com as declarações que tinha feito ao juiz de instrução criminal em 2005, a testemunha acabou por confirmar uma versão diferente.
Nas declarações feitas na altura, lidas na última sessão de julgamento, Bruno Cavaleiro dizia que Ana Francisco “estava perturbada e parecia que chorava”. E acrescentava que um dos sete arguidos disse à caloira para fazer o pino e meter a cabeça dentro do penico, “acção à qual ela se recusou”. Perante isto a testemunha confirmou que o que disse em sede de inquérito “é o que se passou de facto”, justificando a versão contraditória que estava a apresentar com o facto de já ter passado muito tempo e já não se lembrar bem da situação. A testemunha não conseguiu explicar ao tribunal de que forma a queixosa manifestou a recusa.
Na mesma audiência foi ouvido o presidente do conselho directivo da escola na altura, Henrique Soares Cruz, que disse achar as praxes na escolas agrárias normais, explicando que no exercício da sua profissão de veterinário já ficou sujo com bosta de vaca muitas vezes. Soares Cruz disse também não conhecer nenhum fenómeno de rejeição dos alunos às praxes enquanto dirigiu o estabelecimento de ensino superior. O Ministério Público perguntou se de acordo com a sua consciência ética considerava ofensivo uma pessoa ser untada com bosta, ao que Soares Cruz disse: “Acho que não”.
Nesta sessão o juiz estava interessado em esclarecer as implicações na saúde para uma pessoa que é besuntada com excrementos no corpo, começando por perguntar se os veterinários quando precisam de fazer apalpações rectais nas vacas não se protegem. Soares Cruz confirmou que sempre que há luvas usam-se. A testemunha confirmou que o esterco é um factor de transmissão de doenças, mas garantiu que os alunos não corriam riscos porque os animais da escola estavam rastreados e não tinham doenças.
Luís Filipe Almeida, também veterinário e professor na Agrária em 2002, confirmou a situação, mas ressalvou que muitas vezes não se usam luvas porque é mais fácil fazer a apalpação ou porque estas se rompem facilmente. “Para nós o contacto com as fezes é rotineiro”, sublinhou. O Ministério Público, perante mais um testemunho a defender a normalidade das praxes com bosta, perguntou à testemunha: Se isto é tão natural porque é que todos sentem desconforto em dizer quem mandou” praxar a caloira. Ao que Luís Filipe Almeida respondeu que “do ponto de vista cultural há reservas sobre a questão de lidar com as fezes, até com as dos bebés”.
O tribunal marcou a próxima sessão do julgamento para dia 7 de Abril, altura em que pretende terminar a audição de testemunhas.

quinta-feira, 6 de março de 2008

hierarquias...

O delito mais grave

Todo o cidadão que não soubesse respeitar as hierarquias militares era condenado a seis anos de prisão. E todo o cidadão que assassinasse outro era condenado a vinte anos de prisão.
O assassino, ao ver que o general assistira ao seu crime, jogou tudo por tudo e disse: você é um reles soldado!
Resultou.
Como os juizes castigavam sempre o delito mais grave o homem foi condenado a seis anos de prisão.

Gonçalo M. Tavares
O senhor Brecht

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Veteranos, membros das comissões de praxe, praxistas são exemplos de nomes que se podem dar a quem pratica as “praxes”. Mas as regras que esta dita são regras e não sugestões, brincadeiras flexíveis, acordos ou interacções espontâneas.
Pelo menos, é isso que se tem ouvidos, nos últimos anos, das bocas daqueles que “praxam”.

Mas este julgamento, que teve hoje a segunda sessão, vem abalar estas quase-certezas. Pela primeira vez, as praxes estão a ser postas em causa publicamente e, ao contrário do que seria de esperar, pelos próprios defensores.



Hoje, o “dux”* Vítor da Escola Superior Agrária de Santarém, aluno desta escola desde 1995, e testemunha de defesa (dos arguidos, claro) neste processo, levou a plateia a concluir a inutilidade do “código de praxe” – que existe desde 1998 (que contribuições terá tido este aluno na sua elaboração?) –, documento que a “comissão de praxes” utiliza para orientar a sua relação com os “caloiros”: afinal o que diz o código não é aplicado (por exemplo, os caloiros afinal só são bestas se o consentirem, afinal não serão caçados nas aulas no caso de se terem escapado às praxes, e afinal as praxes de Santarém não são necessariamente as piores do país). Este aluno afirmou várias vezes que o código serve apenas para assegurar os direitos dos “caloiros”.
Foi também dito várias vezes também por outras testemunhas, hoje como na primeira sessão do julgamento, que os “caloiros” não são obrigados a fazer o que não querem nem a entrar nas brincadeiras e que não existem ordens, mas sim propostas e sugestões, que os primeiros podem recusar livremente, desde que assinem a “declaração anti-praxe”.

Outro dado novo que sai desta sessão é que, aparentemente, o contacto directo (e directo, neste caso, é ser untado) com dejectos de origem animal é natural, desejável e próprio do universo de uma escola agrícola e do mundo rural (uma das testemunhas nem foi capaz de negar que as pessoas do mundo rural não se barram com excrementos animais, querendo levar a crer que isso de facto poderá acontecer).

Depois dos argumentos, uma breve opinião.
As praxes, neste julgamento, são um grande faz-de-conta paranóico. Faz de conta: que alguém manda, que todos gostam de cumprir, que existem leis, que é tudo uma brincadeira de convívio, que o cenário é diferente da realidade (como uma grande peça de teatro), que quem diz que não gosta está a brincar.
Mas os argumentos são os da realidade. Há indivíduos superiores a quem se deve respeito, que determinam que todos os alunos a partir do acto de inscrição são inferiores, que tomam decisões sobre o comportamento dos outros, que decidem os pontos de contacto entre as “brincadeiras” e a sociedade exterior à escola, e que até impõem uma assinatura a quem se quer excluir deste “mundo (não) paralelo”.

Estes comportamentos estão a ser postos em causa e a entrar em contradição. Os poderes que se querem afirmar dentro das escolas de ensino superior não têm legitimidade (como sempre foi dito pelos oponentes a estas práticas), e isto foi afirmado (ainda que indirectamente) por quem reivindica esses poderes.
A “tradição” afinal não é suficiente para a afirmação dos comportamentos que não são (felizmente, neste caso) socialmente aceites.

* O “dux” é, supostamente, o grau mais alto da hierarquia, na “tradição académica”.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Falar sobre praxes incomoda muita gente

Primeira sessão do julgamento das praxes de Santarém: já foram ouvidos os arguidos e algumas testemunhas de defesa


A primeira sessão do julgamento que acusa seis arguidos de crime de ofensa à integridade física agravada e um outro de crime de coacção, ocorreu hoje no Tribunal de Santarém, e remete para o ano de 2002, em contexto de praxe, quando os antigos alunos da Escola Superior Agrária de Santarém (ESAS) “praxaram” a Ana Santos.

Em causa estão apenas dois dos vários momentos que a Ana descreveu na carta que enviou, em Janeiro de 2003, ao então Ministro do Ensino Superior Pedro Lynce: o primeiro, em que ela foi “barrada com bosta” (expressão repetida vezes sem conta na primeira sessão do julgamento) por outros caloiros; o segundo, quando ela fez o pino em cima de um penico com bosta e mergulhou a cabeça (há quem diga que foi só o cocuruto) dentro do mesmo.

Os cinco anos que passaram, aparentemente, tiveram efeitos na memória dos arguidos e das suas testemunhas de defesa.

Diz-se que, afinal, foram os “caloiros” que tiveram a iniciativa de ir buscar os dois sacos de excrementos suínos à pocilga da Quinta do Bonito (local afastado da cidade, para onde foram levados vários “caloiros” e “caloiras” no autocarro da ESAS – mas isto deixou de interessar para o caso) e barrar o corpo da Ana.
“Só nos braços, no pescoço e na cara.”
“E nos cabelos?”
“Não, nos cabelos não.” – disseram todos os arguidos afinadamente.
Não deixa de ser curioso que, apesar da espontaneidade dos “barradores-de-merda”, os arguidos afirmem convictamente (quase com orgulho) que aquela “praxe” era habitual naquela escola (facto, aliás, que o antigo director da ESAS confirma e acrescenta também ter passado pelo mesmo com agrado).
Contraditório? Ainda não (ou a advogada de defesa teria tido outro plano para salvar os seus cinco meninos e duas meninas).

Quanto à memória das testemunhas, os efeitos variavam. Mas variavam apenas consoante elas eram os tais “caloiros” inspirados ou não.
Os segundos (que não eram os “tais”, portanto) mergulharam num esquecimento (“não sei, não me lembro” foram, sem dúvida, as expressões mais ouvidas dentro da sala) que colocava, a quem as ouvia, a dúvida: porque será que eles são arguidos se não viram nada e não se lembram de nada?
Os primeiros, com a mesma afinação dos arguidos (talvez os ensaios da tuna, afinal, sirvam mesmo para alguma coisa), diziam ter feito o acto em questão por espontânea vontade.
E aqui levanta-se a verdadeira contradição (notada imediatamente pelo advogado do ministério público): uma destas testemunhas havia afirmado, na declaração da fase de inquérito, que foi obrigado a “barrar” a Ana.

“Praxar é levar os caloiros a conhecer a cidade e conviver com eles.”

“E há ordens? Os veteranos obrigam os caloiros a fazer alguma coisa?”
“Não. As pessoas fazem o que querem.”
“E se não quiserem?”
“Não fazem.”
“E têm que apresentar alguma justificação?”
“Não. Podem ir-se embora ou simplesmente não fazer.”
[Até parece um diálogo normal. Mas não corresponde ao que aconteceu com a Ana, que só depois de se declarar “anti-praxe” – as coisas que eles inventam para ter razão! – é que sentiu o verdadeiro cheiro da praxe de Santarém.]

Depois vem a parte do penico. Como é de prever, o único arguido acusado de crime de coacção afirmou (e é proibido mentir em tribunal!) que a Ana pegou no penico e foi enchê-lo de bosta (desta vez de vaca, para variar no aroma) por auto-recriação. E ainda quis, também por auto-recriação, fazer o pino. E como o “veterano” era bondoso, nomeou dois caloiros para ampararem as pernas, não fosse ela desequilibrar-se.
Ora, logicamente, somos levados a questionar: mas se a Ana gostava tanto dessas coisas que até se propunha a sugerir “praxes”, para que é que ela apresentou queixa? Afinal, o que não falta por aí é gente que até não desgostou dessas “brincadeirinhas”.

Depois disto – e antes do próximo episódio, que é já dia 18 – fazemos uma previsão resumida da estratégia dos arguidos.
Os arguidos eram todos “veteranos” em 2002, ou seja, nenhum dos arguidos era “caloiro” (lógica básica, para não nos perdermos). Portanto, se, no fim disto tudo (com todos os esquecimentos e as espontâneas vontades), as pessoas acusadas de terem cometido os factos que levaram a Ana a apresentar queixa forem os “caloiros”, os “veteranos” são absolvidos, ou seja, os arguidos são absolvidos, ou seja, ninguém é sujeito a qualquer tipo de pena no final do julgamento.

Claro? Ou ainda não?

(já agora, a notícia do Mirante - jornal regional - também está boa e também tem filme http://www.omirante.pt/omirantetv/noticia.asp?idgrupo=2&IdEdicao=51&idSeccao=514&id=20274&Action=noticia)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Praxes violentas em Santarém: julgamento começa amanhã, cinco anos depois da queixa de Ana Santos

Esta será a primeira vez que (agora antigos) estudantes vão a tribunal acusados de praxarem violentamente Ana Santos.
O caso remonta ao início do ano lectivo de 2002/2003, quando a então aluna do primeiro ano na Escola Superior Agrária de Santarém (ESAS) foi sujeita a várias horas de humilhação, violência psicológica e física, coberta com dejectos de porco, insultada e, sobretudo, impossibilitada de exercer o seu direito de recusa àquelas práticas repugnantes e antiquadas.

Os sete agressores que se sentarão amanhã no banco dos réus - seis deles acusados em co-autoria e na forma consumada de um crime de ofensa à integridade física qualificada e um outro por um crime de coacção – "consideram que actuaram no sentido do respeito pela tradição", segundo diz a sua advogada Lúcia Mata ao jornal Público.
Para o M.A.T.A., é surpreendente que os arguidos, não negando os factos de que são acusados, os legitimem invocando uma "tradição", considerando, por isso, que não se enquadra no conceito de crime ou ilegalidade. Qualquer tradição, inventada (como é o caso) ou não, não pode servir de argumento para humilhar, coagir ou violentar pessoas.

O resultado deste julgamento pode marcar o início de uma nova realidade: a impunidade (que ainda se faz sentir, seguramente) poderá deixar de ser uma certeza para quem insiste em ver e viver a Universidade como uma espécie de "país à parte", em que as leis são outras e não protegem a integridade física e psíquica de quem por lá passa.

Aproveitamos para, mais uma vez, sublinhar a coragem da Ana, que apesar do sofrimento, pressões e consequências para a sua saúde – que acompanhámos desde o início -, não desistiu de ser a personagem central desta mudança. Mudança esta que se espera capaz de desenhar futuros diferentes na Escola e na sociedade.

M.A.T.A. – movimento anti "tradição académica"
13.02.2008

Julgamento da Ana Santos - Página inteira no Público

Agressores de praxe vão amanhã a julgamento
13.02.2008, Andreia Sanches

Sete jovens sentam-se no banco dos réus por terem praxado uma colega há mais de cinco anos na Escola Superior Agrária de Santarém

Tem sido descrito como um julgamento inédito: será a primeira vez que alguém se senta no banco dos réus por ter praxado alguém. Cinco homens e duas mulheres, com idades compreendidas entre os 27 e os 32 anos, respondem, a partir de amanhã, pelas praxes académicas em que participaram há mais de cinco anos, quando eram alunos da Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Santarém.
Ana Francisco Santos, hoje com 27 anos, era, naquele ano lectivo de 2002/03, uma das caloiras recém--chegadas ao curso de Engenharia Agro-Alimentar. Em Março de 2003, numa carta ao ministro do Ensino Superior, denunciou aquilo que classificou como os "castigos" a que foi sujeita durante os rituais académicos que considerou uma "tortura". E fez queixa à polícia.
"Seis dos arguidos são acusados em co-autoria e na forma consumada de um crime de ofensa à integridade física qualificada e um outro foi pronunciado por um crime de coacção", disse ao PÚBLICO Manuela Miranda, advogada que representa Ana Santos.
O juiz afecto à Instrução Criminal do Círculo de Santarém lembra, no despacho de pronúncia de seis dos sete jovens, que, como consequência das praxes a que foi sujeita, Ana Santos deixou de frequentar a Escola Superior Agrária de Santarém.
Já Lúcia Mata, advogada dos sete arguidos, diz que é convicção dos mesmos "que não praticaram nenhum ilícito penal". E garante que "eles nunca quiseram, de maneira alguma, ofender quem quer que fosse".
Todos eles, acrescenta, são hoje pessoas que "vivem a sua vida profissional e estão perfeitamente integrados".
Uma carta que chocou o país
Na carta que Ana Santos escreveu ao então ministro Pedro Lynce, e que foi divulgada pelo PÚBLICO em Março de 2003, a então caloira contava que os primeiros nove dias de praxes a que foi sujeita na escola foram duros - "21 horas diárias a sermos vítimas de praxes consecutivas".
Depois de uma sessão de dezenas de flexões, algumas correntes de ar, duas otites, vários trabalhos - "a fazer parecer trabalhos forçados" -, Ana teve que receber tratamento no Centro de Saúde de Santarém no dia 2 de Outubro de 2002. Mas não foi isso que a levou a apresentar queixa.
No dia 8 de Outubro desse ano foi conduzida com outros caloiros ("bestas", como eram chamados os alunos do 1.º ano, segundo explicava Ana Santos na carta ao ministro) para a Quinta do Bonito, propriedade da escola, a 30 quilómetros de Santarém, para apanhar nozes. Todos os alunos do 1.º ano estavam proibidos de atender chamadas de telemóvel. Mas Ana atendeu a mãe. E, de acordo com o que relatou, foi castigada por isso.
"Obrigaram-me a colocar na posição de "Elefante Pensador" (de joelhos, cabeça no chão e as mãos debaixo dos joelhos com as palmas viradas para cima), fui insultada por tempo que não consigo quantificar. Depois um veterano foi buscar dois sacos de esterco de porco", escreveu.
A seguir, foi esfregada com esterco - "camada sobre camada, esfregaram-me a cara, pescoço, peito, costas, barriga, cabelo". A tarefa foi levada a cabo também por alunos mais novos, sob as ordens de seis membros da comissão de praxes, contou: "Fiquei muito assustada, sem possibilidade de pedir apoio, perdi a noção do tempo, tive momentos em que já nem sabia onde estava".
Penas vão de multa a prisão
Ana Santos contou também que lhe foi ordenado para "ficar em pé a secar ao sol" e que foi pressionada a participar na praxe "pudim danone" - "as raparigas colocaram-se de gatas todas lado a lado, enquanto os rapazes tinham de simular o acto sexual com elas".
No mesmo dia, continuava Ana na exposição a Pedro Lynce, já na escola, um outro aluno veterano, que não era da comissão de praxes, decidiu praxá-la mais e pediu a dois caloiros que mergulhassem a cabeça dela num bacio com excrementos de vaca.
A carta divulgada teve grande impacto mediático até porque pouco tempo antes tinha sido tornado público nos media outra queixa de uma aluna do Instituto Piaget de Macedo de Cavaleiros.
Os sete alunos chegaram a ser alvo de processo disciplinar. E o Instituto Politécnico de Santarém decidiu suspendê-los por 15 dias.
Na sua defesa, os seis alunos que estiveram na Quinta do Bonito alegaram que nada de ilícito tinham feito e também que "a posição de "Elefante Pensador" é diversas vezes prática durante a praxe, de forma a acalmar os caloiros, pois é uma posição que favorece o relaxamento dos músculos". Uma caloira ouvida no âmbito do processo garantiu, contudo, que é uma posição "bastante dolorosa".
Em Novembro de 2005, o Tribunal de Santarém pronunciou apenas os seis jovens da comissão de praxes pelo crime de ofensa à integridade física qualificada. Ana Santos recorreu para o Tribunal da Relação de Évora, que, em Março de 2007, decidiu pronunciar também o sétimo aluno, pelo crime de coacção.
Manuela Miranda lembra que "o que a Ana mais queria era que lhe tivessem apresentado um pedido de desculpas". Já Lúcia Mata diz que os sete jovens não fizeram nada de mal e "consideram que actuaram no sentido do respeito pela tradição".
De acordo com o Código Penal em vigor à data dos factos, o crime de coacção pode ser punido com pena de multa ou pena de prisão de até três anos. O de ofensa à integridade física qualificada pode ser punido com pena de multa ou de prisão de até quatro anos. A primeira audiência do julgamento está marcada para as 10h15 de amanhã no 2.º Juízo Criminal do Tribunal Judicial de Santarém.
Para o Movimento Antitradição Académica, é um dia histórico: "Os crimes devem ser julgados e pela primeira vez reconheceu-se que nas praxes acontecem crimes", diz a dirigente Ana Feijão.

Vida em suspenso

Ana Santos mudou-se para Lisboa, ainda não conseguiu acabar o curso, custa-lhe falar do passado
Hoje tem 27 anos, não acabou o curso, os estudos esperam por melhores dias. Ana Francisco Santos, a aluna que em Março de 2003 se queixou de um grupo de colegas mais velhos na sequência das praxes a que foi sujeita, tem estado a aguardar que "isto chegue ao fim" e só quando "isto" - o processo judicial - tiver um desfecho é que acha que vai voltar a ter forças para se concentrar e prosseguir a licenciatura. "Gostava de ter sido mais forte para ultrapassar isto. Fiquei desmotivada..." A mãe, Virgínia Francisco, diz que a filha ficou com a "vida em suspenso".
Nos últimos anos, Ana trabalhou na caixa e no apoio ao cliente de uma cadeia de hipermercados em Lisboa, cidade para onde foi viver. Gostou muito, quer continuar e vai tentar articular o trabalho com a universidade. Já não pensa em desistir - chegou a pensar nisso, mas a mãe não deixou porque acha que não se tomam decisões importantes quando não se está bem.
Depois das praxes, muita coisa mudou. Por exemplo? Deixou de ser tão "expansiva" como era, "os inícios de ano lectivo são sempre dolorosos" - Ana diz que sente "o corpo todo a tremer" quando ouve falar em praxes, quando passam por ela caloiros a cantar às ordens de veteranos.
Regresso ao ano lectivo de 2002/2003: primeiro tentou esconder da mãe que desde as praxes a que tinha sido sujeita na Escola Agrária de Santarém nunca mais tinha conseguido sentir-se bem, que sempre que ia sozinha para a escola entrava pela porta das traseiras, que tinha medo e que se sentia humilhada. Depois desabafou e seguiu-se apoio psicológico, uma carta ao ministro, uma queixa na polícia, foi preciso recorrer a medicamentos para lidar com a angústia.
"Sentia-me olhada de lado, as pessoas não me falavam, no dia em que saiu a primeira notícia, no PÚBLICO [a 18 de Março de 2003], ouvi chamarem-me mentirosa." Acabou por abandonar Santarém sem se despedir de ninguém. Sentia que toda a gente achava que praxes é algo que se aguenta, não se denuncia. E por isso ainda hoje pensa duas vezes antes de falar do que se passou. Durante algum tempo voltou a Leiria, onde vive a mãe. Mas Pedro Lynce, então ministro do Ensino Superior, fez saber que estava disposto a, caso fosse necessário, criar uma vaga adicional para concretizar a transferência da aluna para outra escola - considerava que existia "fundamento" para que ela tivesse "um tratamento excepcional". No ano lectivo de 2003/04 Ana Santos foi estudar para Lisboa, no Instituto Superior de Agronomia, onde continua inscrita.
"Não estou arrependida de ter feito queixa", garante, com os olhos abertos e um tom firme. "Mas custa-me tanto falar disto!"

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

5 anos depois...

O Caso da Ana Santos remete ao ano lectivo de 2002/2003. Foi esfregada com merda e proibida de falar com a mãe ao telemovel.

Coisas "normais" na Escola Superior Agrária de Santarém (pelo menos, a julgar pelas palavras do do então director desta escola pública). Em quantas mais escolas será isto normal?

Este caso foi um dos poucos que contribuiu para alterar a opinião pública sobre o fenómeno (este sim maquiavélico) das praxes e até alterar o comportamente daqueles que se envolvem "de espírito" na suposta "integração" dos "pequenotes".

Para trás estão histórias escondidas que não serão jamais faladas. Mas para a frente, temos o primeiro julgamento em que estes comportamentos deixam de ser olhados como "brincadeiras" (porque, de facto, não são).
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O julgamento está marcado. Falta pouco mais de uma semana para mais uma clivagem no mundo da "tradição académica". E no nosso mundo também.

5 anos depois, o que é feito da Ana?

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Muito se empenham eles a tentar ter lucro na festa... até alteram a «tradição»!

Mais uma noite de foliana Queima das Fitas


A nova Comissão Central da Queima das Fitas já trabalha na festa


A maior festa dos estudantes portugueses, a Queima das Fitas de Coimbra, já tem a comissão de estudantes eleita que se vai responsabilizar pela próxima grande festa académica, que irá decorrer de 3 a 10 de Maio. Oito dias e nove noites, que prometem muita animação, numa festa que é uma marca incontornável da cidade. A próxima edição da Queima coimbrã traz novidades, que mexem com a própria história da festa. Pela primeira vez, a Queima das Fitas vai ter nove noites, que vão decorrer no Queimódromo, na margem esquerda do rio Mondego. Mas a grande novidade, em termos de tradição académica, é o facto do tradicional cortejo dos quartanistas - um dos pontos altos da Queima das Fitas - decorrer no primeiro domingo da festa (dia 4 de Maio), interrompendo a tradição ancestral das terças-feiras. O Processo de Bolonha, que mexe com todo o Ensino Superior, obrigou também os "doutores" da praxe coimbrã a mexerem nas velhas tradições. Para além de terem surgido novos títulos no Código da Praxe, Bolonha obrigou também o Conselho de Veteranos (que tutela a praxe em Coimbra) a mudar o figurino da Queima das Fitas. Com o o Cortejo ao domingo, o presidente da nova Comissão Central da Queima das Fitas (CCQF), Nuno Pais, acredita que "mais gente pode vir a Coimbra assistir ao cortejo". O facto da Queima de 2008 incluir mais uma noite (num total de nove) num momento em que são crescentes as queixas da população vizinha do Queimódromo em relação ao ruído, que se prolonga por toda a noite, não parece preocupar os jovens organizadores. "É a grande festa que mexe com a cidade", justificou Nuno Pais, que acredita na tradicional simbiose entre Coimbra e a sua Academia, embora os protestos junto da autarquia tenham subido de tom nos últimos anos. Também o que tem subido de forma clara são os lucros da festa. Depois de uma crise, com a apresentação de um saldo negativo, que motivou queixas às autoridades, as duas últimas queimas deram lucros avultados. O recorde foi mesmo batido no ano transacto, com 811 mil euros de benefício. Questionado sobre se estes altos valores positivos não podem aumentar a pressão sobre os jovens organizadores, desejosos de conseguirem ainda mais lucro do que no ano anterior, o presidente da nova CCQF disse que o desejo da sua comissão "é fazer a melhor festa possível para os estudantes, sem dar prejuízo". Se der lucro, quem lucra também são os próprios estudantes, através da Associação Académica de Coimbra e das suas secções desportivas e culturais.


Américo Sarmento

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

No Exército da Rússia há praxes que matam

Mais de 200 militares russos suicidaram-se no ano passado
28.01.2008

No ano passado, o número de suicídios no Exército da Rússia foi de 224, segundo anunciou o Ministério da Defesa russo, durante o fim-de-semana, no seu site oficial. Esta foi a causa de quase metade do total de mortes de soldados russos em 2007.
Ainda segundo os dados oficiais, outros 15 morreram na sequência de praxes.
Outras causas incluíram acidentes (167 mortes), alguns rodoviários (41), assassínio acidental (23) ou uso incorrecto da própria arma (13), diz ainda o Ministério da Defesa de Moscovo no seu site.
As organizações não governamentais russas chamam frequentemente a atenção para casos de praxes violentas aos recém-chegados ao Exército. Defensores dos direitos humanos denunciaram na semana passada pressões e violência da parte do comando militar na Rússia a "centenas" de recrutas para os obrigar a continuar no exército profissional, para o qual é difícil recrutar voluntários.
O Governo russo reduziu a duração do serviço militar obrigatório a um ano para os recrutas chamados a partir de 2008 - antes era de dois anos -, prometendo aumentar o número de soldados profissionais, algo que tem vindo a revelar-se difícil.

in Público

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

O melhor é assobiar para o lado...

No Diário de Notícias 16 de Dezembro de 2007, três parágrafos da crónica do sociólogo insociável Alberto Gonçalves, disseram respeito ao MATA:

MATA E ESFOLA
O melhor argumento contra as "praxes" universitárias são as próprias. O único argumento a favor das "praxes" são os movimentos que se formam, muito organizadinhos, para as combater. Por estes dias, soube-se que o aluno que, na Escola Superior Agrária de Coimbra, se lançara de cabeça para um lamaçal ficou paraplégico. Sem que se percebesse porquê, o MATA entrou no baile. O MATA diz ser o Movimento Anti--Tradição Académica e, segundo li, "promove iniciativas e denúncias contra a praxe e o autoritarismo". Por encomenda de quem, exactamente? Para salvar quem, exactamente?
Que se saiba, o principal método de afrontar a "praxe" é ignorá-la. Foi o que eu fiz quando, nos primeiros instantes de universidade, suspeitei que teríamos circo. Não sendo apreciador, fui-me embora e só regressei depois de desmontada a tenda. Outros deixaram-se estar e entraram no frenesim. Ao vê-las ao longe, confesso que me ocorreu certo desdém por aquelas criaturas em fila indiana e rabiscos na cara. Não me ocorreu convertê-las à Verdade. A verdade é que pareciam felizes, e no mínimo enxovalhavam-se de livre vontade.
O aluno de Coimbra, que até frequentava o 3º ano, mostra que a escolha individual não é aqui desprezível. Anos passados, inúmeras pessoas evocam as palhaçadas da "praxe" com terna nostalgia, e não será justo privar os moços de hoje de evocações futuras e das palhaçadas presentes. Por um óptimo motivo: eles gostam das palhaçadas. Se não gostam, podem evitá-las com facilidade (mesmo arriscando uma imaginária "integração"). Se não podem evitá-las, e se vêm forçados sob ameaça de arma a chafurdar em lamaçais, o assunto é de polícia. Em nenhuma circunstância o assunto diz respeito ao MATA ou à sua casa-mãe, o Bloco de Esquerda (que quer uma linha de apoio às "vítimas" da "praxe"). De resto, abolir costumes a pretexto da sua subjectiva tolice ou ocasional perigo implicaria o fim de quase todas as actividades.

Aqui fica a resposta que o MATA enviou para a imprensa, ainda não publicada:

Praxe: a necessidade da discussão e da acção

Comecemos por concordar com o sociólogo Alberto Gonçalves que escreveu, no dia 16, um artigo de opinião que abordava, entre outros, o tema da praxe e a existência do M.A.T.A. . De facto o melhor argumento contra a praxe são as mesmas. A observação da praxe, por muito pouco atenta que seja, põe logo a nu o que de pior (e também de mais intrínseco) nelas há, que é a dominação de uma pessoa por outra, a subjugação de um estudante por outro. A existência dos “casos” revela mais uma faceta, a sua arbitrariedade (porque depende da vontade de alguém) e a sua tendência para o abuso e violência.

A concordância termina por aqui. Para nós, M.A.T.A., a melhor forma de se combater as praxes não é assobiar para o lado fingindo que não se vê ou não existe. Ou simplesmente olhar de fora com desdém, superioridade e moralismos para aqueles e aquelas que ainda não atingiram a "Verdade " (que verdade será esta a que se referia?)... A nossa resposta é combatê-las onde elas são mais frágeis, que é nas suas contradições. Para integrar é preciso humilhar? Para divertir é preciso um estar de pé e outro de joelhos? Para fazer coisas em conjunto é preciso alguém mandar? E combatemo-las criando debate e discussão, fracturando os falsos consensos que a praxe tenta impor. E fazêmo-lo também de outras formas, formas criativas como lançar um CD por nós idealizado e construído com tantas outras pessoas, no qual várias bandas mostram que estar na faculdade é precisamente a recusa do que nos é imposto e a procura de novas formas de estar e de ser. É apenas um exemplo entre muitos outros possíveis.

De facto a escolha individual na praxe não pode nem deve ser desprezada. Se se pode admitir que alguém tenha o direito a querer ser pintado, humilhado, enxovalhado ou pau mandado de outro, já não se pode reclamar o direito de fazer de outro o seu pau mandado. Ora, é essa a essência da praxe. Seja ela mais ou menos "moderada". Por isso é que combatê-la envolve um debate transversal na sociedade e na escola. Porque é uma escolha da sociedade, das suas liberdades e escolhas, que este assunto em si encerra.

E desse papel a Assembleia da República não pode nem deve abster-se. Se é o Bloco de Esquerda que promove esse debate, é uma escolha desse partido. Mas dizer que o Bloco de Esquerda é a casa-mãe do M.A.T.A. é ignorar completamente mais de uma década de actividade onde convergiram pessoas de várias sensibilidades politicas (e partidos, também). E uma pesquisa mais atenta mostrar-lhe-ia que o M.A.T.A. existe desde 1994 e o Bloco desde 1998...

As tradições e costumes fazem parte de uma cultura e uma sociedade, que estão em constante mudança, com as suas vivências e as forças que nela operam. Portanto a cada altura essa sociedade deve questionar se as suas tradições ainda se aplicam, se se justificam ou se ainda fazem sentido. Porque se assim não fosse, as mulheres ainda não teriam "Direito à Igualdade e a estar livre de todas as formas de descriminação", por exemplo.

Para terminar, aproveitamos o artigo deste sociólogo para dizer que achamos normal e saudável que haja oposição – estamos, aliás, bem habituados a ela –, mesmo quando essa oposição considera que existem apenas algumas “verdades” legítimas. Ela é mais uma das razões que nos ajudam a pensar nas coisas que acontecem à nossa volta e nos dão energia. Energia para querer continuar a pensar, a falar, a ouvir, a fazer, a mudar e a transformar.

Vitor Ferreira, “Movimento Anti-Tradição Académica”

sábado, 22 de dezembro de 2007

Chamem a Polícia! Se for autoritária.

Há quem pense na "autoridade" como solução para vários problemas, maiores ou menores, que vão surgindo pelo caminho.
Recordemos apenas dois exemplos.
No início dos anos 90, duas as principais manifestações sociais - em 1993, milhares de estudantes contestavam a lei das propinas; em 1994, milhares de condutores buzinavam contra as portagens da Ponte 25 de Abril - terminaram com forte repressão por parte dos agentes da "autoridade". No dia 25 de Abril de 2007, as comemorações do Dia da Liberdade acabaram com violência policial.

Há poucos dias, João Cardoso Rosas retomou o tema.

Não se passa um dia sem que veja na minha universidade grupos de alunos do primeiro ano a serem praxados pelos mais velhos. Apesar de as autoridades académicas terem chegado a um acordo com os representantes dos alunos no sentido de restringir as praxes realizadas no “campus” às duas primeiras semanas de aulas, elas não abrandaram ainda, catorze semanas depois do início do ano lectivo. Isto significa que os dirigentes da instituição estão formalmente numa posição de autoridade, mas não têm autoridade efectiva.

Segundo o seu artigo, não só as praxes são um exemplo de como se exerce autoridade, como também são motivo para que os responsáveis pelas escolas retomem o seu papel disciplinar.
Em poucas palavras, também nos parece que a autoridade é um problema. Mas o problema é quando ela existe, ou quando alguém acha que é necessária. O problema é que ela é trocada por responsabilidade e responsabilização (ou não?).

A autoridade é uma imposição. Da "verdade" que tem que ser aceite por todas as pessoas; da forma "correcta" de fazer as coisas; "custe o que custar".
A nostalgia da autoridade dos nossos universitários devia ser uma lição para todos aqueles que têm de exercê-la, especialmente os pais, professores, polícias e políticos em funções. Numa sociedade democrática a autoridade não é nunca um valor em alta. Mas também é verdade que as principais instâncias de socialização - família, escola, espaço público - não podem subsistir sem a autoridade efectiva daqueles que as dirigem. O facto de as ruas das nossas cidades, as escolas e, por vezes, até as famílias se terem convertido em campos de batalha não é senão o resultado da erosão da autoridade.

De facto, é mais fácil criar um sistema que mantenha a ordem do que tentar perceber como se conciliam as diferenças. É mais fácil aceitar a forma antiga de fazer as coisas e pensar que tem mesmo que ser assim.
Mas tem mesmo que ser assim?
Não passarão os princípios da Democracia ao lado de "autoridade"?
Quem "dirige" sabe mesmo a forma certa de fazer as coisas?
Não é possível a vida em sociedade sem "códigos de conduta"? Será que a vida em sociedade é compatível com a autoridade de uns sobre outros?
E quem é que manda? Quem é mandado? Pau-mandado?




sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Praxes na Assembleia da República

No momento em que o M.A.T.A. atraiu mais de uma centena de pessoas a um debate organizado pelo G.A.E. (Grupo de Acção Estudantil), a uma sala do I.S.C.T.E. - sítio onde, como em todos os outros, «as praxes são diferentes» -, o plenário da Assembleia da República ouviu falar de praxes.

Será uma discussão para continuar?



E já agora, querem descobrir as diferenças das praxes do I.S.C.T.E.?



Boa Sorte! Quando descobrirem, digam.
(Aparentemente, a única diferença é a excessiva obsessão por cenas sexuais, com uma dose considerável de sexismo e homofobia.)

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Aluno fica paraplégico na sequência de praxes

Aluno de 20 anos ficou paraplégico
Estudante da Escola Superior Agrária de Coimbra "deslizou pelo declive de livre vontade"
11.12.2007 - 18h39 Maria João Lopes

O estudante de 20 anos da Escola Superior Agrária de Coimbra ferido durante as praxes, no final de Novembro, acabou por ficar paraplégico. Apesar de não mexer as pernas, existe ainda a esperança de que possa recuperar o movimento dos braços e, por isso, vai ser transferido do Hospital dos Covões em Coimbra, onde continua internado, para uma unidade de saúde especializada em reabilitação, em Cantanhede, explicou a directora clínica do Centro Hospitalar de Coimbra (CHC), Deolinda Portelinha.
“O jovem apresenta alguma mobilidade nos braços e existe a expectativa de que a possa recuperar totalmente”, afirmou ao PÚBLICO, acrescentando que, no futuro, deve ser feito “todo o investimento” na reabilitação deste jovem que, até por se encontrar completamente “consciente”, apresenta grandes hipóteses de “evolução favorável”.
O grave acidente que deixou este jovem paraplégico aconteceu no passado dia 28 de Novembro, no contexto das praxes académicas. Apesar de não ser “caloiro” e de frequentar o 3º ano de Engenharia do Ambiente, o estudante participava nas actividades da praxe, durante as quais os alunos deslizavam de um declive entre dois terrenos, com cerca de dois metros, para uma vala com lama e palha.
Muitos estudantes o fizeram, muitos se lançaram do declive, mas foi este jovem que, na sequência da queda, sofreu um traumatismo vértebro-medular, com diversas fracturas, na região cervical. “Foi um acidente que podia ter acontecido a qualquer um”, afirmou o presidente da Associação de Estudantes daquela escola, José Eugénio Lopes, que estava no local no dia do acidente.
Apesar de lamentar o sucedido, José Eugénio Lopes continua a afirmar que a associação “não tem qualquer responsabilidade na organização da actividade e no incidente” e que o jovem deslizou pelo declive de livre vontade, não tendo sido obrigado por ninguém a fazê-lo. Até porque, frisa, o estudante “não era caloiro” e naquele dia as praxes “destinavam-se unicamente aos alunos do primeiro ano”. Admite, porém, que aquela actividade – escorregar pelo declive até à vala – é comum durante as praxes e que vários estudantes a fizeram durante o dia.
O PÚBLICO tentou, por isso, contactar o conselho directivo da escola para saber se tencionam proibir a actividade, mas os professores recusaram prestar declarações. Apesar de já na altura do acidente, em Novembro, não terem prestado declarações à imprensa, os membros do conselho directivo enviaram uma nota a lamentar o “acidente ocorrido” durante as “actividades da Real Praxe”. No comunicado, garantiam que tiveram o “maior cuidado no sentido de evitar eventuais exageros, que pusessem em causa a dignidade e a saúde dos alunos submetidos às actividades praxísticas”. Mas, admitiam, “não foi possível evitar este acidente”.
Depois da queda, o jovem teve que ser operado no Hospital dos Covões - que faz parte do CHC -, e, apesar de a intervenção ter estabilizado a fractura cervical, os médicos chegaram a temer que o jovem ficasse tetraplégico, deixando de mexer os braços e as pernas. Porém, e apesar de ter perdido o movimento das pernas, o jovem “tem alguma mobilidade nos braços” e, segundo Deolinda Portela, poderá recuperá-la na totalidade com a fisioterapia que irá agora iniciar no Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro - Rovisco Pais, na Tocha (Cantanhede).
No final de Novembro, depois deste acidente e de outro muito semelhante em Elvas, que envolveu um aluno do primeiro ano, o M.A.T.A. - movimento anti-“tradição académica” – reagiu e, em comunicado enviado à imprensa, acusou o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Mariano Gago, de nada fazer para resolver a questão da praxe académica: “(...) espanta-nos que no início da sua legislatura o ministro Mariano Gago tenha manifestado total repúdio perante estas práticas, tendo chegado a caracterizá-las como fascistas, mas que rapidamente tenha adoptado uma postura de total silêncio sobre o assunto.”

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1313473&idCanal=58

Debate ISCTE

Quinta-feira, dia 3, às 15h30,
no auditório 2 do Edificio Velho do ISCTE

Debate sobre PRAXE,

com a presença do Presidente da Comissão de Praxe do ISCTE e com o M.A.T.A.

Vamos debater, discutir, partilhar, criticar, ideias, opiniões e conceitos.
Aparece!


segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Mural


sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Mais uma vez "acidentes" da praxe são notícia

No passado dia 28 de Novembro, em Elvas e Coimbra assistiu-se, mais uma vez, aos efeitos da praxe, desta feita não só na vida estudantil, mas também na vida de pessoas. Tal como se passou com a Ana Sofia Damião e a Ana Santos, a vida dois jovens nunca mais será a mesma depois de sujeitos às "brincadeiras" da praxe.
Em Coimbra, no contexto da "Real Praxe", Luís Vaz, 20 anos, estudante de Engenharia do Ambiente na Escola Superior Agrária de Coimbra, ter-se-á lançado de um escorrega, com um desnível de 2 metros, para um "lago" de lama e palha. A queda resultou em lesões vertebro-medulares a nível da coluna cervical, sendo que neste momento o estudante se depara com a possibilidade de uma tetraplegia permanente.
No mesmo dia, em Elvas, também no contexto das actividades de recepção ao caloiro, João Pedro Farinha, estudante do 1º ano na Escola Superior Agrária de Elvas, após o "tradicional" rally tascas, terá sofrido uma queda de uma altura de 20 metros, perante o olhar atónito dos seus colegas.
O que é apontado como uma brincadeira, moderada e desejável, é-o apenas no discurso, porque as suas práticas traduzem um total desrespeito pelas liberdades e direitos das pessoas que nelas participam. Na nossa opinião, tal apenas vem demonstrar que as estruturas que a praxe tem vindo a organizar numa tentativa de legitimização, institucionalização e moderação (que surgiram como resposta às pressões de uma opinião pública cada vez menos disposta e menos tolerante perante as "brincadeirinhas" da praxe), não são mais que uma operação cosmética a algo que na sua essência não é mascarável: a subjugação dos estudantes pelos estudantes.
É imperativo que a comunidade escolar (estudantes, professores e funcionários), o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e a sociedade reflictam sobre estes fenómenos.
Aliás, espanta-nos que no início da sua legislatura o ministro Mariano Gago tenha manifestado total repúdio perante estas práticas, tendo chegado a caracterizá-las como fascistas, mas que rapidamente tenha adoptado uma postura de total silêncio sobre o assunto.
Chamar brincadeira e integração a algo que permite a prática de actos bárbaros e transforma estudantes, supostamente iguais entre si, em executantes de práticas selvagens e arbitrárias obriga a que a sociedade portuguesa, que se diz livre e democrática, reflicta urgentemente e de forma muito séria sobre as praxes.

M.A.T.A. - movimento anti-"tradição académica"

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

O que não mata engorda

O MATA ainda não matou ninguém. Nem está a pensar fazê-lo. O nome, que alguns tanto acusam de ser agressivo, mostra a vontade que um pequeno grupo de estudantes teve de provocar alguma agitação nas águas estagnadas (senão regressivas) do meio universitário no início dos anos 90. É interessante pensar que os mesmos que tanto se indignam com a agressividade da palavra «mata» são os mesmos que insistem que as praxes e a tradição académica são dóceis brincadeiras e que quem não precisa delas é porque não gosta de brincar.
Mais de dez anos já passaram desde o início do MATA. Com o agravar da apatia das gentes que nos rodeiam e das aparentemente imparáveis correntes de massas sonâmbulas, sentimos cada vez mais a necessidade de lançar gritos dissonantes, de afiar bicos que rebentem as bolhas em que vivemos e de dizermos o que pensamos sem medo de ferir consensos e incomodar os poderes.
A luta contra a praxe não é para nós um fim, por si só. Se nos indignamos com ela e com os trajes negros em que roçamos ao passar nos corredores da faculdade e na rua, é porque a chamada “tradição académica” não sabe ser senão um veículo dos valores mais conservadores, sexistas, autoritários e passadistas que pode haver. Em vez disso, gostávamos de encontrar nas faculdades mais espaços de discussão sobre o que aí se passa e o que se passa no mundo, sobre aquilo que interessa às pessoas que nelas vivem várias horas dos seus dias. Em vez de organizar praxes, preferimos organizar actividades em que todos se sintam iguais com as suas diferenças e onde possamos criar objectos que reforcem o nosso desejo de mudar as nossas formas de estudar, de nos divertir e de viver.
Partindo dessa vontade, o MATA já criou, colou e distribuiu centenas de cartazes e panfletos e pintou dezenas de murais, já organizou vários debates e duas festas (sem quaisquer patrocínios de cervejeiras ou outras empresas!) e editou oito Toupeiras, um vídeo e o cd Não resistir só e não só resistir, que junta as músicas de várias bandas pouco tradicionais que continuam a não querer acomodar-se. Descobrimos que para fazer coisas basta ter mãos e cabeça, e vontade de não estar sozinho. Agora que o sabemos, experimentem dizer-nos para parar!